31 de julho de 2026
CONAQ exibe o documentário Cafuné no Rio de Janeiro, a convite de Maju Coutinho, durante a inauguração da biblioteca que leva seu nome
Nomeada como Embaixadora das Mulheres Quilombolas no Brasil, a jornalista reafirma seu compromisso com a promoção dos direitos e da visibilidade da pauta.
No último sábado (25), comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americano e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, a CONAQ, esteve presente na inauguração da Biblioteca Maju Coutinho. Instalada no Centro de Organização de Pessoas Marginalizadas (CEAP), localizado na Pequena África, centro do Rio de Janeiro, o espaço, segundo a jornalista descreveu, é resultado de um trabalho coletivo, pensando na construção de um país, onde a leitura e a educação de qualidade deixem de serem vistas como privilégio e passe a ser um direito usufruído por todos.
Ato inaugural

Foto: Regimara Santos/CONAQ
O evento teve início às 14h com a cerimônia de inauguração e boas-vindas institucionais, seguindo para o ato inaugural, com uma mesa potente, composta por Mariana Gino, Especialista em História da África e Diretora Executiva Adjunta do CEAP, Maju Coutinho, Jornalista, e Apresentadora do Fantástico, Lavini Castro, Educadora Antirracista, Verônica Marcílio, Fundadora da Favelivro e Especializada em literatura infanto-juvenil, Helena Theodoro, Educadora e Filósofa brasileira; e Janete Santos Ribeiro, Mestre em Educação pela UFF.
Em seu discurso, a apresentadora compartilha parte da sua trajetória de vida enquanto mulher negra, neta de empregada doméstica, invisibilizada pelo sistema e vítima de tantas violações, e se emociona relatando a história das mulheres de sua família.
“Eu venho de uma família de mulheres muito fortes e realizadoras, a socióloga Ângela Davis, diz que quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura se movimenta com ela, e eu sou prova viva disso, eu só estou aqui hoje, porque mulheres negras se movimentaram antes de mim”.
Memória e reconhecimento

Foto: Regimara Santos/CONAQ
Ao traçar uma linha do tempo da sua árvore genealógica, a jornalista menciona o nascimento da avó materna em 1925, 37 anos depois da abolição da escravatura no Brasil, Zuma Sales dos Santos, uma mulher semi-analfabeta que trabalhou como doméstica em casa de famílias ricas de São Paulo, não sabia escrever, mas enxergava longe e acreditava na educação. Ela segurou o peso de sustentar a casa, para que a filha de 12 anos (mãe de Maju) ao invés de ir trabalhar em fábricas, o que era muito comum naquela época, pudesse estudar.
“As vezes eu penso que se a Dona Zuma, tivesse tido as oportunidades que eu tive, ela poderia muito bem ter sido política, diretora de Ongs, uma diplomata… Porque ela tinha muita sabedoria e estratégia, só não teve diploma. Mas o diploma que faltou pra ela, ela garantiu para a geração seguinte. A minha mãe Zilma, nasceu em 1947, e se tornou a primeira universitária da família”. Concluiu, emocionada.
Maju Coutinho e mulheres quilombolas

Foto: João Victor/CONAQ
Assim como Zuma abriu caminhos para quem veio depois, Maria Júlia segue fazendo o mesmo, fortalecendo a narrativa de mulheres quilombolas em todo país, no mês de junho ela esteve no III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas da CONAQ, um espaço que reuniu mais de 600 mulheres de diferentes idades, de 24 estados brasileiros e representações de 10 países. A presença da então apresentadora do Fantástico, chega como uma potente referência de mulheres negras em espaços de poder e com uma esperança de que é um caminho possível também para muitas outras mulheres pretas. Em razão disso, Maju recebeu nesse encontro o convite de todas as mulheres ali presentes para se tornar a Embaixadora das Mulheres Quilombolas no Brasil, convite aceito, claro. Desde então ela tem abraçado a pauta dessas mulheres, e reafirmado também o seu compromisso com o fortalecimento da luta do povo quilombola.
Exibição do documentário Cafuné

Foto: Regimara Santos/CONAQ
Na inauguração da Biblioteca, ela fez questão de abrir espaço na programação do evento, para exibição do documentário Cafuné, que é o Plano Emergencial para Proteção de mulheres quilombolas defensoras de Direitos Humanos. Ele surge a partir da preocupação do Coletivo de Mulheres da CONAQ diante do agravamento das ameaças, perseguições e assassinatos de mulheres quilombolas em diversas regiões do país, e chega como uma resposta política, comunitária e afetiva. Cafuné carrega um sentido simbólico de cuidado e acolhimento, assim o projeto se estrutura como um espaço de abraço e escuta, concebido por e para mulheres quilombolas, que reafirmam a centralidade da cura coletiva, do fortalecimento comunitário e da proteção dos seus corpos/territórios diante das múltiplas formas de violências e violações que perpassam sobre suas vidas.
Bia Nunes, coordenadora da ACQUILERJ, destacou a importância de levar o cafuné a um espaço tão potente. “Estarmos aqui hoje, para nós é muito importante, porque a Maju abre portas para outras mulheres, as mulheres quilombolas ainda sofrem muito com a invisibilidade no Brasil, e ela faz a diferença em nossas vidas.
A apresentadora também falou sobre a emoção de receber as mulheres quilombolas. “Eu fiz questão nesse evento, que acontece num dia tão significativo pra nós mulheres negras, que é o dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, a exibição desse documentário, o Cafuné, que fala de um programa de segurança que foi construído pelas próprias mulheres quilombolas, nós por nós. Que esse espaço aqui, também seja um espaço importante para vocês, mulheres quilombolas, que possam vir aqui, fazer roda de conversa, exibir filmes… Tá aberto. É pra isso que esse espaço serve”. Enfatizou.
Publicação livreto Cafuné

Foto: Regimara Santos/CONAQ
Além da exibição do filme, foram distribuídos exemplares da publicação ao público presente. Entre eles a Deputada Federal, Benedita da Silva; Helena Theodoro, Educadora e filósofa; Thelma Regina Maria (Thelminha), Médica e Influenciadora Digital; o renomado Jornalista brasileiro Heraldo Pereira e Marcelo Santos, Diretor Executivo do CEAP.
Exibir e distribuir o Cafuné para um público não quilombola é comunicar para a sociedade, que enfrentamos uma luta coletiva repleta de desafios, mas sedenta por dignidade. Durante 30 anos a CONAQ vem rompendo estruturas sociais, raciais e políticas em prol da proteção e continuidade dos territórios quilombolas, estar e nos mostrar nesses espaços, é também rejeitar a permanência numa bolha a qual nos impuseram por muitos anos. Seguimos fortalecendo e expandindo a nossa voz na defesa dos nossos direitos.
Agradecimentos
Antes de concluir, agradecemos aos nossos parceiros, sobretudo, os que contribuíram na realização do Cafuné: AECID, Instituto Ibirapitanga, Bem-Te-Vi Diversidades, Global Witness, Grassroots e Embaixada da França.
Texto por Regimara Santos/CONAQ, publicado às 10:36:34
Categoria: Mulheres Quilombolas