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14 de julho de 2026

“Um rio que esquece sua nascente, ele seca e morre”, diz jovem quilombola após formatura no curso de medicina

Pedro Júnior, da comunidade quilombola de Santana, em Salgueiro (PE), celebra a conquista do diploma como um marco para a luta do seu povo e o resultado prático das políticas de cotas estudantis.

“Esse não é um sonho só meu”. São palavras de Pedro Fernando dos Santos Júnior, de 27 anos, ao descrever o sentimento de vitória compartilhada com a comunidade quilombola de Santana, localizada em Salgueiro, Pernambuco. O jovem recém formado em medicina representa a luta de seu povo e o resultado das políticas públicas. 

Para Pedro Júnior, o jaleco não pertence apenas a ele, mas a toda a comunidade Quilombola de Santana:

O que significa para mim ser um jovem quilombola médico… eu acho que sai do pressuposto que não é um sonho só meu. Quando a gente pensa um pouco na epistemologia da ancestralidade, a gente leva isso a um conceito de que é um sonho nosso e não um sonho meu. É um sonho onde eu consigo mostrar aos outros que a porta está aberta”, reflete.

A jornada até a colação de grau e formatura foi marcada por desafios. O primeiro deles foi a distância da comunidade e dos familiares.Pedro relata que foi difícil se afastar de suas raízes.  

“Ficar longe dos meus. Parece que a gente perde mais força. É como se sua família, seu quilombo, seus amigos, seus parentes fossem a energia vital que move você. E que, quando você se distancia de tudo isso, seu corpo vai ficando cada vez mais fraco”. Explica.

Ao final da graduação, as visitas ao território foram diminuindo. Pedro lembra que um dos momentos mais difíceis durante o curso foi o falecimento da avó que sofria de Alzheimer e já não se recordava do neto nas últimas vezes em que ele esteve em casa, durante as férias. A notícia do falecimento chegou através de uma mensagem enviada pela prima. A dor de não ter conseguido se despedir da avó marcou o estudante: “Pareceu que o mundo parou e só escutava um piado e nada mais fazia sentido (…). Não ter conseguido dar o tchau me doeu mais do que muita coisa”, desabafa.

Bolsa permanência

Para além de ingressar na universidade, estudantes quilombolas encontram dificuldades para permanecer. As despesas e necessidades de Pedro Júnior fora da comunidade foram supridas através da assistência estudantil da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) em 2019 e, logo após, pela Bolsa Permanência do Ministério da Educação (MEC) — que passou de R$ 900,00 para R$ 1.400,00 mensais durante sua graduação. Além desse suporte e do auxílio constante de sua família, Pedro Júnior dedicou-se ao ambiente acadêmico atuando em programas de Iniciação Científica e Projetos de Extensão, publicou artigos científicos e fez parte da diretoria de comitês nacionais de ligas de ortopedia. 

Atualmente, Pedro Júnior exerce a profissão de médico em Santa Maria da Boa Vista (PE) pelo programa Mais Médicos. Ele descreve a rotina como cansativa, mas gratificante. Ao ser questionado sobre seus sonhos após o início da carreira profissional, a resposta do jovem surpreende pela simplicidade.

“Um dos meus maiores sonhos quando eu receber meu salário é fazer uma feira no mercado sem olhar o preço de nada, sabe? Só colocar no carrinho o que eu quero e pagar no final. Para quem cresceu num ambiente controlado monetariamente o tempo todo, esses pequenos sonhos têm um impacto gigante”

Seu pai, Pedro Fernando (conhecido na região como “Pedrinho”), destaca o papel crucial do Estado para que esse resultado fosse alcançado:

“Pedro Júnior entra na universidade através das cotas, permanece na universidade através da política de permanência, e agora ele sai da universidade, já vai trabalhar através do outro programa de governo que é o Mais Médicos. Então isso significa que há uma ligação lógica e uma sequência entre as políticas. Motivo de orgulho para nós e para a luta”, disse.

Pedrinho reforça ainda o papel fundamental da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). “Eu entendo que esse é um momento, por exemplo, da CONAQ provocar esses formandos, esses novos profissionais, para o encabeçamento dessa luta. Essa não é uma luta que eu comecei, na verdade eu já recebi essa luta de outros companheiros. Agora eles têm motivos muito profícuos (proveitosos) para levar essa luta adiante para outros, para já terem condições melhores de acesso, permanência e de sucesso na carreira”.

Para os jovens quilombolas que desejam seguir seus passos na medicina, Pedro deixa um conselho valioso sobre a importância de honrar a sua história:

“Um rio que esquece sua nascente, ele seca e morre. Então, mesmo que a medicina lhe cobre o que não deveria cobrar de um ser humano, nunca perca sua humanidade. Em hipótese alguma perca seus laços e se desvincule da sua ancestralidade. Nos momentos de desespero, são eles que nos apoiam”, finaliza Pedro Júnior.