14 de junho de 2026
“Vidas Interrompidas” denuncia violência e legitima resistência quilombola
Lançados no III Encontro de Mulheres, publicação e documentário evidenciam a luta coletiva e expõem dados sobre violações.
Apresentar a resistência, a memória e a luta coletiva dos povos quilombolas frente às violências históricas e contemporâneas e assumir um papel de denúncia e de preservação da memória ancestral, é o eixo central da publicação e do documentário “Vidas Interrompidas” lançados neste sábado (13), no III Encontro de Mulheres Quilombolas. A obra percorre a luta de um movimento que segue pulsando, reafirmando que nem mesmo a violência é capaz de interromper trajetórias de defesa aos direitos.
O documentário, que tem duração de 15 minutos, se fundamenta como uma homenagem às defensoras e aos defensores de direitos humanos quilombolas, ao mesmo tempo em que amplia a dimensão política da obra ao evidenciar práticas de proteção, cuidado e autocuidado. Ao dar visibilidade a essas estratégias, o filme reforça a centralidade da ação coletiva no enfrentamento das violências que atravessam corpos e territórios negros.
Desenvolvidos pela Conaq, esses produtos se ancoram em dados quantitativos sobre a violência contra os povos quilombolas traçando uma linha do tempo dos principais episódios de violações enfrentados por essas comunidades. O levantamento revela não apenas a persistência, mas também a intensificação dessas violências ao longo dos anos, evidenciando um cenário de vulnerabilidade estrutural. Os dados apontam que os quilombolas são atingidos por diferentes formas de violência, que vão desde ameaças e intimidações até ataques mais graves. Ao sistematizar essas ocorrências, a publicação não apenas dimensiona o problema, mas também reforça a urgência de políticas públicas efetivas para a proteção desses territórios e de seus protetores.
Francys Eliza que integrou a equipe de escritores do livro, falou sobre sua participação: “Fico muito emocionada por participar da construção desse livro que tem um significado relevante para os quilombos”.
Racismo estrutural, pandemia e violência no campo quilombola

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
Composta por duas partes, onde a primeira é intitulada “Ameaças e assassinatos contra quilombolas defensoras e defensores de direitos humanos”, a publicação descreve de forma detalhada temáticas urgentes que permeiam a realidade dos quilombolas. Dos temas expostos nesta parte I destaca-se: A conjuntura política no Brasil (2009-2024): contexto, desafios e desdobramentos.
Neste tópico, a Conaq expõe o cenário da pandemia de Covid-19 que revelou o quanto o racismo estrutural molda as políticas públicas que deveriam beneficiar os povos quilombolas. Diante do cenário de descaso e omissão do Estado no processo de viabilização de subsídios aos povos quilombolas durante a pandemia, a Coordenação denunciou a ausência de ações efetivas por parte do poder público. A subnotificação de casos confirmados e de óbitos, aliada à negação de direitos, impulsionou a mobilização do principal movimento quilombola do país, que, em 2020, lançou um boletim epidemiológico autônomo com o objetivo de dar visibilidade à realidade vivida nos territórios e fortalecer estratégias de incidência política e judicial.
Nesse contexto, o movimento quilombola consolidou-se como uma estratégia indispensável de luta pela efetivação dos direitos humanos dessas populações. Ainda em 2020, a Conaq protocolou, junto ao Supremo Tribunal Federal, a ADPF 742, instrumento fundamental para exigir a criação de um plano emergencial de enfrentamento à Covid-19 nos territórios quilombolas.
Já no tema “Panorama da violência contra quilombolas entre 2019 e 2024” que também integra a parte I da publicação, a Conaq mostra o quantitativo das vítimas, sendo em média de 8 por ano. Apesar dessas mortes terem sido a maioria composta por homens, a violência contra as mulheres ocorreu de forma contínua. Detalhado, esse panorama mostrou que o principal fator motivador das mortes foram conflitos fundiários, resultando em 35% dos casos mapeados. A demora quanto às titulações arrastadas pelos interesses públicos e privados, colaboram estrategicamente para essa escalada de violência, onde a vida dos quilombolas está constantemente ameaçada.
Violência de gênero e os impactos da vida nos territórios

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
A parte II da publicação que leva o título de “Assassinatos de mulheres quilombolas defensoras de direitos humanos (2008-2024)”, são apresentados números acerca dos homicídios cometidos contra mulheres, revelando a crueldade e o impacto dos crimes na vida dos familiares e para a luta quilombola. Este recorte das mortes no que tange às mulheres, traz em suas especificidades o papel que as mesmas ocupam enquanto lideranças e defensoras dos modos de vida nos territórios ou em contexto de violência doméstica.
Este estudo evidencia que a violência direcionada aos corpos femininos, ultrapassa a dimensão individual e se insere em um contexto estrutural, marcado por tentativas sistemáticas de silenciamento. Segundo a publicação, essas violências operam como mecanismos de desarticulação social, comprometendo a continuidade histórica, cultural e territorial dos quilombos. Diante desse cenário, a indagação levantada no presente documento se existe espaço seguro para a mulher quilombola é urgente e indissolúvel da luta pela garantia das vidas dos povos tradicionais.
Texto por Jéssica Alburqueque, publicado às 00:08:09
Categoria: Mulheres Quilombolas