O Protagonismo das Mulheres Quilombolas

Com 20 anos de existência, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – CONAQ segue na luta diária pela demarcação dos territórios e soberania do povo Quilombola no País, no enfrentamento ao racismo institucional, ambiental, social, cultural e principalmente na vigília constante para que as Leis sejam cumpridas, a favor daqueles(as) que dela necessitam. Não existe luta quilombola sem a participação feminina. Somos conhecedoras que nós, mulheres quilombolas, acumulamos ao longo da vida a função de ser mãe ou não, ser responsável pelo lar, cuidar da roça, dos animais, seja quebrando coco, torrando farinha ou fazendo carvão, na labuta diária dos afazeres, no cuidar da família, trabalhando no comércio, na saúde, na educação, estudando. Enfim, acumulando funções na tarefa diária que é ser mulher.

A violência que sofremos é uma violência pelo fato de sermos mulheres, essa é a primeira violência.  A violência pode ser física, moral, psicológica. As inúmeras violência que acometem com as mulheres quilombolas são experimentadas no nosso próprio território, envolvendo: família, meio ambiente, religiosidade, racismo institucional. A violência  doméstica é um dos principais problemas nas nossas comunidades, e seguimos firmes em denunciar sempre!

Identificamos que a manutenção de nossas lideranças dentro das comunidades é difícil, especialmente nossas jovens. Não há incentivos para permanência das mesmas nos territórios. Temos que sair do quilombo em busca de formação técnica profissionalizante. Com isso se enfraquece o vínculo com a comunidade e o sentido de pertencimento às raízes.

Em torno de questões que são prioridades na nossa luta das mulheres quilombolas, nos reunimos em grupos de trabalho, intercambiamos experiências, realizamos encontros nacionais, oficinas e elaboramos propostas para a construção e aprimoramento das políticas públicas, do ponto de vista das mulheres quilombolas. Dialogamos sobre o que queremos no processo de regularização fundiária, a gestão do nosso território, a educação quilombola, moradia, saúde da mulher, geração de renda, valorização das produções culturais e artesanais local, certamente que na busca pelo reconhecimento dos nossos territórios muitas de nós perderam a vida, tiveram sangue derramado diante dos conflitos em torno do território.

Mesmo comunidades já tituladas até hoje sofremos com a ação de fazendeiros, empresas, órgãos do governo, dentre outros. Reivindicamos que o processo de regularização fundiária se desburocratize e seja mais ágil, pois essa morosidade implica no aumento dos conflitos.

A Convenção 169 da OIT deve ser colocada em prática. A adesão do Brasil a essa Convenção é fundamental para nós. Ressaltamos ainda a importância de combater outras tentativas de retrocesso na garantia de nossos direitos, como a Ação Direta de Inconstitucionalidade – Adi 3239, que questiona a constitucionalidade do Decreto 4887/2003 e a Proposta de Emenda Constitucional – PEC 215, em tramitação avançada no Congresso, sobre a demarcação e delimitação de terras indígenas e quilombolas.

É neste sentido, que as mulheres quilombolas do Brasil, realizaram, em Brasília-DF, entre os dias 13 e 15 de maio de 2014, o I Encontro Nacional, com o objetivo de consolidar a luta pela terra, avaliar as políticas públicas e promover o dialogo entre as varias organizações quilombolas do Brasil. Participamos ativamente da construção e realização da Marcha das Mulheres Negras em 2015, um marco histórico na luta das mulheres negras do Brasil e não paramos pois seguimos realizando encontros estaduais, regionais, municipais de mulheres quilombolas por todo país, realizamos 03 Oficinas de mulheres: Kalunga – GO, Região Pantaneira – MT e no Piauí e em 2017 realizaremos: 1º Encontro das Coordenadoras da CONAQ da Região Nordeste no Ceará e a Oficina Nacional de Mulheres no Estado do Rio de Janeiro, que servirão para nos nortear nossos passos no emponderamento das mulheres quilombolas, o qual se dá em suas mais variadas formas, gestos e manifestações, enfrentando a desigualdade racial, social, de gênero, geração e etnia.

Em nome de todas as mulheres quilombolas que se encontram privadas de sua liberdade, ameaçadas de morte e por todas que tombaram na luta, que tiveram seu sangue derramado pelo conflito agrário, pela violência doméstica; em nome de cada menina que nasce; em nome de cada mulher que assume o papel de transformar a sociedade racista, machista, patriarcal, é que seguimos firmes, cada dia mais forte na nossas construção de uma sociedade com igualdade, respeito, sem racismo. machismo, seguimos transformando o destino e escrevendo as páginas da história das mulheres quilombolas, seguindo os passos de Dandara dos Palmares, Tereza de Benguela, Zacimba Gaba, Aqualtune e tantas outras líderes quilombolas que tiveram sua história anulada.

Mulheres Quilombolas na labuta por: Igualdade, Justiça, Território e nenhum direito a menos.

 

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