Notícias

31 de maio de 2026

CONAQ 30 anos: jovens mulheres quilombolas levam adiante o legado da resistência

Do ativismo político à defesa territorial, as novas líderes solidificam a continuidade da luta e ampliam os caminhos pavimentados por suas antecessoras.

Em três décadas, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) tornou-se a principal entidade na defesa dos direitos quilombolas no Brasil. Mulheres que enfrentaram racismo, conflitos fundiários, invisibilidade política e todas as formas de violência que historicamente visam territórios tradicionais fizeram e fazem parte dessa jornada. 

Antes mesmo de atingir essa data marcante, a organização sempre soube que os jovens são a continuação. E as líderes mulheres não estão de fora. Atualmente, as jovens ocupam esferas estratégicas de comunicação, articulação comunitária, processos de defesa política e defesa de direitos coletivos. Estes são os ensinamentos de mães a uma geração que mantêm suas próprias tradições enquanto, ao mesmo tempo, introduzem novas ferramentas de mobilização para fortalecer a organização. Mais do que sucessoras de um curso histórico, elas simbolizam a trajetória renovada de uma busca coletiva que ainda abre novos horizontes para os quilombos brasileiros.  

Ancestralidade como ponto de partida

Do norte ao sul do país, novas líderes estão trabalhando para preservar a memória, fortalecer identificações e ecoar as lições aprendidas através do patrimônio compartilhado com gerações de seus descendentes. Patrícia Brito, comunicadora, membro do Coletivo de Mulheres da CONAQ e coordenadora do Coletivo de Juventude do Quilombo Tamboril em Condeúba (BA), acredita que a nova geração trabalha a partir da premissa da importância histórica. 

“Ser jovem mulher quilombola hoje é antes de tudo entender a responsabilidade dessa continuidade, saber que existe muita luta e suor antes de nós,e que devemos honrar muito essas histórias, que devemos olhar para nossas matriarcas com respeito e carinho, e com esse olhar mais atento e sensível também cuidar delas que tanto cuidam do nosso território, que por diversas vezes estavam na linha de frente mas também maternando e protegendo o quilombo”. 

Além disso, para a baiana, compreender o presente faz parte do processo para entender como transmitir todo conhecimento adquirido. “Eu vejo a nossa juventude além de continuidade, como ponte, para transmitir esses saberes e não deixar que essa história seja apagada, e com isso a gente traz para dentro do quilombo as tecnologias e mídias sociais como forma de preservar essas memórias. Além disso, podemos ser tradutores. Hoje temos mais facilidade em ocupar espaços burocráticos e podemos traduzir isso para os nossos mais velhos que não tiveram oportunidade, mostrando para eles que podemos fortalecer e proteger nosso território”. 

Sua fala trata-se de um lembrete de onde a memória ainda existe como bússola da organização quilombola. Além de preservar histórias, as novas gerações agora ajudam a direcionar os rumos das lutas do coletivo. Enquanto as mais velhas usavam seu conhecimento para liderar os quilombos através da resistência comunitária no dia a dia, as novas líderes começaram um novo conjunto de armas para ampliar a defesa. 

Protagonismo se expande em espaços de formação

Novas lideranças também exigem momentos para compartilhar experiências, aprendizados e fazer progressos políticos. Um passo importante para aumentar a participação dos jovens na tomada de decisões e fortalecer seu papel no movimento é o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas da CONAQ. Para Patrícia, o evento que está prestes a acontecer é um lugar para fazer mais do que debater. 

“Para nós jovens quilombolas é mais que um empoderamento, é uma quebra de barreiras. Por ser mulher e ser jovem ainda existe muito estereótipos de que “jovem e mulher não sabe de nada”, e o encontro vem, nos colocando as lado das nossas matriarcas, nós dando espaço, voz, para aprender mas também para ensinar e agregar a nossa visão e domínios de hoje com a sabedoria ancestral delas.”

Espaços de confluência como o que acontecerá em junho fazem a comunicadora de 26 anos enfatizar a crença de seus iguais na próxima geração. “Momentos como esses (lll Encontro) vão nos fortalecer e nos dar mais combustível para que ao retornar para nós nossos quilombo eles sintam confiança no nosso potencial para essa continuidade”.

Entre o legado dos ancestrais e os desafios do amanhã 

A participação dos jovens é crucial para a organização e força do movimento. De acordo com Micele Silva do Quilombo Igarapé – Preto no Pará e também membro do Coletivo de Mulheres da CONAQ, o futuro da organização não pode ser concebido sem o envolvimento ativo das novas gerações. 

“A presença da juventude é essencial para a completude do nosso povo, não podemos deixar ninguém de fora quando pensamos na potência da nossa organização! Essas mesmas mulheres têm o poder de fazer link entre a geração que está deixando um legado e um futuro que já está sendo construído”. 

O raciocínio da paraense de 28 anos enfatiza  a importância de estar conectado às gerações anteriores, ao mesmo tempo em que enfrenta os desafios contemporâneos relevantes para a era. As posições das jovens mulheres na tomada de decisões, comunicação e representação política estão permitindo que as agendas quilombolas continuem avançando, mas de uma forma que não perca de vista a sabedoria das mais velhas. 

Conquistas que despertam interesse nas próximas décadas

Ao vislumbrar o futuro, a juventude ainda tem como prioridade futura uma meta do presente: a garantia dos direitos territoriais. Na avaliação de Micele, uma das principais expectativas para os próximos anos é avançar no processo de titulação das comunidades quilombolas.

“Primeiramente, espero ver o máximo de territórios titulados. Também precisamos de políticas que garantam a segurança das nossas lideranças, porque as mulheres têm sofrido diretamente com a violência relacionada às disputas pela terra.”

Ela também reforça a importância de valorizar os ensinamentos transmitidos pelas gerações anteriores. “Que sejamos ouvidas e que seja reconhecida a importância dos ensinamentos que nossas mais velhas deixaram para cuidar do clima, do meio ambiente e de todos os seres que compõem os biomas.”

As reivindicações demonstram que os desafios para os próximos anos passam pela garantia de direitos históricos, pela proteção das lideranças e pelo reconhecimento dos conhecimentos construídos pelas comunidades ao longo das gerações.

Brasília reunirá vozes de diferentes gerações 

O III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas acontecerá de 10 a 14 de junho, no qual participarão líderes de todo o país, incluindo representantes da América Latina e do Caribe, organizações da sociedade civil, organizações internacionais e autoridades públicas. Ele estimulará debates sobre direitos humanos, justiça racial, combate ao racismo ambiental, defesa das terras tradicionais e reforço da organização política das mulheres quilombolas. 

Próxima década em construção 

Trinta anos após o início da estrutura nacional do movimento, uma nova geração é responsável por expandir esse legado. Do espaço das redes sociais ao palco das reuniões comunitárias, dos encontros em nível nacional a esses espaços de expressão política, as jovens mulheres ainda estão construindo conexões entre memória e futuro, tradição e inovação, resistência e transformação. 

Elas mostram que, ao fortalecer suas próprias narrativas, aumentar sua participação nos processos de tomada de decisão e defender direitos históricos, a luta não é apenas a responsabilidade herdada das mulheres, mas uma escolha diária na proteção da vida, dignidade e terras quilombolas. O futuro da CONAQ já está sendo construído. E ele tem, cada vez mais, a força, a voz e o protagonismo das quilombolas.