04 fev

Quilombo Caiana dos Crioulos recebe imissão de posse do território na Paraíba

Por Maryellen Crisóstomo

ASCOM CONAQ

A comunidade quilombola Caiana dos Crioulos no município de Alagoa Grande, PB, recebeu na última segunda-feira, 03, a imissão de posse de parte do Território. A ação contempla 500 pessoas de 98 famílias remanescentes de quilombos da comunidade Caiana dos Crioulos. Na ocasião, a titular da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SNPIR), Sandra Terena, esteve presente para entrega do documento, na fazenda Sapé.

Foto: José Maximino

A presidente da Associação dos Moradores da Comunidade Quilombola Caiana dos Crioulos, Edinalva Rita do Nascimento, comemora a conquista e ressalta a importância da luta das matriarcas e patriarcas da comunidade. “Saber que agora essas famílias podem plantar sem limites e com toda liberdade, isso pra nós é glorioso, é dar aquele suspiro de alívio porque agora sim, temos terra, temos liberdade, teremos sobrevivência” afirma.

O Coordenador da CONAQ, José Maximino acompanhou a comunidade Caiana dos Crioulos no evento de entrega do documento. “É muito significativo e simbólico, pois demonstra que a nossa luta não em vão e que ainda podemos ter esperança, diante de tanto retrocesso que estamos vivendo, além de servir de motivação para as demais comunidades. A Imissão desse documento representa a garantia e o respeito aos nossos direitos conquistados pelos nossos ancestrais”, disse Maximino ao citar a resistência dos povos quilombolas em meio a dificuldade de acesso aos direitos.

Foto: José Maximino

Segundo Maximino, apenas três das mais de 40 comunidades autoidentificadas e certificadas da Paraíba, conseguiram o título dos territórios, mas, ponderou que “os processos, na maioria das vezes, são danoso, violento e que põe em risco a existência da própria comunidade. Ter acesso ao seu território é garantir acima de tudo, sua sobrevivência, existência e futuro das novas gerações”, ressaltou.

Em meio aos retrocessos políticos e retiradas de direitos, Edinalva, observa que este é momento de unir forças e fortalecer a luta dos povos quilombolas do Brasil. “Foram 24 anos de luta junto a justiça, (essa conquista é) graças a resistência dos Quilombolas, dos movimentos Quilombolas, dos parceiros como: AACADE, CCNEQUE, setor quilombola do INCRA, DPU, MPF, que se dedicaram e incorporaram a luta. Agora a luta continua pelas outras comunidades Quilombolas e pela organização das áreas conquistadas para fazer valer apena todo suor, sangue e lágrimas derramados à cada canto dessa terra”, conclui.

Em uma carta lida na solenidade de entrega do documento a comunidade agradeceu aos antepassados e aos órgãos e pessoas do território e de fora que acreditaram na luta e lembrou-se das mais de 40 comunidades na Paraíba à espera desse momento a que chamaram de: libertação. “Este é o momento de afirmar e gritar nossa dignidade, nosso valor, nossos direitos: existimos e queremos vez e lugar. Tudo se conquista com consciência e luta” ressaltou a comunidade, na carta.

Foto: José Maximino

Segundo informação do site do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, já está disponível 1,9 milhão para regularização de oito territórios quilombolas sendo, seis no Estado da Paraíba, entre eles Caiana dos Crioulos – que contará com o valor de R$ 1.454.511,10 para a regularização, e dois no Ceará. A nota do site não cita o nome dos outros sete territórios.

Leia abaixo a carta da comunidade que foi lida no evento de entrega do documento de imissão de posse

FINALMENTE A TERRA…

03/02/2020

Esta terra que estamos pisando, finalmente é nossa. Demorou, mas chegou este dia. Foram muitos anos de espera, de dúvidas, decepções. Mas agora estamos pisando (convida todo mundo a pisar com força) aquilo que nos pertence. Nossos antepassados trabalharam aqui e derramaram suor, sangue e lágrimas por serem escravizados. Nos deixaram esta herança que nunca nos foi reconhecida. As pedras e as paredes do Engenho e da Casa Grande guardaram os gritos de dor dos corpos martirizados do nosso povo em nome do preconceito, ganância e desamor.   Mas um cidadão chamado Luís Inácio Lula da Silva, depois de ouvir os protestos dos Quilombolas do Brasil, no vinte de novembro de 2003, como presidente promulgou o decreto 4887 que reconhecia e regulamentava os territórios quilombolas, garantindo o direito sagrado aos descendentes dos escravizados de possuir sua terra. O caminho foi longo e complicado: até agora somente SENHOR DO BOMFIM (Areia) GRILO (Riachão de Bacamarte) conseguiram este direito. Agora é nossa vez. Tem mais quarenta comunidades quilombolas na Paraíba que estão na lista de espera. Temos que agradecer a resistência dos nossos antepassados, os movimentos quilombolas, as muitas pessoas da Caiana e de fora que acreditaram que isto era possível. O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) tiveram um papel fundamental como também as profissionais do setor quilombola do INCRA. AACADE e CECNEQ estiveram sempre presentes nesta jornada. Apesar de tanto desmantelo em que se encontra nosso país, ainda tem muita gente séria que acredita na justiça e na igualdade. O caminho da libertação da escravidão é comprido: nesta luta muita gente tombou, foi esmagada e silenciada. Infelizmente ainda hoje isso acontece. Este aqui é um passo rumo a libertação. Ainda tem muito preconceito contra os negros, os pobres: nossos direitos custam a chegar. As políticas públicas estão sendo destruídas. Nosso país, por meio de muitos de seus representantes, nos coloca de lado, nos considera inferiores. Este é o momento de afirmar e gritar nossa dignidade, nosso valor, nossos direitos: existimos e queremos vez e lugar. Tudo se conquista com consciência e luta.

VIVA A NOSSA TERRA, VIVA A CAIANA DOS CRIOULOS, VIVA OS QUILOMBOS.

 

 

 

Foto: José Maximino

 

 

 

Foto: José Maximino

 

 

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