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25 de julho de 2026

25 de Julho: quilombolas transformam ancestralidade em futuro

No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comunicadoras, pesquisadoras e jovens lideranças mostram como sua força segue reinventando o presente sem romper com as raízes que sustentam seus territórios.

Construída ao longo de gerações, a trajetória das mulheres quilombolas é marcada pela resistência, pela preservação da memória, pela defesa dos territórios e pela produção de conhecimentos que seguem abrindo caminhos para o futuro. É nesse contexto que o 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, ganha ainda mais significado: a data celebra a potência delas que transformaram a luta pela sobrevivência em um legado de organização coletiva, ancestralidade, construção de novos horizontes e a consolidação do bem-viver.

Se antes suas histórias eram narradas por outras pessoas, hoje elas assumem o protagonismo da própria narrativa, utilizando as ferramentas contemporâneas sem abrir mão dos conhecimentos herdados de seus ancestrais. A tradição e a inovação caminham juntas.

Por isso, fechando a série que aborda trajetórias de mulheres que fazem da resistência um legado, reunimos diferentes vozes que traduzem o significado desta data e demonstram como comunicar, pesquisar, cultivar e liderar também são formas de proteger os territórios quilombolas. Confira a seguir!

Em cada comunidade quilombola, são elas que preservam as memórias, fortalecem a cultura, mantêm vivas as práticas ancestrais, organizam a produção, educam as novas gerações e ocupam, cada vez mais, espaços de liderança, pesquisa, comunicação e incidência política.

Para a engenheira agrônoma, pesquisadora, mestre em Saúde Pública e doutoranda do CPDA/UFRRJ, Fran Paula, essa centralidade das mulheres não é recente, mas faz parte da própria organização social dos quilombos. Segundo ela, muitos territórios preservam formas de organização matrilineares herdadas de diferentes povos africanos, nas quais as mulheres ocupam papel central na gestão territorial, ambiental e agrícola. “Não dá para pensar a agricultura quilombola sem pensar nas mulheres quilombolas”, resume a pesquisadora, autora do livro Terra e Liberdade, lançado em maio deste ano.

Quando quem vive o território conta sua própria história

Para Regimara Santos, comunicadora da CONAQ, a comunicação quilombola nasce como uma ferramenta de defesa da existência dos povos quilombolas. Segundo ela, registrar o cotidiano das comunidades vai muito além da produção de imagens ou textos. Trata-se de romper com um ciclo histórico em que pessoas externas narravam a realidade dos quilombos sem conhecer suas vivências.

“Quando nós decidimos comunicar dentro dos territórios, mostramos para a sociedade que também temos capacidade de contar nossa própria história. E mais do que isso: de contar essa história como ela realmente é”, relatou.

Esse olhar de pertencimento transforma completamente a forma como os territórios são retratados. Cada fotografia, reportagem ou vídeo produzido por comunicadores quilombolas registra não apenas fatos, mas também sentimentos, memórias e processos coletivos que dificilmente seriam percebidos por quem observa de fora.

Para a graduanda em Jornalismo, essa produção também representa um compromisso com as futuras gerações. “Quando registramos nosso território, garantimos que nossa memória seja preservada por quem realmente viveu essa história. As gerações futuras encontrarão esses registros produzidos por quem conhece a luta, a ancestralidade e o significado daquele território.”

Tecnologia e ancestralidade podem caminhar lado a lado

Ao contrário do que muitos imaginam, inovação e tradição não são conceitos opostos. As mulheres quilombolas demonstram diariamente que é possível utilizar celulares, câmeras, redes sociais e plataformas digitais sem romper com a essência dos conhecimentos ancestrais.

Para a quilombola Kalunga, as tecnologias apenas ampliam o alcance de histórias que sempre existiram. “A oralidade continua sendo nossa base. A diferença é que hoje usamos celulares, câmeras e toda a tecnologia disponível para fazer com que essas histórias ecoem muito mais longe, sem perder sua essência.”

Essa combinação entre memória e inovação fortalece a comunicação comunitária e amplia a presença dos quilombos nos espaços públicos, acadêmicos e políticos.

Geração atual transforma ferramentas digitais em instrumentos de resistência

Para Jessica Albuquerque, jornalista, jovem liderança do Quilombo Lajeado, no Tocantins, e integrante do Coletivo de Comunicação do movimento, esta data desperta, antes de tudo, um sentimento profundo de pertencimento.

Ela faz lembrar as histórias de sua mãe, avó e bisavó, mulheres que enfrentaram separações, violências e inúmeros desafios para garantir a continuidade da comunidade. “Ser descendente das mulheres que fundaram nosso território torna essa data ainda mais especial. Além do orgulho, acredito que cada território tem em suas mulheres sua principal referência.”

Jessica destaca que a juventude quilombola tem encontrado nas ferramentas digitais uma importante aliada para fortalecer os territórios. Segundo ela, a migração de jovens para os centros urbanos representa um desafio permanente para a preservação das tradições, mas as redes sociais vêm contribuindo para aproximar gerações e ampliar a visibilidade das comunidades.

“No nosso território, as redes sociais criadas para mostrar nossa história têm sido fundamentais para acessarmos projetos, fortalecer parcerias e valorizar práticas como a horta comunitária, os festejos e as folias.” Mais do que produzir conteúdo, a comunicação fortalece a organização coletiva e cria novas possibilidades para a defesa dos direitos quilombolas.

Orgulho de ser quilombola também é um ato político

A comunicadora lembra, por fim, que nem sempre foi simples afirmar sua identidade. Durante a graduação, levou anos para assumir publicamente sua origem quilombola. Quando decidiu fazê-lo, transformou seu Trabalho de Conclusão de Curso em uma homenagem à própria comunidade.

Hoje, ela acredita que reconhecer sua história fortaleceu seu compromisso com outras jovens quilombolas. “Meu compromisso é construir caminhos para que mais mulheres tenham voz e possam ocupar os espaços que desejarem. Devemos nos orgulhar todos os dias das mulheres que caminharam antes de nós. Foram nossas mães, avós e bisavós que abriram esses caminhos.”

Produzir conhecimento também é defender os territórios

Assim como a comunicação, a pesquisa tem se tornado um importante espaço de protagonismo das mulheres quilombolas. Para Nicéia Prata, pesquisadora quilombola de Educação Escolar Quilombola, com foco em políticas públicas educacionais, mapeamento de escolas quilombolas e infraestrutura escolar, produzir conhecimento a partir das próprias comunidades representa um ato político de resistência. “Durante muito tempo falaram sobre nós sem nos ouvir. Hoje mostramos que também produzimos ciência e conhecimento.”

Ela destaca que as pesquisas desenvolvidas por quilombolas não nascem apenas da observação acadêmica, mas da vivência cotidiana, do compromisso com os territórios e do desejo de fortalecer a história coletiva. “Nossa pesquisa nasce da vivência. Não se trata apenas de registrar informações, mas de garantir que nossas narrativas sejam contadas por quem realmente as vive.”

Essa perspectiva também está presente nas pesquisas de Fran Paula. Para a pantaneira, as mulheres quilombolas são as principais guardiãs da biodiversidade, das sementes crioulas, dos sistemas alimentares e das culturas agrícolas dos territórios. São elas que, em grande parte, definem o que será plantado, colhido e preparado, além de transmitirem às novas gerações os conhecimentos sobre manejo ambiental, biodiversidade e produção de alimentos.

Ciência e ancestralidade constroem respostas para os desafios do presente

As experiências acumuladas pelos povos quilombolas ao longo de gerações também oferecem respostas para questões urgentes da atualidade, como as mudanças climáticas, a segurança alimentar e a conservação da biodiversidade.

Segundo a paulista que faz parte da Rede de Confluência de Pesquisadoras e Pesquisadores Quilombolas da CONAQ, os conhecimentos tradicionais constituem uma verdadeira ciência construída coletivamente ao longo do tempo. “O que nossos mais velhos sabem sobre a terra, as sementes, as plantas e os ciclos da natureza é a base para enfrentar as mudanças climáticas e proteger nossos territórios.”

Ela ressalta que a universidade não substitui esses conhecimentos. Pelo contrário: quando estabelece diálogo com eles, amplia sua capacidade de produzir soluções socialmente comprometidas. “Nós não somos objetos de estudo. Somos quem produz conhecimento, quem cuida da vida e quem ensina ao mundo formas de viver em equilíbrio com a natureza.”

Já Fran Paula avalia que esse diálogo entre ciência e saberes tradicionais passa necessariamente pelo reconhecimento do protagonismo das mulheres quilombolas. A mato-grossense enfatiza que as ciências agrárias ainda carregam um apagamento histórico das contribuições da população negra para a agricultura brasileira. “É preciso uma reparação intelectual”, afirma. Para a pesquisadora, reconhecer as técnicas, práticas e engenhosidades agrícolas desenvolvidas pelas comunidades quilombolas significa também enfrentar o apagamento de gênero e de raça na produção do conhecimento científico.

Ela ressalta ainda que a própria origem da agricultura está profundamente relacionada ao trabalho das mulheres. “Não reconhecer isso é contribuir para o apagamento histórico das mulheres quilombolas dentro da ciência e da agronomia”, defende.

Espaços ocupados e narrativas transformadas

A presença crescente de mulheres quilombolas nas universidades, nos centros de pesquisa, na comunicação, no empreendedorismo e na formulação de políticas públicas representa uma transformação histórica.

Mais do que ampliar a representatividade, essa ocupação modifica a forma como o Brasil produz conhecimento sobre os quilombos. Ao assumirem o protagonismo da própria narrativa, essas mulheres fortalecem suas comunidades, valorizam seus saberes e constroem referências para novas gerações.

Para a engenheira, esse avanço depende da construção de políticas públicas comprometidas com a justiça de gênero e a justiça racial. Ela defende que o Estado brasileiro amplie ações de fortalecimento, incentivo e reparação, garantindo condições para que mulheres quilombolas ocupem espaços na pesquisa, na ciência, na universidade e nas instituições públicas. “É preciso criar condições reais para que mulheres negras e quilombolas possam ampliar seus territórios de atuação”, afirma.

Elas estão transformando celulares em instrumentos de memória, pesquisas em ferramentas de incidência política, redes sociais em espaços de mobilização coletiva, práticas agrícolas em respostas para os desafios climáticos e ancestralidade em horizonte para o futuro. Porque proteger os territórios também é preservar histórias. É produzir conhecimento. É comunicar com pertencimento. É cultivar saberes. É garantir que as próximas gerações encontrem registros, e também sementes, pesquisas e políticas públicas, construídos por quem sempre esteve ali.