A Juventude do Brasil também é Quilombola

Quilombo Tapuio em Queimada Nova/PI

A Juventude do Brasil também é Quilombola

Comunidades quilombolas são grupos com trajetória histórica própria, cuja origem se refere a diferentes situações, a exemplo de doações de terras realizadas a partir da desagregação de monoculturas; compra de terras pelos próprios sujeitos, com o fim do sistema escravista; terras obtidas em troca da prestação de serviços; ou áreas ocupadas no
processo de resistência ao sistema escravista. Em todos os casos, o território é a base da reprodução física, social, econômica e cultural da coletividade.
Nós, jovens quilombolas de diferentes estados e regiões do Brasil, somos de Territórios diferentes, culturas diferentes, gostos, e até mesmo linguagens pouco parecidas. Quando nos vemos, em contato com outros jovens quilombolas pela primeira vez, percebemos o quão diferentes somos também, fisicamente. Conversando, percebemos que independente da região, ou do estado de onde viemos, temos em comum a solidariedade, o respeito à ancestralidade, aos ensinamentos coletivos, a vontade de superação das desigualdades em nossas comunidades e municípios, a alegria e fé na Ação, e a força de quem sabe de onde veio.
Os quilombos são espaços de relações sociais próprias e em muitos casos familiares, tradicionais e dinâmicas, composta por população negra, afro descendente e agregados. Os quilombos são espaços de interação e familiaridade. Somos todos meio parentes. “Tios e Tias”, madrinhas e padrinhos, primos e parentes em comum. E essa herança cultural ‘afro-centrada’, nos identifica ente relações de convivência e solidariedade, expressa através das variadas formas do “conviver”.
As comunidades quilombolas preservam a biodiversidade e a cultura de um Brasil que não se vê mais nas grandes cidades, com gostos, cheiros e sabores que remetem à uma outra forma de viver, em comunidade, em
familiaridade. Somos uma afro descendência, viva e pulsante, ao contrário do que dizem os livros de história e alguns pensamentos mais antigos e desinformados sobre as dinâmicas culturais das nossas comunidades. Sobre esse assunto somos firmes: os quilombos vivem!
Somos parte de uma longa história de resistência, cultura, força, dor e alegrias, mas somos também o hoje e o amanhã de nossas comunidades, e de nossa história. Somos mais! Somos sujeitos de direito desse ‘Estado democrático’, que silencia as dívidas históricas com a população negra, sobretudo no meio rural.  Somos parte dessa
população. Somos O Povo e temos voz!
E nós, jovens quilombolas de ponta a ponta do Brasil, estamos aqui para denunciar, dentre outras coisas:
1. O pouco interesse dos gestores e municípios em realizar e possibilitar o acesso de jovens quilombolas à Conferência Nacional de Juventude;
2. O descaso com que são tratadas as pautas da juventude rural negra e afro-descendente;
3. A lentidão na regularização dos territórios quilombolas, o que favorece a evasão do campo;
4. A falta de informação e execução dos programas destinados às comunidades quilombolas, que possibilitariam o trabalho descente nas comunidades de origem, o que favorece o abandono escolar;
5. Os abusos e a exploração sexual de crianças e adolescentes dentre e nas comunidades em torno dos quilombos, especialmente às meninas e jovens mulheres;
6. A exploração de mão de obra de jovens sem o pagamento digno;
7. O uso excessivo de álcool e outras drogas, sem o devido conhecimento dos efeitos causados por estas, nas comunidades;
8. A ausência do Estado, na maioria das comunidades quilombolas;

E afirmar:
1. A necessidade de ampliação dos espaços de participação composta por jovens quilombolas, voltados à diversidade entre as próprias comunidades;
2. O aumento simplório da participação de jovens quilombolas nas Conferências de Juventude;
3. A necessidade de que a Secretaria Nacional de Juventude, cobre dos estados as ações que estão sendo executadas, e impulsione outras mais, por município;
4. A obrigatoriedade da vaga reservada à jovens quilombolas e indígenas nos Conselhos Municipais e Estaduais de Juventude que já existentes, e garanta a viabilidade da participação desses jovens;
5. O incentivo direto e indireto à estruturação e criação de coletivos e espaços de formação voltados à juventude quilombola, promovendo a participação em editais públicos e atividades culturais, artísticas, políticas, de controle social, educacionais, científicas, voltadas aos empoderamento e desenvolvimento pessoal e coletivo destes jovens;
E finalmente dizer: nós, jovens quilombolas que, conseguimos enfrentar todos os obstáculos impostos e o racismo institucional, visualizado nas etapas municipais, estaduais e regionais, e chegamos à Conferência Nacional de Políticas para Juventude, em Brasília, afirmamos a toda a juventude presente e futura, que: a juventude do Brasil também é quilombola e nós nos orgulhamos muito disso!

1 – Quais as nossas diretrizes políticas enquanto jovens de povos e comunidades tradicionais?
Em poucas horas começamos a perceber o que tínhamos em comum. A partir do diálogo inicial, e depois de plantar a semente no quintal de casa, começamos a sentir o que nos aproximava. As dificuldades, dentre elas financeiras, infelizmente foram as primeiras a serem percebidas. Os conflitos territoriais, a violência e a falta de oportunidades, também foram ponto em comum nas nossas rodas de conversa.
Percebemos que a lentidão e a “preguiça” da burocracia do estado, a corrupção, e o racismo institucional (através da sonegação de informações e desinteresse da maioria dos gestores públicos) entravam as políticas públicas por todo o Brasil, e evitam diariamente que nossas crianças, adolescentes e idosos, tenham uma melhor qualidade de
vida.

2 – Qual é a nossa visão de progresso? E progresso pra onde?
Dentre as rodas de conversa, foi apontado por muitos, que o nosso maior desafio é o de “respeitando a tradição cultural, sermos sujeitos vivos e atuantes nas transformações sociais que queremos hoje, e a garantia de que tenhamos nossos direitos humanos assegurados e efetivados”.
Dialogamos ainda sobre a importância da problematização de questões que nos afetam cotidianamente na vivência em comunidade. Como relação com os “mais velhos”, o que queremos para o futuro, e sobretudo para o presente, a defesa daquilo que valorizamos, por um lado, e a afirmação da necessidade de transformações, em outro.

3 – Somos diferentes e queremos ser reconhecidos em nossas singularidades!
Concluímos que temos uma visão de mundo diferenciada. Queremos uma comunidade, um município, um território com oportunidades para todas e todos. Queremos respeito! Respeito pela nossa forma de ser e estar no mundo, pelos nossos direitos, respeito aos nossos ancestrais e memórias, respeito aos direitos conquistados e merecidos após anos de resistência à escravização da população negra. Queremos sobrepor com nossas conquistas as consequências vivenciadas até hoje por nossos familiares e comunidades.
Destacamos a necessidade de incentivo e valorização da população negra e quilombola trabalhadora do meio rural, para o ensino da nossa verdadeira história, para o referenciamento de nossos legados e personagens nas escolas, para o reconhecimento das lutas travadas antes de nós.

4 – Somos verdades, os quilombos vivem!
Os território tradicionais quilombolas preservam a biodiversidade e a cultura de um Brasil que não se vê mais nas grandes cidades. Gostos, cheiros e sabores que remetem à uma outra forma de viver, em comunidade, em familiaridade. Somos afrodescendência viva e pulsante, ao contrário do que dizem os livros de história e alguns pensamentos mais antigos e desinformados sobre as dinâmicas das nossas comunidades.
Somos parte de uma longa história de resistência, cultura, força, dor e alegrias. Mas, somos também o hoje e o amanhã de nossos quilombos, e de nossa história. Somos mais! Somos sujeitos de direito desse ‘estado democrático’ que silencia as dívidas históricas que tem para com a população negra, sobretudo no meio rural.  Somos parte dessa
população. Somos O Povo e temos voz, por isso afirmamos em alto e bom tom: Os quilombos vivem!

Comissão de Juventude Quilombola – CONAQ

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