13 de junho de 2026
Último dia do III Encontro de Mulheres Quilombolas fortalece articulação política, ancestralidade e luta por direitos
Programação reúne espiritualidade, debates estratégicos e lançamentos que reafirmam a resistência, a defesa dos territórios e o protagonismo das mulheres quilombolas.
O evento que está sendo realizado em Brasília segue marcado por momentos simbólicos e de forte representatividade. Neste sábado (13), a programação teve início com um ensaio fotográfico que reuniu mulheres de diferentes territórios, evidenciando, em cada olhar e pose, a diversidade e a identidade dos quilombos. Mais do que registros visuais, as imagens capturam histórias e reafirmam a construção coletiva que se fortalece a cada edição do encontro.
Na sequência, a programação contemplou a reza dedicada à ancestralidade, conduzida por mulheres das regiões Sudeste: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo; e Centro-Oeste: Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O momento destacou a força das raízes e a conexão com as mulheres que vieram antes, reafirmando a espiritualidade como elemento central na trajetória quilombola.
As vereadoras em exercício foram convidadas a se posicionar à frente: Verônica, única mulher vereadora do Rio Grande do Sul; Valdirene, quilombola de Serraria e vereadora em São Mateus, Espírito Santo; Estelita, vereadora no estado de Pernambuco; e Socorrinha, vereadora de Tavares, na Paraíba, atualmente em seu quarto mandato. Elas trouxeram em suas falas a importância da representatividade feminina nos espaços de decisão, onde a política é um instrumento decisivo para a construção do futuro dos territórios.
Confluências

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
A Gira Amazônia Quilombola também integrou a programação do Encontro. Na ocasião, Milene Maia, representante do Instituto Socioambiental (ISA), foi convidada a apresentar e refletir sobre a publicação que leva o mesmo nome da gira:
“Para a gente conseguir de fato fazer uma incidência, hoje esse universo a gente precisa de informações e de dados e isso sempre traz um diferencial. Quantos territórios quilombolas a gente tem na Amazônia? Qual o número desses espaços que ajudam e que protegem as vidas nos quilombos? Então são números importantes” afirmou.
Já a Gira LBT “Não viemos do armário, viemos do Quilombo”, foi conduzida por Cristina Quilombola, que, junto às mulheres convidadas, chamou ao palco as mulheres LBT, afirmando a centralidade de suas vozes na luta quilombola. O momento evidenciou a importância da representatividade como expressão de resistência, pertencimento e afirmação coletiva.
Em sua fala, Cristina destacou que a pluralidade fortalece a existência e amplia as possibilidades de viver com dignidade. Ao reivindicar o direito de ser quem se é, reforçou que a diversidade não é exceção, mas parte fundamental da construção dos territórios e das lutas quilombolas.

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
A Gira “Mães de crianças especiais e mães de triplos: quilombola é tese viva e não existe sem cuidado, instinto e direito” composta por Andreia Nazareno, Jurema Paixão, Miguelanes Crisóstomo, Adriana Ferreira e outras mulheres convidadas evidenciou a resistência de mulheres que, no exercício do maternar, se reinventam e se fortalecem cotidianamente.
A diversidade da mesa trouxe à tona as múltiplas realidades vividas por essas mães, cujas experiências são atravessadas por desafios constantes. Entre o cansaço, as renúncias e as adversidades, elas ressignificam diariamente o amor pelos filhos, transformando a maternidade em um espaço de luta, cuidado e potência. É nesse movimento contínuo de tentar, de persistir e recomeçar que se afirmam como únicas e essenciais.
Para Miguelanes Crisóstomo, a trajetória da maternidade foi marcada por desafios profundos desde o início: “Meu primeiro desafio foi ter que desistir da faculdade quando descobri a gravidez. O segundo foi enfrentar o descaso do poder público. Ainda assim, graças a Deus, contei com o apoio fundamental da minha família. Tive que sair da minha cidade, ir morar na capital e depois que os trigêmeos nasceram fiquei dois meses no hospital com eles. Hoje sou uma liderança dentro do meu quilombo e sou coordenadora da COEQTO. A vontade de desistir é grande, mas se estou na liderança do quilombo, foi por incentivo da minha mãe. E assim como ela me incentivou eu não posso desistir agora, porque senão eu estou impedindo meus filhos de serem a continuidade da luta quilombola”.
Na Gira Religiosidades “Quilombo é oração, reza, benção e cuidado espiritual”, conduzida por Mariah Fernandes, Bia Nunes e Mestre Naldo, uma cantiga foi entoada para marcar a abertura do momento, trazendo força e conexão espiritual ao espaço.
Durante as saudações, cada integrante da mesa reverenciou a religiosidade como um dos pilares fundamentais da vivência quilombola, destacando sua importância na preservação da cultura, da ancestralidade e do cuidado coletivo. Mestre Naldo, quilombola do Pará, compartilhou sua trajetória e refletiu sobre os caminhos pelos quais a ancestralidade o guiou até os dias atuais.
“Nossas parteiras e benzedeiras tem todo um ritual para acompanhar as mulheres nesse momento. Até hoje eu guardo o patuá que as minhas ancestrais usavam. Quem nasceu com esse procedimento, já nasceu com todos os rituais necessários para continuar nessa missão ancestral.
Na Gira que durou 1 hora sobre Violência contra as mulheres, a programação também contou com o tema sobre Feminicídio Zero, onde uma representante das Ministério das Mulheres, falou sobre a incidência que o órgão tem adotado mediante ao aumento da violência contra a mulher.
Engajado no enfrentamento e combate a todos os tipos de violência, o Ministério das Mulheres se colocou à disposição para dialogar com a CONAQ sobre a proteção das mulheres quilombolas.
As giras presentes no III Encontro firmaram-se como espaços de fortalecimento e de cura coletiva, no qual a fé, a luta e diversidade se reafirmam como fundamentos essenciais da existência quilombola.
Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Territórios Quilombolas – (PNGTAQ)

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
O Ministério da Igualdade Racial também participou do Encontro e apresentou o debate sobre o PNGTAQ, tema considerado estratégico para o fortalecimento das políticas públicas voltadas aos territórios quilombolas.
Nesse espaço de construção política a chefe de gabinete, Francinete Pereira quilombola do Maranhão, marcou presença, onde destacou acerca da importância da iniciativa para a garantia de direitos e a proteção dessas comunidades. Para Fran:
“O PNGTAQ tem uma atuação extremamente importante dentro da implementação dessa política. A política de gestão territorial e ambiental é uma política que ela é coordenada pelo Ministério de Igualdade Racial, mas também tem outros atores que tem responsabilidade por essa política, o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério do Desenvolvimento Agrário, que também estiveram aqui no dia que o presidente Lula estava, assumindo também o compromisso com a política de gestão territorial e ambiental”.
A Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Territórios Quilombolas (PNGTAQ) foi instituída com o objetivo de atender comunidades quilombolas em todo o país, independentemente do estágio de regularização fundiária. A política busca fortalecer esses territórios diante das diferentes pressões e impactos enfrentados localmente, com foco na garantia dos direitos territoriais e ambientais.
Lançamento de publicações e documentário

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
O Quitungo Literatura Fátima Barros foi marcado pelo lançamento da publicação Vidas Interrompidas e exibição do documentário. Reunindo representantes da CONAQ como Selma Dealdina e Maria Aparecida e a COSPE que foi representada por Martina Molini, a publicação reforçou a busca por reparação, dignidade e pelo direito de permanência nos territórios, diante de um cenário em que ameaças ainda forçam famílias a deixarem suas terras.
O documentário, com duração de 15 minutos, apresenta uma narrativa potente sobre a luta e a força de inúmeros defensores que encontram no território a base para continuar. De forma consistente, o filme percorre a linha do tempo do fortalecimento da luta quilombola, evidenciando que essa resistência é histórica e contínua. A expectativa é que a publicação contribua para dar visibilidade a essas vozes, fortalecer as lutas coletivas e apontar caminhos em direção à justiça para os quilombos em todo o país.
Nesse mesmo horizonte de fortalecimento, a formação de uma turma voltada à advocacia quilombola como apresentada na obra “Esperançar é preciso: práticas da advocacia popular quilombola”, lançada durante o III Encontro, de autoria da professora Erika Moreira (UFG) e de Sarah Fogaça (CONAQ) representa uma estratégia fundamental de resistência e afirmação de direitos. Mais do que um processo educativo, trata-se de uma construção coletiva de saberes jurídicos comprometidos com a realidade dos territórios, que fortalece a autonomia das comunidades quilombolas na defesa de seus direitos humanos.
Ao articular formação política, jurídica e territorial, a advocacia popular quilombola se consolida como ferramenta essencial no enfrentamento das violações históricas e contemporâneas. A criação de uma turma dedicada a essa prática amplia o acesso à justiça, promove o protagonismo quilombola e reafirma que o direito, quando enraizado nas vivências e lutas do povo, torna-se instrumento de transformação social e garantia de dignidade.
Carta compromisso de enfrentamento a violência contra as mulheres
Retomando os Grupos de Trabalho (GTs) do dia anterior, o Grupo 7 ficou responsável pela elaboração e apresentação da carta-compromisso de enfrentamento às violências contra as mulheres quilombolas. O processo de construção contou também com a participação dos homens, reforçando a importância de um debate coletivo e misto na formulação de estratégias voltadas à proteção das mulheres.
Durante a apresentação da carta, todos os homens presentes no encontro foram convidados a subir ao palco, simbolizando o compromisso assumido. Antes da leitura, as integrantes do grupo promoveram uma reflexão sobre a realidade vivida por muitas mulheres quilombolas, especialmente aquelas que são mães solo e enfrentam situações de violência doméstica ou o abandono por parte de seus companheiros(as).
A leitura da carta foi realizada pelos homens integrantes do grupo, que destacaram a importância da construção coletiva do documento e a urgência de que os homens assumam a responsabilidade de somar forças com as mulheres no enfrentamento à violência.
Agradecimentos

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
No encerramento do III Encontro de Mulheres Quilombolas, a coordenadora Selma Dealdina convidou ao palco Francys Eliza, Berenita e Cecília para agradecer pela coordenação do evento. O coletivo de comunicação, coordenado por Nathália Purificação, também foi convidado, no qual recebeu agradecimentos pela cobertura do evento. A equipe de relatoria, sob coordenação de Micele do Espírito Santo, também foi homenageada pelo trabalho desenvolvido ao longo da programação.
As coordenadoras do Coletivo de Mulheres da CONAQ foram chamadas à frente e reconhecidas com aplausos pela mobilização e pelo esforço em garantir a presença das mulheres no encontro. Na sequência, as coordenadoras do Quilombinho também subiram ao palco, onde registraram o momento com a bandeira da CONAQ, simbolizando o compromisso com a continuidade e o fortalecimento da organização.
Durante a cerimônia, os windbanners que homenagearam lideranças quilombolas que já ancestralizaram e que deram nome aos espaços do evento foram entregues aos familiares presentes. Cada entrega foi marcada por emoção e registros fotográficos simbolizando e preservando a memória afetiva do momento.
Durante os agradecimentos, as convidadas internacionais também foram incorporadas ao momento de celebração, marcado por aplausos e reconhecimento coletivo. Em um encontro considerado histórico, as mulheres quilombolas destacaram o empenho das coordenadoras executivas, Maria Aparecida Sousa e Selma Dealdina, cuja dedicação foi fundamental para a realização do III Encontro de Mulheres Quilombolas, reconhecido como um espaço de cura, escuta e partilha.
Deliberações do IV Encontro de Mulheres

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
A apresentação das deliberações para o IV Encontro de Mulheres Quilombolas da CONAQ, conduzida por Rosalinda, a coordenadora da CONAQ fez apontamentos acerca dos próximos passos da organização, reafirmando o compromisso com a continuidade das lutas por direitos, justiça social e defesa dos territórios.
Entre as deliberações ela espera no IV Encontro a presença de 1.000 mulheres quilombolas incidindo na luta pela existência e continuidade dos territórios.
Mais do que reunir mais de 500 mulheres de diferentes territórios, o III Encontro se consolida como expressão de memória, resistência e construção política. Um espaço em que cada mulher reafirma seu papel como continuidade da luta e representatividade nos seus territórios.
Fortalecimento da identidade coletiva quilombola
A programação também contou com momentos de integração e celebração. Durante o jantar coletivo, as participantes acompanharam o jogo do Brasil contra o Marrocos pela Copa do Mundo, em um ambiente de convivência e fortalecimento de vínculos. Na sequência, o desfile de Moda Afro Quilombola, conduzida por Adda Victória Caetano, destacou a estética, identidade e ancestralidade presentes nas expressões culturais dos territórios.
Encerrando o dia, a Noite Cultural reuniu as convidadas que celebraram a diversidade, a resistência e a memória dos povos quilombolas, reforçando o encontro não apenas como um espaço político, mas também de valorização das expressões culturais e da identidade coletiva das mulheres quilombolas.
Texto por Jéssica Alburqueque/CONAQ, publicado às 23:58:20
Categoria: Mulheres Quilombolas