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24 de julho de 2026

Mulheres Quilombolas que Inspiram

Maria Isabel Cabral da Silva: quando a luta começa antes de sabermos seu nome.

Há quem descubra seu propósito em um momento bem específico da vida. Para Maria Isabel Cabral da Silva, conhecida como Bel Cabral, esse momento nunca existiu. Sua trajetória foi construída pouco a pouco, entre as ruas do Quilombo Adelaide Maria Trindade Batista, em Palmas, no Paraná, observando as mulheres de sua família enfrentarem o poder público para garantir direitos básicos à comunidade.

Professora, doutoranda em Ciências Ambientais, coordenadora executiva da CONAQ e integrante do Coletivo de Mulheres, ela afirma que sua formação política começou muito antes de ocupar espaços de liderança.

“Eu fui sendo formada para a luta muito antes de entender que aquilo era luta em si. Cresci vendo minha avó, minhas tias e minha mãe reivindicarem educação, infraestrutura e dignidade para a nossa comunidade. Hoje entendo que minha primeira escola de formação política foi o meu próprio território, e minhas primeiras professoras foram essas mulheres.”

Ao mesmo tempo em que aprendia com a força das mais velhas, Bel também crescia convivendo com a ausência do Estado e com as marcas da desigualdade. Foi somente anos depois que compreendeu que aquelas vivências não eram naturais, mas consequência do racismo estrutural e da histórica negação de direitos às comunidades quilombolas.

Pilar que fortalece identidade

A educação se tornou um caminho para ampliar aquilo que o território já havia ensinado. Formada em Pedagogia, passou a atuar na educação escolar quilombola no Colégio Estadual Quilombola Maria Joana, o primeiro colégio quilombola do Paraná, uma conquista fruto da mobilização de sua comunidade e, especialmente, das mulheres que vieram antes dela. Foi nesse percurso que compreendeu que educação, território, memória e identidade caminham juntos.

Sua aproximação com a CONAQ aconteceu por meio do Coletivo de Educação. Mais tarde, ao integrar também o Coletivo de Mulheres e assumir a Coordenação Executiva da organização, percebeu que as violências vividas por seu quilombo se repetiam em centenas de outros territórios pelo país.

“Aquilo que eu conhecia a partir da minha comunidade passou a se conectar com a realidade de quilombos de todo o Brasil. No Coletivo de Mulheres fui entendendo a força que existe quando transformamos nossas experiências individuais em lutas coletivas.”

Os bastidores da militância

Foto: Pedro Garcês/CONAQ

 

Atualmente, Bel ocupa espaços de diálogo com governos, universidades e instituições, representando o movimento quilombola em diferentes agendas nacionais. Mas ela faz questão de lembrar que existe uma mulher por trás da liderança.

Uma mulher que também sente o peso das responsabilidades, enfrenta o racismo, o machismo, os silenciamentos e, muitas vezes, precisa provar constantemente que é capaz de ocupar os espaços que conquistou. “A militância também tem bastidores. Tem renúncias, conflitos, solidão e momentos em que a gente se pergunta se vale a pena continuar.”

A coordenadora enfatiza que sempre que essa pergunta surge, a resposta está no caminho percorrido por sua avó, sua mãe, suas tias e tantas outras mulheres quilombolas que fizeram política muito antes de ocuparem cargos ou espaços institucionais.

Uma trajetória de retorno

Ao olhar para sua caminhada, Isabel percebe que sua história nunca foi apenas individual. Cada conquista representa a continuidade de seus ancestrais. Foi assim na universidade, onde precisou reafirmar sua identidade quilombola todos os dias. Foi assim na CONAQ, levando seu território para os espaços de construção de políticas públicas. E continua sendo assim em sua pesquisa acadêmica, que retorna às mulheres quilombolas, aos seus saberes e às suas memórias.

“Quanto mais longe eu caminho, mais eu percebo que a minha trajetória é, na verdade, uma trajetória de retorno. Eu fui para a universidade e encontrei novamente o meu quilombo. Hoje, onde eu estiver, levo o quilombo comigo.”

Por fim, para a coordenadora, sua história não começa nela mesma. Ela nasce muito antes, nas mãos das mulheres que abriram caminhos para que outras pudessem seguir.

“A Bel de hoje carrega conquistas, mas também cicatrizes. Por isso talvez eu não consiga contar a minha trajetória dizendo apenas ‘eu’. A minha história começa muito antes de mim. Eu sou continuidade.”

É justamente nessa continuidade que sua caminhada inspira outras mulheres quilombolas a ocuparem espaços sem abrir mão de suas raízes, mostrando que a luta pelo território, pela memória e pelo bem viver também se constrói a partir das histórias de quem nunca deixou de acreditar no poder da coletividade.