18 de junho de 2026
Oficina Nacional de Agentes Culturais fortalece construção de política cultural para os povos do campo, das águas e das florestas
Encontro realizado em Brasília reuniu representantes de movimentos populares, pesquisadores, coletivos culturais e comunicadores quilombolas para elaborar propostas voltadas à valorização dos territórios, das identidades e das expressões culturais tradicionais.
Brasília (DF) – Entre os dias 12 e 14 de junho, a capital federal sediou a Oficina Nacional de Agentes Culturais do Campo, das Águas e das Florestas, um espaço de articulação, formação e construção coletiva voltado à formulação de diretrizes para um futuro Programa Nacional de Arte e Cultura destinado aos povos tradicionais, comunidades rurais e movimentos populares. A iniciativa reuniu representantes de organizações sociais, coletivos culturais, pesquisadores e agentes territoriais de diversas regiões do país para debater caminhos para o fortalecimento das políticas públicas culturais nos territórios.
A programação foi estruturada em torno de debates sobre identidade, memória, território, sustentabilidade cultural, participação social e valorização das expressões artísticas produzidas no campo, nas águas e nas florestas. Ao longo de três dias, os participantes compartilharam experiências, construíram propostas e contribuíram para a elaboração de um documento-síntese que servirá de subsídio para a construção de políticas culturais voltadas às populações tradicionais e rurais.
Entre os representantes quilombolas presentes estiveram os comunicadores Lauriane Theodoro dos Santos, Misael Henrique Rodrigues dos Santos, Estefany Cristina, Jonas Emanuel Acácio Santos Melo e Ericksson Morato, que contribuíram com reflexões sobre comunicação comunitária, memória, identidade e fortalecimento cultural dos territórios quilombolas. A participação do grupo reforçou a importância da comunicação como ferramenta de preservação dos saberes ancestrais e de ampliação da visibilidade das pautas dos povos tradicionais.
A delegação quilombola contou ainda com a presença do coordenador nacional da CONAQ (BA) Ananias Nery Viana e o coordenador (xxx_) Adalmir de Conceição, que acompanharam os debates e contribuíram para a construção das propostas apresentadas durante a oficina.
Cultura, território e identidade no centro dos debates

Foto: Acervo CONAQ
A programação teve início com uma mística de abertura e um ato político, seguido por mesas de discussão sobre conjuntura política, democracia e os desafios enfrentados pelos povos do campo, das águas e das florestas. Também foram debatidos temas relacionados à identidade cultural, aos saberes tradicionais e às formas de fortalecimento das expressões artísticas desenvolvidas nos territórios.
Para o coordenador nacional da CONAQ (BA) Ananias Nery Viana, um dos principais avanços da oficina foi ampliar o entendimento sobre o conceito de cultura a partir da perspectiva dos povos tradicionais.
“A gente não consegue falar de cultura artística sem falar da cultura alimentar, sem falar das manifestações culturais, dos saberes e fazeres das comunidades, das rezadeiras, das benzedeiras, das parteiras e dos remédios que a gente faz com plantas medicinais. Não conseguimos falar de cultura sem falar da preservação ambiental, dos rios, das nascentes, dos manguezais e da agricultura familiar.”
Segundo ele, a participação quilombola ajudou a ampliar a compreensão dos demais movimentos sociais presentes sobre a relação entre cultura, território e modo de vida.
“Foi importante para todos os movimentos sociais que lá estavam ter essa compreensão do que é cultura para a gente de comunidade quilombola e que pode ser também adequada à realidade de outros povos.”
Construção coletiva de propostas
Um dos principais objetivos da oficina foi reunir experiências e conhecimentos acumulados por movimentos sociais, organizações populares e agentes culturais para subsidiar a criação de um programa nacional voltado ao setor. As discussões buscaram reconhecer o papel estratégico dos agentes culturais na mobilização comunitária, no diagnóstico cultural dos territórios e na articulação de ações que promovam o desenvolvimento social por meio da cultura.
Ao longo dos grupos de trabalho, os participantes elaboraram propostas voltadas à valorização das identidades culturais, à preservação da memória coletiva e ao fortalecimento das redes comunitárias. As contribuições foram sistematizadas e debatidas em plenária, culminando na aprovação de encaminhamentos que poderão subsidiar futuras políticas públicas para os povos do campo, das águas e das florestas.
Financiamento segue como desafio para os povos tradicionais
Além dos debates conceituais, a oficina também trouxe para o centro da discussão a necessidade de garantir recursos para que as políticas culturais sejam efetivamente implementadas nos territórios.
De acordo com o baiano, a construção de políticas públicas precisa estar acompanhada de orçamento adequado para atender às demandas das comunidades tradicionais.
“A gente discutiu muito isso: não basta sentar para discutir política cultural. A gente precisa criar política, mas precisa também de financiamento para colocar essa política em prática nas comunidades tradicionais.”
O coordenador destacou também que, historicamente, os investimentos públicos na área cultural não alcançam de forma efetiva os povos quilombolas, indígenas e demais comunidades tradicionais.
“Quando a gente fala de cultura, precisamos perguntar que cultura é essa que o governo financia. Não é a nossa cultura que recebe apoio. Por isso defendemos um fortalecimento do orçamento para que nossas iniciativas possam existir e se desenvolver.”
Para ele, a cultura quilombola não pode ser compreendida de forma fragmentada, pois está diretamente relacionada à produção de alimentos, à preservação ambiental, à pesca artesanal, aos conhecimentos ancestrais e às formas coletivas de organização.
“A nossa cultura é transversalizada. A gente está falando de agricultura familiar, de pesca, de preservação dos territórios, de tudo aquilo que garante a continuidade dos nossos modos de vida. Por isso, precisamos de investimentos compatíveis com essa realidade.”
Comunicação quilombola como ferramenta de resistência
A participação dos comunicadores quilombolas reafirmou o papel fundamental da comunicação popular na defesa dos territórios, na preservação das memórias coletivas e no fortalecimento das identidades culturais. Estiveram presentes os comunicadores Lauriane Theodoro dos Santos, Misael Henrique Rodrigues dos Santos, Estefany Cristina, Jonas Emanuel Acácio Santos Melo e Ericksson Morato, que contribuíram para os debates e para a construção das propostas apresentadas durante a oficina.
A delegação quilombola contou ainda com a presença de Adalmir de Conceição, liderança da CONAQ que acompanhou as discussões e contribuiu para a formulação das diretrizes do encontro.
Ao avaliar o resultado da oficina, Ananias finalizou ressaltando a importância da participação quilombola na construção coletiva das propostas. “O evento foi muito importante para a gente. Apesar de não termos muitos quilombolas nesse debate, os que estiveram presentes foram capazes de construir e ajudar a formular uma política pública nacional para os povos e comunidades tradicionais do Brasil.”
Mais do que um espaço de debates, a Oficina Nacional de Agentes Culturais foi um ambiente de troca de experiências, fortalecimento de alianças e construção de propostas voltadas à valorização das identidades, dos saberes ancestrais e das expressões culturais dos povos do campo, das águas e das florestas.
Texto por Comunicação CONAQ, publicado às 14:47:42
Categoria: Meio Ambiente