16 jan

Luta: Jovens quilombolas falam sobre desafios, perspectivas e resistência em 2020

Por Maryellen Crisóstomo

Ascom CONAQ

Em entrevista à Ascom da CONAQ  coordenadores falam sobre os desafios, estratégias e resistência em 2020. Nesta primeira reportagem o tema é: Juventude quilombola. Sobre isso, Celso Isidoro Araújo Pacheco e Walisson Braga da Costa, militantes da luta quilombola na Coordenação Nacional de Juventude da CONAQ, apresentam suas inquietações e prospecções para o ano de 2020.

 

ASCOM CONAQ: Como mobilizar a juventude que está no quilombo a engajar na luta quilombola?

 

Celso Isidoro Araújo Pacheco | Foto: Arquivo Pessoal

Celso Isidoro A. Pacheco: A gente fala bastante sobre o trabalho de base, o quanto esse trabalho é importante. Até mesmo a Juventude quando está dentro desses espaços, ela fala que está participando dos trabalhos dentro das comunidades, ela está saindo e se envolvendo. Mas, seria interessante a gente buscar uma forma para identificar de que maneira as nossas comunidades estão trabalhando com a juventude, e também saber se esses jovens estão dentro da diretoria das associações, algo necessário para que eles pudessem se engajar dentro do movimento, porque daí ele já vai ter uma responsabilidade. Fazer um trabalho de base com mais intensidade dentro das comunidades – levando capacitações sobre nossa história de luta, a história do nosso povo. Porque se a gente existe hoje é por que alguém resistiu por nós – os nossos ancestrais – então a gente tem que levar isso. Daí eles vão ver a importância de somar forças na comunidade e até mesmo fora para que eles tenham os objetivos deles alcançados, objetivo da comunidade. Ele vai estar na luta e não é uma luta pessoal, é uma luta da comunidade, uma luta da população quilombola do Brasil, que é o nosso povo. É necessário a gente começar a elaborar ações voltadas para a realidade dos quilombos e é interessante também que se destaque – nessas ações voltadas para a comunidade – quais são os principais obstáculos que impossibilitam o progresso da juventude. Começar a destacar o quê que impede o progresso desses meninos. E que seja focada a importância da juventude na luta em busca de conquistas para nossas comunidades. Buscar ações bem específicas da juventude e implantar dentro da comunidade.

Walisson Braga da Costa | Foto: Arquivo Pessoal

 

Walisson Braga da Costa: Teria que ter várias atividades relacionadas à valorização cultural, de questão de identidade dentro das comunidades porque a gente sabe que o país que a gente vivi ainda corre à sombra da colonização. A colonização serviu como ferramenta de descaracterização da cultura africana, então, por mais que faz 130 anos atrás – o que é muito recente – ela ainda está viva – essa ferramenta do colonialismo. E também a situação capitalista que só prega tecnologia, melhoria, cidade e tudo mais. Daí os jovens que assistem isso pela mídia – seja televisão, seja redes sociais – que esse é o padrão de vida, então muitos acabam não querendo viver nessa realidade por ter uma imagem muito ruim, que a mídia vende muito bem. Então é bem complicado, o trabalho seria muito grande. Mas, trabalhar essa questão com a juventude seria o ponto ideal, de mostrar aspectos que possam incentivá-los a valorizar isso (cultura e identidade).

 

 

ASCOM CONAQ: Que estratégias são necessárias para que os jovens quilombolas que se encontram nas universidades contribuam com a suas comunidades, após a conclusão do curso?

Celso Isidoro A. Pacheco: Tem muitos jovens quilombolas que estão na universidade e que acompanham o movimento quilombola e ainda na faculdade ele contribui com a sua comunidade. Mas, tem muitos também que estão na universidade e não acompanha de maneira alguma, o movimento social, o movimento quilombola e também não ajudam a sua comunidade, a sua base lá. A estratégia seria mapear e identificar esses jovens que estão no movimento, que estão na universidade e começar a fazer um trabalho de conscientização com eles. Começar a levar essa ideia de que tem que ajudar a sua comunidade após a conclusão do curso ou durante. Porque tem muitos aí durante a sua formação, em sala de aula que estão trabalhando diretamente com a sua comunidade também, estão dentro do movimento. Então seria isso, ainda com eles na faculdade começar a trabalhar essa questão. Porque tenho certeza que, se começar a trabalhar essa questão, levar a ideia para eles ainda na faculdade, provavelmente, no término da formação, na conclusão do curso eles vão dar continuidade aquilo, porque vão analisar que o movimento social ajudou muito a formação deles. Que façamos um trabalho intensivo com esses jovens que estão na faculdade hoje, de conscientização e mostrar a importância da ação deles após a conclusão do curso dentro da comunidade. Que eles entendam que ainda são importantes para a comunidade.

Walisson Braga da Costa: Esse também é outro problema ligado à primeira pergunta por que se alguns saem da sua comunidade, eles têm contato com outra vivência, outra cultura e quando eles entram nas universidades eles vão querer estudar outras coisas e esquecer seu passado, por mais que muitas vezes possa ser dolorido. Então, fazendo esse trabalho na comunidade – que é o (que foi citado) na primeira pergunta – pode influenciar no futuro, na questão das universidades. Pode ajudá-los a olharem para sua realidade e estudá-la e levar a comunidade – não só como objeto de estudo nas universidades – mas sim como um objeto de aprendizagem. Porque eu vejo que a gente que é quilombola, quando levamos a nossa referência de comunidade para dentro da universidade, a gente é mais do que um objeto de estudo, a gente é um objeto de ensino porque a gente tem muito mais a ensiná-los do que eles têm a ensinar a gente. Porque quando a gente chega com a nossa carga histórica, isso faz o diferencial dentro das universidades. As universidades também são grandes problemas, porque a sociedade só acha que a gente é alguém se a gente conseguir uma faculdade boa, se a gente conseguir um diploma, mas, os quilombos e as comunidades indígenas levantaram esse Brasil todinho no braço e sem pisar em nenhuma faculdade. Enquanto os que estudaram nem puseram a mão na massa. Outra a crítica que tenho às universidades é que elas têm essa questão de validar seres humanos sendo que eles já são validados há muito tempo.

 

ASCOM CONAQ: Quais as expectativas para as ações com a juventude quilombola em 2020?

Celso Isidoro A. Pacheco: A gente tem que sempre pensar positivo, principalmente com a situação política que o nosso Brasil passa hoje. Mas, eu fico também preocupado e a gente tem que ver uma estratégia pra isso, porque vemos o seguinte: com esse desgoverno que está aí, a gente vê em todas as redes sociais diariamente, nos meios de comunicação a juventude quilombola ser assassinada. Os jovens que estão lá nas comunidades serem assassinados por fazendeiros; os policiais nas periferias matando nossos jovens também; a juventude quilombola que está na zona urbana ser fuzilada e ninguém dá uma explicação de nada. Simplesmente estão matando a juventude. Nesse momento também os jovens estão sendo assassinados dentro da universidade – os caras estão matando a gente dentro da universidade. A gente está indo em busca de aprendizado, a gente está correndo em busca de se informar sobre a nossa realidade política do Brasil, a gente está estudando, aí o povo está indo lá matar a gente (Caso Elitania de Souza, quilombola e estudante de Serviço Social na Universidade Federal do Recôncavo Baiano). Então eu faço uma reflexão com isso e trago uma perspectiva que, por consequência disso: em 2020 a juventude quilombola continuará fazendo articulação em prol dos seus direitos. Vai continuar as articulações com mais intensidade ainda. A juventude quilombola vai fazer questão de estar presente nos espaços de discussão do Governo mais ainda, porque é isso que a gente tem que fazer. Porque é nesses espaços, nesses momentos de discussões do governo que eles começam a nos matar, nos asfixiar e, a gente vai estar presente com mais intensidade. A gente vai estar em todos os espaços de discussões do governo e acompanhar o quê que eles estão fazendo para que a gente não seja pego de surpresa com as ações deles lá em cima. A gente vai ter que conversar mais, se olhar mais nos olhos e fazer uma análise de conjuntura por estado.

Walisson Braga da Costa: A perspectiva para 2020 é bem complicada de se pensar por vários motivos, ainda mais pensado no cenário político. Mas, sendo muito otimista, a gente espera que as comunidades ganhem mais forças, ganhem mais destaques nas mídias que é um meio que a gente está vivendo hoje. E a juventude, cada vez mais, possa estar se inserido nesse espaço de defesa, de reconhecimento enquanto jovem negro quilombola e que possa somar na luta. Porque o momento agora de destaque na luta vem mais da causa quilombola, negra e indígena. A gente tem muita força e temos que mostrar ela para a sociedade, que a gente existe e que estamos ali lutando e resistindo. Então, essa carga que temos de destaque, esse é o momento de mostrarmos os quilombos e as comunidades indígenas. Mostrar que estamos vivos e que a gente não está presente só em livros. A gente não é só aquelas características básicas, a gente é muito mais. Estamos no meio da sociedade, lutando e preservando. Estamos inseridos na sociedade comum. Esse é o nosso momento de dar o grito e mostrar que estamos vivos, a gente está no meio de todos.

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