17 jan

Coletivo de Mulheres da CONAQ propõe debate sobre violência, política e autocuidado como estratégias de resistência em 2020

Por Maryellen Crisóstomo

Ascom CONAQ

O coletivo de Mulheres Quilombolas da Conaq vem articulando muitas ações de enfrentamento, resistência e monitoramento das políticas públicas nos últimos anos. O encontro Nacional de Mulheres Quilombolas já está na agenda 2020, este também é um dos espaços de planejamento mais importantes do movimento.Quem nos fala sobre os anseios e projeções do Coletivo é a articuladora Maria do Socorro Fernandes da Cruz, Mariah, como é conhecida na luta. Mariah é quilombola da Comunidade Boa Vista dos Negros no município de Parelhas – RN.

Ascom CONAQ: O que podemos esperar desse Encontro?

Maria do Socorro Fernandes da Cruz – Mariah | Foto: arquivo pessoal

Mariah: Que esse encontro nos fortaleça. Desde que eu venho acompanhando os passos da CONAQ, principalmente do Coletivo de Mulheres, eu vejo que passos estão sendo dados e que esse encontro vai nos fortalecer muito. A gente já deu alguns passos muito difíceis de serem dados – pelo momento que a gente vive e pelo fato do movimento ser misto. Esse Coletivo está conduzindo várias ações da CONAQ e conduzindo muito bem. Então esse encontro vem para fortalecer esse Coletivo. Fortalecer as Mulheres dentro da CONAQ, fortalecer as mulheres quilombolas, nos fortalecer em cada Região, em cada Estado que tem uma coordenadora mulher – esse encontro vai fortalecer uma grande gama de mulheres que está precisando ter um contato mais direto com a CONAQ. Elas precisam entender que não estão lutando sozinhas, existe uma entidade, um organismo que tem uma liderança de mulheres muito bacana. Mulheres potentes, efetivas que estão trabalhando de fato e que a gente pode se ajudar. Acredito que esse encontro vai ser pra isso, vai ser um grande momento de fortalecimento, um grande passo. Vamos reunir quantas companheiras a gente puder. Será importantíssimo porque elas vão voltar para suas comunidades muito mais fortalecidas e mais preparadas para enfrentar, ter conhecimento, enfim, enfrentar o que está aí, o que está posto e o que está por vir, mas eu acho que já chegou e a gente tem que enfrentar e preparar as nossas companheiras pra isso. Esse encontro será de fortalecimento e construção de redes. A gente vai sair com mulheres muito mais potentes, tanto nós que estamos na organização desse Coletivo quanto às companheiras que virão participar.

Ascom CONAQ: Quais são as principais pautas a serem debatidas pelas mulheres quilombolas no Encontro Nacional?

Mariah: A violência. Infelizmente a violência é uma coisa que nos afeta enquanto mulher. É uma questão de gênero e está dentro das nossas comunidades. Não estamos protegidas de forma alguma, pelo contrário, nós temos dois agentes agressores – isso para generalizar e colocar eles em dois grupos: (1) o externo: que o fazendeiro, o latifundiário, o cara da mineração que enxerga a gente – enquanto liderança das comunidades – como ameaça e vulnerabilizam nossos corpos e as nossas famílias,  fora quando nos assassinam. (2) Outra coisa é a questão que vem de dentro das nossas casas: os pais, os irmãos, os tios, os maridos, os namorados, enfim, a gente tem que falar sobre isso e tem que ouvir essas mulheres falarem sobre isso. Muitas das nossas companheiras ainda não têm o entendimento que nós do Coletivo temos sobre feminismo, o que é a violência, a questão do gênero, de como os nossos corpos são oprimidos e o que é o patriarcalismo. Eu entendo que a gente precisa falar sobre isso e esclarecer para as nossas companheiras sobre o que é esse problema. Porque essa é uma raiz nefasta que avança, que cresce e dá margem para vários outros problemas. Falar sobre violência é muito importante. Falar sobre política – como estratégia política de sobrevivência e não política partidária. A gente precisa se preparar e colocar essa temática na nossa pauta do encontro, porque é muito importante que a gente entenda o que é política, como a política está colocada hoje, o quê que está acontecendo não só na nossa cidade, mas no país, o que é que está acontecendo fora que nos afeta.  Como é que a gente vai lidar com os caras quando chegarem a nossas comunidades? Quais os caminhos que a gente deve seguir para organizar nossas associações e correr atrás das políticas públicas e dos direitos? Tudo isso é entendimento político. A gente fazer como que as mulheres que estejam lá dentro do seu quilombo consiga, entenda e compreenda qual e caminho e quais os mecanismos que elas devem acessar para conseguir ter acesso aos direitos, à defesa e ao combate. Outra questão também muito importante é o cuidado, a autoproteção, a proteção da companheira. Muitas de nós que estão à frente sofrendo ameaças, estão se sentindo sozinhas, estão sem saber como (lidar), estão se anulando. Muitas vezes abandonam suas vidas. O cuidado, desde o carinho e uma massagem ao autocuidado mesmo: a gente está aqui, vamos cuidar de você. Essas são nossas estratégias e agente vai ajudar uma à outra. Ninguém solta a mão de ninguém.  Essas três pautas (violência, política e autocuidado) não podem faltar. É muito importante que a gente faça e estabeleça esse diálogo e consiga trazer luz ao entendimento das nossas companheiras quilombolas com essas três pautas.

Ascom CONAQ: Como a CONAQ planeja articular com essas mulheres no ano de 2020?

Mariah: Eu gostaria que fosse apresentada a questão do cuidado e da informação. Trazer o máximo de informação possível, eu sei que isso exige pernas, exige dedicação, exige pessoas e principalmente, exige dinheiro. Exige recurso para que a CONAQ possa ir mais longe fazendo formação, fazendo rodas, mas, ao máximo que puder isso tem que acontecer. É uma ação muito potente, as nossas mulheres estão prontas para enfrentar o que vier, só que elas precisam saber como, precisam ser habilitadas para a coisa. Elas não precisam ficar apanhando, levando porrada para aprender na marra. E se tiver recursos, pessoas disponíveis, estudo e aprofundamento, a CONAQ tem que fazer o máximo possível de rodas, de encontros, de momentos de preparação com as mulheres quilombolas. Principalmente para as que estão mais distantes dos grandes centros – não é que as que estão mais próximas dos grandes centros já estejam recebendo informação, estejam conseguindo, não é isso. Infelizmente não é assim, porém, quem está mais distante, está mais sem informação ainda. É importante que para 2020 a CONAQ consiga recursos para investir em formação. Que as mulheres potentes da CONAQ vão ao encontro de outras mulheres potentes e façam uma grande potencialização de formação dessas mulheres. A gente já sabe que dentro dos nossos quilombos a resistência somos nós mulheres. É fortalecendo a outra que nós vamos conseguir, a gente se fortalece e fortalece a companheira, que em 2020 seja assim.

Ascom CONAQ: Qual a importância das ações do coletivo de Mulheres frente à luta quilombola em 2020?

Maria do Socorro Fernandes da Cruz – Mariah | Foto: arquivo pessoal

 Mariah: O grupo de mulheres irmanadas para esse crescimento, esse desenvolvimento, essa potencialização dentro da CONAQ é extremamente importante – aí volto a falar do movimento misto. Acredito que um movimento misto precisa de uma organização mais apurada como está sendo feito dentro da CONAQ com relação ao coletivo de mulheres, com o olhar dedicado as nossas questões das mulheres quilombolas. São muito importantes as ações, principalmente de formação. Os encontros que a gente faz e antecede as atividades das quais a CONAQ vai participar, as mulheres vão estar presente. São muito importantes esses momentos de formação, de organização do passo-a-passo: o que vamos fazer? O que não vai dar certo? Ouvir as outras: o quê que cada uma está pensando. Acredito que só assim a gente vai fazer frente as nossas lutas. Esse coletivo consegue se organizar com vários pensamentos, mulheres de vários Estados, cada uma com sua potência e com seu potencial. A gente consegue se reunir e colocar tudo, mexer tudo e no final dar um resultado que é realmente potente, necessário, importante e que de fato, faz a coisa acontecer para as mulheres quilombolas em nível de Brasil. É importante essa união de Mulheres para a CONAQ e para as nossas companheiras porque a gente é um pouquinho da voz de cada uma delas.

 

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