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28 de maio de 2026

Vozes quilombolas: mulheres transformam justiça climática em agenda de futuro

Publicação será lançada no III Encontro Nacional e reafirma que proteger os territórios tradicionais é fundamental para enfrentar a crise ambiental e garantir o futuro das próximas gerações.

A relação entre a defesa dos territórios e as mulheres quilombolas é histórica. Responsáveis por transmitir conhecimentos entre gerações, fortalecer a produção de alimentos e proteger os recursos naturais, elas também estão entre as primeiras a sentir os efeitos das mudanças climáticas, dos conflitos fundiários e do avanço de atividades econômicas que pressionam as comunidades tradicionais.

Agora, essas experiências ganham forma na publicação “Vozes Quilombolas: Mulheres Quilombolas em Defesa do Clima”, que será lançada no dia 12 de junho de 2026, às 15h, durante a programação do III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, em Brasília (DF). A obra reúne reflexões, estudos de caso, relatos e propostas construídas por mulheres de diferentes regiões do país, consolidando-se como um importante instrumento de incidência política e fortalecimento da agenda quilombola frente aos desafios climáticos.

Resultado da formação de mesmo nome, a publicação reúne reflexões, experiências e análises construídas por lideranças que convivem diariamente com os impactos das mudanças climáticas, dos conflitos territoriais e da expansão de atividades econômicas que ameaçam os modos de vida tradicionais. 

Mais do que denunciar problemas, o material apresenta estratégias, soluções e caminhos desenvolvidos pelas próprias comunidades para enfrentar esses desafios. Em um momento em que a crise climática influencia diretamente o presente e o futuro dos quilombos, a obra também integra a série especial dos 30 anos da CONAQ, reafirmando o protagonismo das mulheres na construção de respostas para as próximas gerações. Confira!

Mulheres quilombolas no centro da agenda climática

Foto: Pedro Garcês/CONAQ

Uma das principais contribuições da publicação é reforçar uma mensagem defendida há anos pelas lideranças femininas da CONAQ: não existe política climática eficaz sem a garantia dos direitos territoriais dos povos que historicamente protegem a biodiversidade.

A partir dessa perspectiva, o livro evidencia que a defesa do clima está diretamente ligada à proteção dos territórios tradicionais e ao reconhecimento das populações que mantêm práticas sustentáveis de manejo, conservação e produção de alimentos.

Segundo Fran Paula, quilombola do território Campina de Pedra, em Poconé (MT), no Pantanal mato-grossense, engenheira agrônoma, mestra em Saúde Pública e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ), uma das responsáveis pela construção da publicação, a obra busca ampliar a compreensão sobre a relação entre justiça climática e direitos territoriais.

“Uma das principais mensagens que o livro traz para a sociedade e para o Estado brasileiro é a importância de entender que a defesa do clima passa pela defesa das populações e dos territórios que protegem a vida. Não haverá política climática efetiva sem a proteção dos territórios quilombolas e sem a presença das mulheres quilombolas na construção dessa agenda.”

Essa reflexão ganha ainda mais relevância diante do aumento dos eventos climáticos extremos e da expansão de atividades econômicas que impactam diretamente comunidades tradicionais em diferentes biomas brasileiros.

Leia mais: CONAQ fortalece agenda de incidência política rumo ao III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas

Conhecimentos que se transformam em estratégias

Foto: Pedro Garcês/CONAQ

Diferentemente de muitos estudos produzidos sobre clima e meio ambiente, o livro parte das vivências das próprias mulheres quilombolas. Os relatos reunidos na publicação demonstram como a mobilização comunitária, a organização política, a proteção dos recursos naturais e os conhecimentos ancestrais têm sido fundamentais para enfrentar os impactos ambientais e fortalecer a resistência nos territórios.

A obra também apresenta uma metodologia construída coletivamente pelas participantes da formação: a chamada Matriz Clima, ferramenta elaborada a partir das experiências de proteção territorial, enfrentamento das desigualdades socioambientais e construção de soluções desenvolvidas pelas próprias comunidades.

Para a agrônoma, esse é um dos principais legados deixados pelo material. “O livro compartilha uma metodologia própria. A grande inovação dele é a Matriz Clima, elaborada pelas mulheres a partir desses processos de resistência, insurgência e soluções ambientais construídas historicamente nos nossos territórios. O legado não parte apenas da denúncia, mas do anúncio dessas estratégias que precisam ser reconhecidas, fortalecidas e multiplicadas.”

Ao transformar experiências locais em instrumentos de reflexão e ação, a publicação amplia a capacidade de incidência das mulheres quilombolas nos debates sobre políticas públicas, direitos humanos e justiça ambiental.

Ancestralidade como resposta aos desafios ambientais

 

Foto: Fran Paula é engenheira agrônoma e quilombola do MT. Crédito: Mylena Pereira

 

Outro aspecto central da obra é a valorização dos conhecimentos acumulados pelas mulheres quilombolas ao longo das gerações. A publicação demonstra como práticas ligadas ao manejo sustentável dos recursos naturais, à proteção das águas, à soberania alimentar e à organização comunitária constituem respostas concretas aos desafios impostos pela crise climática.

Ainda segundo a pantaneira, o livro reúne uma ampla diversidade de experiências que demonstram o protagonismo feminino na construção de alternativas para o presente e para o futuro.

“O livro reúne narrativas, vivências e experiências construídas diariamente nos territórios quilombolas. São ações que vão desde a mobilização política e territorial até a defesa das águas e da produção de alimentos. Esses conhecimentos precisam ser incorporados às políticas públicas e reconhecidos pelo Estado brasileiro.”

Ao apresentar essas práticas, a publicação reafirma que os quilombos não são apenas áreas impactadas pela crise climática, mas também espaços onde surgem soluções capazes de inspirar estratégias de adaptação e proteção ambiental em escala mais ampla.

Um marco para a articulação nacional das mulheres quilombolas

E, é claro que o lançamento de um material tão importante  teria que ocorrer  durante uma momento especial: o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas. O evento reunirá lideranças de diferentes estados para debater temas como direitos territoriais, justiça climática, enfrentamento ao racismo ambiental, participação política e fortalecimento organizativo.

Nesse contexto, a publicação surge como uma ferramenta de formação, mobilização e incidência, consolidando conhecimentos produzidos coletivamente por mulheres que há décadas atuam na defesa da vida, dos territórios e da biodiversidade.