14 de abril de 2026
Selma Dealdina, ativista quilombola: “Para o agronegócio, a terra é uma mercadoria, algo que é explorado e saqueado sem que nada seja dado em troca”
A liderança brasileira afirma que a luta pela terra é também uma luta pela democracia, por reparações e por uma vida digna.
Selma dos Santos Dealdina Mbaye (Sapê do Norte, Brasil, 43 anos) é uma renomada ativista brasileira e líder na luta pelos direitos do povo quilombola, comunidade descendente de africanos escravizados que fugiram e formaram assentamentos livres chamados quilombos. “Ser quilombola é pertencer a um povo que luta por seus territórios, pela defesa da natureza e pelo empoderamento da juventude”, explica em entrevista ao EL PAÍS em Brasília. “Somos a continuação de uma história que começou com a escravização de nossos ancestrais, quando nosso povo buscou espaços para se reorganizar e construir novas formas de vida coletiva em liberdade. Foi assim que nasceram os quilombos ”, acrescenta.
O Quilombo dos Palmares é o mais conhecido, mas Dealdina insiste em desmistificar uma ideia equivocada bastante difundida no Brasil: “As pessoas pensam que os quilombos acabaram quando Palmares foi destruído. Isso não é verdade. Nós, quilombolas, ainda estamos aqui, e os quilombos correm no meu corpo, na minha vida e na minha identidade.” Hoje, existem mais de 9.000 comunidades quilombolas no Brasil, totalizando mais de 1,5 milhão de pessoas em 24 estados.
Há anos, a ativista é uma das líderes políticas da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas ( CONAQ ), principal organização dedicada à defesa dos direitos desse povo, que acaba de celebrar 30 anos de ativismo ininterrupto.
“É um movimento gigantesco que luta pela titulação de territórios e enfrenta o racismo estrutural, energético e ambiental, e todas as formas de violência contra nossos corpos e nossas terras”, resume ela na conversa com este jornal, que ocorreu durante a segunda Marcha Nacional de Mulheres Negras , que reuniu milhares de mulheres no final de novembro de quilombos, margens de rios, campos, periferias urbanas, universidades e dos territórios mais invisíveis de toda a região latino-americana.
Quando questionada sobre as prioridades atuais das comunidades quilombolas, a ativista responde com uma tríade que repete quase como um mantra: “Se eu pudesse ter três desejos, seriam: titulação de terras, segurança e continuidade”. A titulação de terras, explica ela, é a essência de tudo. Dos milhares de quilombos existentes, apenas uma pequena fração obteve o título legal de sua propriedade coletiva; mesmo as comunidades que já receberam a certificação (etapa anterior à titulação) podem esperar décadas para que o processo seja concluído.
“A lentidão do Estado brasileiro nos custou vidas. Permite que ameaças, ataques e assassinatos contra nossos líderes continuem”, afirma. Ela cita o relatório Vidas Interrompidas , publicado em 2025 como parte do projeto Resistência Quilombola , financiado pela União Europeia, que documenta homicídios, tentativas de homicídio e ataques contra defensores de direitos humanos. Entre 2019 e 2024, o estudo documenta 46 assassinatos registrados de líderes que defendiam os direitos humanos de comunidades quilombolas. “Não reconhecer isso hoje é não reconhecer e não reparar. Ajudamos a construir este país ontem e hoje, mas continuamos sendo uma parte excluída da sociedade por causa do racismo”, afirma.
“A lentidão do Estado brasileiro em responder nos custou vidas. Ela permite que ameaças, ataques e assassinatos contra nossos líderes continuem.”
Para Dealdina, um diploma também é uma condição essencial para que as políticas públicas sejam mais do que meras medidas paliativas: “Algumas políticas são implementadas, mas sem um diploma não há garantias plenas. Queremos que um diploma esteja disponível enquanto ainda estamos vivos.”
Neste ponto, ela introduz uma distinção que considera essencial: “Para o agronegócio, a terra é uma mercadoria, algo a ser explorado e saqueado sem nada em troca. Falamos de território. Quando morremos, é para este território que retornamos.” Para a líder quilombola, o território não é um bem negociável, mas um bem comum e coletivo, o lugar onde a vida, a memória e o futuro se entrelaçam. “É onde cuidamos da natureza, onde pisamos, onde construímos nossas casas, nossas famílias, nosso modo de vida”, acrescenta.
Por isso, ela considera especialmente grave que essa ligação seja paga com ameaças e morte. Entre 2019 e 2024, o relatório ” Vidas Interrompidas” documenta 46 assassinatos registrados de defensores de direitos humanos de comunidades quilombolas. “Temos que nos perguntar por que precisamos morrer para defender o que é nosso. As pessoas são assassinadas como se fossem descartáveis, como se suas vidas não importassem. E as vidas quilombolas importam”, afirma ela.
Um dia, diz ela, o Brasil terá que parar de tratá-los apenas como índices e estatísticas e começar a vê-los como seres humanos “que têm filhas, filhos, netas, netos, que deixam toda uma comunidade órfã”.
“Há mulheres atuantes em todos os estados e em espaços internacionais na América Latina e no Caribe, onde ocorrem lutas negras.”
Como figura de proa do Coletivo de Mulheres CONAQ, Dealdina argumenta que é impossível contar a história dos quilombos ou discutir a titulação de terras sem colocar as mulheres no centro. “Nossos corpos são corpos políticos; eles falam de nós e por nós. Há mulheres atuantes em todos os países e em espaços internacionais da América Latina e do Caribe onde convergem as lutas negras”, explica.
Por fim, a ativista destaca o paradoxo do Brasil, um país onde a população negra é majoritária, mas está quase totalmente sub-representada no Senado ou na Câmara dos Deputados. “A luta das mulheres quilombolas não é apenas uma luta de mulheres. É uma luta de toda a sociedade, que entende que o patriarcado e o sexismo devem ser combatidos para que outros paradigmas e valores possam emergir”, acrescenta.
Fonte: El País
Foto de capa: Pedro Garcês
Texto por Comunicação CONAQ, publicado às 16:23:34
Categoria: Mulheres Quilombolas