6 de julho de 2026
Visita ao Quilombo São Paulo do Açu encerra etapa do Atlas de Sociobioeconomia Quilombola no Amazonas
Projeto da CONAQ e do BID fortaleceu o mapeamento participativo, a gestão territorial e a bioeconomia quilombola, reafirmando o protagonismo da comunidade na construção de seu futuro.
Distrito de São Paulo do Açu (AM) – Todo território guarda uma história. Algumas são escritas em documentos. Outras permanecem vivas na memória de quem resiste, cultiva a terra, navega os rios, molda o barro, transforma a mandioca em alimento e transmite aos mais jovens os ensinamentos herdados de seus ancestrais. No Quilombo São Paulo do Açu, localizado no município de Barreirinha, no Amazonas, essas histórias seguem sendo contadas diariamente por homens, mulheres, idosos, jovens e crianças que mantêm viva uma relação profunda com o território.
Foi nesse cenário que o Atlas de Sociobioeconomia Quilombola, iniciativa da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), realizou mais uma etapa de sua caminhada pela Amazônia Legal. Durante dois dias de atividades, a comunidade abriu suas portas para receber consultores, equipe técnica, agentes territoriais e representantes do movimento em uma construção coletiva voltada ao fortalecimento da bioeconomia, da gestão territorial e da autonomia quilombola.
Mais do que levantar dados, produzir mapas ou preencher formulários, a presença da equipe reafirmou um princípio que orienta todo o projeto: nenhuma política para os quilombos pode ser construída sem ouvir aqueles que conhecem o território em sua profundidade.
Cada oficina, cada roda de conversa, cada caminhada e cada entrevista representaram um exercício de escuta ativa. Um processo em que os próprios moradores identificaram potencialidades, desafios e prioridades, demonstrando que as respostas para o desenvolvimento sustentável já existem dentro das comunidades e são resultado de séculos de convivência harmoniosa com a floresta, os rios e a terra. Confira!
Um território construído pela memória e pela resistência

Foto: Mylena Pereira
A equipe chegou a São Paulo do Açu no dia 2 de julho, uma comunidade formada por gerações de famílias que construíram sua existência em torno da agricultura, do artesanato, da pesca, da cerâmica e da produção de farinha.
Segundo a coordenadora da Federação do Quilombo São Paulo do Açu e liderança da CONAQ Amazonas, Léia Maria Barbosa Conceição, viver na comunidade representa um sentimento profundo de pertencimento.
Durante a conversa com a equipe do projeto, a liderança relembrou que nasceu e cresceu no território e destacou o orgulho de fazer parte da história do quilombo. Também ressaltou a expectativa criada desde o anúncio de que São Paulo do Açu havia sido escolhido para receber o Atlas de Sociobioeconomia Quilombola. Para ela, a chegada da iniciativa simboliza reconhecimento e esperança de fortalecer o trabalho desenvolvido pela comunidade há décadas.
A mobilização começou antes mesmo da chegada da equipe técnica. Reuniões, mensagens nos grupos comunitários, visitas de casa em casa e articulações entre lideranças garantiram que moradores de diferentes gerações participassem das atividades. Essa preparação demonstra uma característica marcante do território: as decisões são construídas coletivamente.
Quando o desenvolvimento começa pela escuta
O primeiro dia de oficinas foi dedicado ao reconhecimento do território e à construção dos primeiros instrumentos que irão compor o Atlas de Sociobioeconomia Quilombola. Recebidos com acolhimento pelos moradores, os consultores iniciaram os trabalhos com Laura Silva, coordenadora executiva da CONAQ e do projeto que na ocasião agradeceu a acolhida e apresentou a equipe a todos presentes. Logo após teve início a oficina de fotografia das comunicadoras Mylena Pereira e Thaís Rodrigues.
Ao mesmo tempo em que a atividade com as câmeras se desenrolava com as crianças e jovens foi iniciado o cadastro da comunidade na Plataforma Territórios Tradicionais, conduzido pelo especialista em georreferenciamento Heitor Pinheiro. A etapa representa muito mais do que um procedimento técnico.
Ao integrar a plataforma, São Paulo do Açu tornou-se o primeiro território quilombola do Amazonas registrado pelo projeto, ampliando sua visibilidade institucional e fortalecendo instrumentos importantes para o reconhecimento de seus direitos.
O georreferenciamento permite reunir informações espaciais, produtivas, ambientais e socioculturais que servirão de base para futuras políticas públicas, projetos de fortalecimento econômico e estratégias de proteção territorial.
Em um contexto em que milhares de comunidades quilombolas ainda aguardam a regularização fundiária, produzir informações qualificadas sobre os territórios significa também produzir ferramentas de incidência política.
Planejar o futuro sem abrir mão da ancestralidade
Na sequência, a comunidade participou da oficina de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola (GTAQ), conduzida pelo consultor Hilton Lucas. A atividade reuniu moradores de diferentes idades para refletir sobre as potencialidades existentes no território, os desafios enfrentados diariamente, as oportunidades de fortalecimento econômico e as ameaças que podem comprometer a continuidade de seus modos de vida.
A metodologia utilizada parte de um princípio simples: ninguém conhece melhor o território do que quem vive nele. Ao invés de diagnósticos produzidos externamente, são os próprios quilombolas que identificam suas prioridades e constroem, coletivamente, estratégias para enfrentar os obstáculos existentes.
Durante as discussões, surgiram questões relacionadas à infraestrutura, transporte, acesso às políticas públicas, comercialização da produção, saúde, educação e regularização fundiária.
Ao mesmo tempo, a comunidade reafirmou aquilo que considera suas maiores riquezas: a organização coletiva, os conhecimentos tradicionais, a diversidade produtiva e a forte relação com a natureza.
Cada contribuição registrada passou a integrar um diagnóstico construído pelos próprios moradores, respeitando suas narrativas, experiências e perspectivas para o futuro.
O primeiro passo para contar uma história maior

Foto: Mylena Pereira
Encerrando o primeiro dia, teve início uma das etapas centrais do Atlas: o mapeamento participativo das cadeias produtivas. Conduzido pelos consultores Maria Helena e Danilo Miranda, o processo buscou identificar quais atividades econômicas representam não apenas geração de renda, mas também patrimônio cultural e identidade coletiva.
Rapidamente duas cadeias produtivas ganharam destaque nas discussões: a produção de farinha e a cerâmica. Ambas carregam muito mais do que valor econômico. São práticas transmitidas entre gerações, responsáveis por fortalecer vínculos familiares, preservar conhecimentos ancestrais e manter viva a relação entre o povo quilombola e seu território.
Enquanto alguns moradores narravam o trabalho desenvolvido nas casas de farinha, outros lembravam da tradição ceramista herdada de seus antepassados. Cada relato revelava uma compreensão ampla da bioeconomia quilombola: produzir sem destruir, gerar renda preservando a floresta e fortalecer a autonomia coletiva a partir dos conhecimentos construídos ao longo dos séculos.
Essa compreensão atravessou todas as oficinas realizadas em São Paulo do Açu. Ao final do primeiro dia, já era possível perceber que o Atlas não estava apenas registrando informações. Estava registrando memórias. Estava organizando conhecimentos. Estava fortalecendo um patrimônio construído muito antes de qualquer política pública existir. E, sobretudo, reafirmava que a bioeconomia quilombola nasce do território, da ancestralidade e da capacidade das próprias comunidades de desenharem seus caminhos.
Quando a bioeconomia nasce do território
Se existe um elemento comum entre as comunidades quilombolas visitadas pelo projeto é o fato de que ele não está apenas nos produtos cultivados, mas na forma como cada povo transforma seu território em fonte de sustento, identidade e resistência.
Durante horas de diálogo, moradores de diferentes idades compartilharam experiências, lembranças e expectativas. Cada fala revelava que produzir alimento, cultivar a terra ou moldar o barro representa muito mais do que uma atividade econômica. É uma forma de preservar a história do quilombo.
Ao contrário dos modelos convencionais de desenvolvimento, o Atlas parte de uma lógica construída pelas próprias comunidades: antes de pensar em mercado, é preciso fortalecer o território. Antes de ampliar a produção, é necessário garantir que ela continue respeitando os ciclos da natureza e os modos de vida tradicionais.
Foi exatamente esse exercício coletivo que marcou o segundo momento das oficinas no território.
Muito além da produção: um diagnóstico construído pelos próprios moradores
Durante o mapeamento, os participantes foram convidados a identificar todas as atividades produtivas existentes na comunidade, suas potencialidades, limitações e perspectivas de crescimento.
A dinâmica permitiu que cada família apresentasse sua realidade e contribuísse para a construção de um retrato fiel da economia local. Ao longo das discussões, surgiram produções ligadas à agricultura familiar, à mandioca, ao artesanato, à pesca, à criação de pequenos animais e à cerâmica.
Mas, mais importante do que registrar essas atividades, foi compreender a maneira como elas se relacionam entre si. A farinha produzida na comunidade, por exemplo, não representa apenas alimento ou fonte de renda. Ela mobiliza famílias inteiras, fortalece relações comunitárias e mantém vivo um conhecimento transmitido entre gerações.
Da mesma forma, a cerâmica carrega uma dimensão cultural que ultrapassa seu valor comercial. Cada panela, pote ou fogareiro moldado pelas mãos das artesãs guarda técnicas aprendidas com mães, avós e bisavós, perpetuando um patrimônio imaterial que permanece vivo no território.
Ao final das oficinas, os próprios moradores definiram, de forma coletiva, qual cadeia produtiva deverá receber atenção prioritária nas próximas etapas do projeto. Essa escolha não foi determinada por consultores externos, mas construída a partir da realidade vivida pela comunidade.
Essa metodologia reafirma um dos princípios centrais do Atlas: quem conhece as necessidades do território são aqueles que vivem nele diariamente.
O artesanato como herança de gerações

Foto: Mylena Pereira
Entre as atividades destacadas durante o diagnóstico, o artesanato ocupa lugar especial na memória coletiva de São Paulo do Açu. O presidente da Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Pesca e Agricultura (ATTRUSTA) recordou que cresceu acompanhando o trabalho desenvolvido por sua mãe e por outras mulheres da comunidade.
Segundo ele, foi justamente por meio do artesanato que muitas famílias conseguiram criar seus filhos e garantir sua sobrevivência em períodos de grande dificuldade. Hoje, além de agricultor, também domina diversas técnicas artesanais aprendidas ao longo da vida. Em seu relato, fez questão de lembrar que esse conhecimento começou muito antes de sua geração.
Foi sua bisavó quem trouxe para a comunidade boa parte das técnicas utilizadas até hoje. Desde então, o saber passou de geração em geração e continua sendo ensinado aos mais jovens.
“O potencial do artesanato é muito forte aqui no Quilombo São Paulo do Açu”, destacou o lider ao relatar como esse legado continua vivo entre crianças, jovens e adultos. Essa continuidade demonstra que preservar um ofício tradicional também significa proteger a memória do território.
Cerâmica que atravessa fronteiras
Outro elemento que chamou atenção durante as oficinas foi a importância da cerâmica produzida na comunidade. Embora seja desenvolvida por um número reduzido de famílias, a atividade possui enorme reconhecimento dentro e fora do Amazonas.
Daniel, uma das lideranças locais, explicou que muitas peças produzidas em São Paulo do Açu já chegaram a outros estados brasileiros e até mesmo ao exterior. Segundo ele, visitantes italianos levavam panelas, potes, assadeiras e fogareiros como forma de divulgar o trabalho realizado na comunidade.
Mesmo atualmente, quando esses produtos são comercializados em Barreirinha, dificilmente retornam sem compradores. “É um produto que, quando chega à cidade, praticamente não volta”, relatou.
Apesar da qualidade reconhecida, os artesãos enfrentam dificuldades que limitam o crescimento da atividade. Uma delas é a obtenção da matéria-prima. Outra está relacionada ao transporte das peças, fator que reduz a capacidade de comercialização e aumenta os custos da produção. Ainda assim, a cerâmica permanece como uma das expressões mais simbólicas da identidade quilombola em São Paulo do Açu.
A farinha como expressão de autonomia
Se a cerâmica representa a memória cultural, a farinha sintetiza o cotidiano das famílias. Produzida nas casas de farinha da comunidade, ela está presente na alimentação, na economia e na organização coletiva.
Durante as oficinas, os moradores destacaram que praticamente todas as famílias mantêm algum vínculo com essa atividade.
O cultivo da mandioca, entretanto, depende de um esforço que começa muito antes da fabricação da farinha. É preciso abrir a roça, plantar, colher, transportar a produção e somente depois iniciar o processamento. Cada etapa exige trabalho coletivo.
É justamente nesse ponto que surgem alguns dos maiores desafios enfrentados pela comunidade. O agente territorial Kedson Castro explicou que a principal dificuldade está relacionada ao transporte da mandioca até a comunidade.
Sem veículos próprios, muitos agricultores precisam contratar fretes para retirar a produção das áreas de cultivo. O custo acaba sendo incorporado ao preço final da farinha, reduzindo a competitividade do produto e diminuindo a renda das famílias.
Segundo ele, a existência de um veículo comunitário ou de apoio logístico poderia transformar significativamente essa realidade. Além disso, a melhoria das condições de escoamento permitiria agregar mais valor aos produtos locais.
Diagnóstico que aponta caminhos
Ao longo das discussões, tornou-se evidente que os desafios da bioeconomia quilombola não estão relacionados à ausência de conhecimento ou de capacidade produtiva. O que limita o desenvolvimento da comunidade são, principalmente, problemas estruturais.
Entre eles aparecem:
- dificuldades de transporte;
- acesso limitado aos mercados;
- infraestrutura insuficiente;
- necessidade de fortalecimento das organizações locais;
- acesso reduzido a políticas públicas.
Mesmo diante dessas barreiras, o sentimento predominante durante as oficinas foi de esperança. Ao reunir informações detalhadas sobre cada cadeia produtiva, o Atlas começa a construir um diagnóstico capaz de subsidiar futuras ações voltadas ao fortalecimento econômico do território.
Mais do que produzir dados, o projeto ajuda a transformar reivindicações históricas em informações qualificadas, capazes de dialogar com governos, instituições de pesquisa e financiadores.
Cada formulário preenchido representa um instrumento de incidência política. Cada mapa produzido fortalece a defesa do território. Cada memória registrada impede que conhecimentos ancestrais desapareçam. Ao final daquele dia, já não havia dúvidas entre os participantes.
O futuro começa quando a comunidade decide seus próprios caminhos

Foto: Mylena Pereira
Depois de um primeiro dia marcado pela escuta, pela construção de diagnósticos e pelo compartilhamento de conhecimentos, o amanhecer no quilombo trouxe a certeza de que o Atlas de Sociobioeconomia Quilombola não estava apenas reunindo informações. Aos poucos, o projeto consolidava um processo em que cada morador passava a reconhecer ainda mais o valor do próprio território, de sua história e de seus modos de vida.
O segundo e último dia de atividades foi dedicado à consolidação das informações levantadas, à definição coletiva das prioridades produtivas e à celebração da identidade quilombola. Não havia um roteiro imposto de fora para dentro. Cada oficina era conduzida de forma participativa, permitindo que as decisões surgissem do diálogo entre as famílias.
Essa metodologia representa uma ruptura com modelos tradicionais de desenvolvimento que costumam enxergar as comunidades apenas como beneficiárias de políticas públicas.
No Atlas, acontece o contrário. São os próprios quilombolas que identificam seus desafios, apontam suas potencialidades e estabelecem quais caminhos desejam seguir. Mais do que produzir relatórios, o projeto fortalece processos de autonomia.
Construindo prioridades a partir da realidade do território
Logo nas primeiras horas do dia, consultores, lideranças e moradores retomaram as atividades iniciadas na véspera. O cadastro do território na Plataforma Territórios Tradicionais foi concluído, ampliando ainda mais a capacidade de sistematizar informações sobre São Paulo do Açu e fortalecer sua visibilidade nos processos de incidência política.
Na sequência, teve continuidade o mapeamento das cadeias produtivas. Diferentemente de levantamentos técnicos convencionais, essa etapa não buscava apenas identificar quais produtos eram cultivados ou comercializados. O objetivo era compreender quais atividades concentram maior potencial para ampliar a geração de renda sem comprometer os modos de vida tradicionais.
Durante horas de conversa, os moradores refletiram sobre diferentes possibilidades. Discutiram dificuldades de comercialização. Avaliaram desafios logísticos. Analisaram custos de produção. Recordaram experiências bem-sucedidas. Pensaram em estratégias capazes de fortalecer aquilo que já existe no território.
Ao final do processo, a própria comunidade definiu, de maneira consensuada, qual cadeia produtiva deverá receber atenção prioritária nas próximas fases do projeto. Mais do que uma escolha econômica, tratou-se de uma decisão política. Ela demonstra que o desenvolvimento sustentável não pode ser construído sem a participação efetiva daqueles que conhecem profundamente sua realidade.
Cada dado registrado fortalece a luta pelo território
Durante todo o processo, tornou-se evidente que as informações produzidas coletivamente possuem uma função muito maior do que alimentar bancos de dados. Cada mapa elaborado. Cada cadeia produtiva identificada. Cada relato registrado.Cada diagnóstico construído. Tudo isso passa a integrar um conjunto de evidências capazes de fortalecer reivindicações históricas das comunidades quilombolas.
Esse entendimento foi compartilhado por Laura Silva. Segundo ela, a principal contribuição do Atlas é justamente aproximar a organização das comunidades e permitir que as prioridades sejam definidas a partir da realidade vivida pelos próprios quilombolas.
A liderança do Mato Grosso destacou que o projeto possibilita chegar “na ponta”, ouvir diretamente as famílias, realizar o diagnóstico das cadeias produtivas, promover o georreferenciamento e mapear a produção existente em cada território.
Ela também ressaltou que essa experiência transforma não apenas as comunidades, mas toda a equipe envolvida. Durante a visita ao Amazonas, revelou ter superado um medo antigo relacionado à navegação pelos rios amazônicos.
Para ela, essa vivência reforçou ainda mais a compreensão sobre a importância da relação que os povos quilombolas mantêm com as águas, a floresta e o território. Mais do que uma experiência profissional, a coordenadora definiu a passagem por São Paulo do Açu como um processo de aprendizado e fortalecimento pessoal.
Ao final da visita, afirmou sair mais fortalecida do que quando chegou, justamente pelos conhecimentos ancestrais compartilhados pela comunidade. Laura também reforçou que falar em bioeconomia quilombola significa reconhecer a profunda interação existente entre as pessoas, a natureza e seus modos de vida.
De acordo com ela, é essa relação que explica por que a CONAQ luta permanentemente pela regularização fundiária e pela garantia dos direitos territoriais.
Quando a passarela se transforma em território

Foto: Mylena Pereira
Se durante as oficinas o protagonismo apareceu nas rodas de conversa, no encerramento das atividades ele ganhou uma nova forma de expressão. Ao final do segundo dia, a comunidade preparou um desfile com peças produzidas por uma artesã local.
À primeira vista, poderia parecer apenas uma apresentação cultural. Mas bastaram os primeiros passos para que todos compreendessem que estavam diante de algo muito maior.
A passarela tornou-se território. Cada criança, jovem, os mais velhos, mulheres e homens que atravessavam aquele espaço levava consigo uma história. Não desfilavam apenas roupas, desfilavam pertencimento. Levavam memórias construídas por gerações.
Apresentavam ao público a criatividade de um povo que transforma a matéria-prima retirada da floresta, dos rios e da terra em arte, cultura e identidade. O desfile sintetizou, em poucos minutos, aquilo que as oficinas haviam demonstrado durante dois dias inteiros.
Bioeconomia quilombola não se resume à comercialização de produtos. Ela envolve cultura, afeto, memória, organização coletiva, espiritualidade e pertencimento. Tudo isso estava presente em cada peça confeccionada pelas mãos da artesã da comunidade.
Tudo isso estava representado nos sorrisos de quem atravessava a passarela. Ao final da apresentação, era impossível separar economia de cultura. Produção de identidade e desenvolvimento de ancestralidade.
Um projeto construído com as comunidades
Desde sua concepção, o Atlas foi pensado para produzir muito mais do que diagnósticos econômicos. Sua proposta consiste em fortalecer processos permanentes de organização comunitária.
Ao longo das oficinas realizadas em São Paulo do Açu, ficou evidente que essa estratégia começa pela escuta. Nenhuma decisão foi tomada sem diálogo. Nenhuma prioridade foi estabelecida sem participação. Nenhum dado foi produzido sem a contribuição direta das famílias.
Essa metodologia faz com que cada comunidade deixe de ser objeto de pesquisa para tornar-se autora da própria narrativa. Em vez de receber respostas prontas, o território constrói coletivamente suas próprias soluções.
É justamente essa lógica que diferencia o Atlas de outros levantamentos técnicos realizados na Amazônia. Ao final do segundo dia, permanecia entre os participantes uma sensação compartilhada.
Mais do que cumprir uma agenda de trabalho, todos haviam participado de um processo de fortalecimento coletivo. As oficinas terminavam. Mas o caminho iniciado pelo Atlas apenas começou.
As informações produzidas durante aqueles dois dias continuarão orientando ações futuras voltadas ao fortalecimento da bioeconomia, da gestão territorial e da autonomia quilombola. Enquanto a equipe se preparava para seguir viagem, uma certeza permanecia.
O futuro que brota da terra e da luta coletiva
Ao longo dos dois dias de atividades, uma constatação apareceu repetidamente nas rodas de conversa, nas entrevistas e nas oficinas realizadas no Quilombo São Paulo do Açu: o maior desafio da comunidade não é produzir. O conhecimento existe, a força de trabalho também e a organização comunitária permanece viva.
O que ainda limita o pleno desenvolvimento são obstáculos históricos que acompanham inúmeras comunidades tradicionais brasileiras: infraestrutura precária, dificuldades de transporte, acesso limitado às políticas públicas e, principalmente, a demora na garantia definitiva dos direitos territoriais.
Se a produção é abundante, fazer com que ela chegue ao mercado continua sendo uma das maiores barreiras. Se os saberes ancestrais permanecem vivos, ainda faltam investimentos capazes de transformar esse patrimônio em oportunidades econômicas sustentáveis. Foi justamente nesse ponto que o Atlas assumiu um papel estratégico.
Ao registrar essas demandas de maneira sistematizada, o projeto transforma necessidades históricas em informações qualificadas, fortalecendo a capacidade de incidência política da comunidade diante do poder público e de instituições parceiras.
Mais do que produzir um diagnóstico, o trabalho realizado em São Paulo do Açu construiu instrumentos para fortalecer a luta por direitos.
Produzir é possível. O desafio é fazer chegar
Entre todas as questões debatidas durante as oficinas, poucas apareceram com tanta frequência quanto o transporte. Embora a comunidade mantenha uma produção significativa de farinha, artesanato e cerâmica, levar esses produtos até os centros urbanos continua sendo um processo caro, lento e desgastante.
O agente territorial Kedson Castro explicou que muitos agricultores precisam contratar fretes particulares para retirar a mandioca das áreas de cultivo. Cada viagem representa um custo adicional que reduz a renda das famílias e encarece o produto final.
Segundo ele, a existência de um veículo comunitário permitiria diminuir despesas, ampliar a comercialização e agregar valor à produção local. Além disso, facilitaria o transporte dos insumos utilizados nas atividades agrícolas.
Daniel, uma das lideranças da comunidade, reforçou esse diagnóstico. Para ele, o problema não está apenas na produção, mas na logística necessária para escoar aquilo que é cultivado diariamente. O mesmo desafio afeta a cerâmica.
Apesar de possuir grande aceitação entre compradores e visitantes, transportar peças produzidas artesanalmente continua sendo uma tarefa difícil.
Ainda assim, ele destaca que panelas, potes e assadeiras confeccionados no quilombo já atravessaram fronteiras e chegaram até outros países, levados por visitantes que reconheceram o valor cultural e artístico daquele trabalho.
“Quando a gente leva para vender, dificilmente volta sem comprador”, relatou. A fala evidencia uma realidade comum em diversos territórios quilombolas: o problema não é a ausência de mercado. O desafio está em criar condições para que a produção circule com dignidade.
Educação, saúde e mobilidade caminham juntas
As conversas também revelaram que fortalecer a bioeconomia exige olhar para além da produção. Melhorar a qualidade de vida da comunidade significa investir igualmente em educação, saúde e infraestrutura.
Responsável pelo transporte escolar da comunidade há cinco anos, Luís Augusto descreveu os desafios enfrentados diariamente para garantir que estudantes tenham acesso à escola.
Dependendo da época do ano, o comportamento do Rio Andirá modifica completamente sua rotina. Durante o período das cheias, a força da correnteza dificulta a navegação.
Na estiagem, o problema é o inverso: o rio seca, obrigando o deslocamento por longas distâncias até alcançar um ponto navegável. Mesmo após adquirir uma embarcação maior, ele continua enfrentando limitações devido ao motor utilizado, insuficiente para suportar determinadas condições do rio.
Além do transporte de estudantes, Luís também leva atividades escolares para crianças que não conseguem chegar à escola durante determinados períodos. Sua rotina começa antes do amanhecer e revela como a educação, nos territórios amazônicos, depende diretamente das condições ambientais e da infraestrutura disponível.
A saúde aparece como outra preocupação constante. Segundo ele, quando o Rio Andirá apresenta condições adversas, o acesso às unidades de atendimento torna-se ainda mais difícil. Por isso, defende a implantação de um ponto de saúde na própria comunidade, garantindo atendimento mais rápido para crianças, idosos e demais moradores.
A luta pelo território continua

Foto: Mylena Pereira
Se as dificuldades logísticas desafiam o cotidiano da comunidade, existe uma reivindicação que atravessa gerações: a titulação definitiva do território. Durante entrevista concedida à equipe do Atlas, Daniel explicou que São Paulo do Açu já percorreu etapas importantes do processo de regularização.
Segundo ele, a comunidade possui certificação e já passou pelos procedimentos técnicos necessários. Agora, aguarda a etapa final: a emissão do título definitivo do território. Para os moradores, essa conquista representa muito mais do que um documento. Significa segurança jurídica, proteção da memória coletiva, garantia de permanência das futuras gerações e possibilidade de acessar políticas públicas específicas.
E, sobretudo, reconhecimento de uma história construída muito antes da formação do Estado brasileiro. Ao longo das oficinas, tornou-se evidente que a bioeconomia quilombola depende diretamente dessa segurança territorial. Sem território protegido, não existe agricultura, não existe produção artesanal, preservação ambiental e transmissão dos conhecimentos ancestrais. Defender a regularização fundiária, portanto, também significa defender a floresta, os rios e a biodiversidade.
Um legado que permanece
Quando a equipe do Atlas deixou São Paulo do Açu, levou consigo centenas de fotografias, entrevistas, mapas, diagnósticos e registros audiovisuais. Mas esse não foi o principal resultado da visita.
O maior legado produzido durante aqueles dois dias foi invisível. Permaneceu na comunidade. Ficou nas conversas realizadas entre gerações, na confiança construída entre equipe e moradores, na participação ativa das lideranças, nas escolhas coletivas feitas durante as oficinas e na certeza de que os próprios quilombolas são os maiores especialistas sobre seus territórios.
Ao mesmo tempo, a comunidade deixou marcas profundas em quem participou da expedição. A experiência compartilhada por Laura Ferreira sintetiza esse sentimento. Ela afirmou que saiu do Amazonas diferente de quando chegou.
Não apenas por superar um medo pessoal relacionado à navegação, mas principalmente porque compreendeu, mais uma vez, que a defesa dos territórios quilombolas nasce da relação cotidiana entre as pessoas, a natureza e seus ancestrais.
Ao concluir sua passagem por São Paulo do Açu, a equipe da CONAQ seguiu viagem levando uma convicção ainda mais sólida. A bioeconomia quilombola não nasce em escritórios, laboratórios ou grandes centros urbanos.
Ela nasce na casa de farinha, onde gerações compartilham trabalho e alimento. Nas mãos que moldam o barro e transformam a terra em cerâmica. Na roça cultivada coletivamente, nos rios que conectam famílias e histórias, nas assembleias comunitárias onde decisões são tomadas em conjunto e nas crianças que aprendem observando seus mais velhos, nas mulheres que preservam conhecimentos transmitidos há séculos e nos homens que seguem defendendo a terra mesmo diante das dificuldades.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 18:16:53
Categoria: Meio Ambiente