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16 de junho de 2026

Saberes ancestrais impulsionam renda, autonomia e fortalecimento dos quilombos no III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas

Quitungo Arlindo Brito reuniu lideranças, agentes territoriais e instituições parceiras para debater sociobioeconomia, agricultura quilombola e estratégias de fortalecimento econômico construídas a partir dos conhecimentos tradicionais.

A força das mulheres quilombolas também se expressa nos roçados, nas casas de farinha, na pesca artesanal, no extrativismo, no artesanato e nas diversas formas de organização comunitária que garantem sustento, preservam culturas e mantêm vivos conhecimentos transmitidos de geração em geração.

Foi a partir dessa compreensão que o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas da CONAQ promoveu o Quitungo Arlindo Brito – Saberes ancestrais: produção, renda e autonomia na bioeconomia e agricultura quilombola. O espaço reuniu cerca de 30 representantes de comunidades de diferentes regiões do país, além de integrantes da CONAQ, agentes territoriais, representantes governamentais e instituições parceiras para refletir sobre os caminhos da autonomia econômica das mulheres negras do campo.

Coordenado por Alba Nascimento e Laura Ferreira, o quitungo contou com a parceria do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), do Instituto Federal de Goiás (IFG), da Universidade Federal de Goiás (UFG) e do Ministério das Mulheres. A relatoria foi conduzida por Alessandra Rangel.

Ao longo da atividade, as participantes compartilharam experiências de trabalho, resistência e organização coletiva, evidenciando que a bioeconomia quilombola não se limita à geração de renda. Trata-se de uma relação profunda entre ancestralidade, proteção ambiental, soberania alimentar e permanência nos territórios.

Atlas da Sociobioeconomia fortalece visibilidade das experiências quilombolas

Foto: Thaís Rodrigues/CONAQ

As discussões dialogaram diretamente com a construção do Atlas da Sociobioeconomia Quilombola, iniciativa que vem sistematizando informações sobre as atividades econômicas desenvolvidas nos quilombos brasileiros e valorizando experiências construídas pelas próprias comunidades.

Nesse processo, a atuação das agentes territoriais tem sido fundamental. Presentes no encontro, elas contribuíram para ampliar o debate sobre os desafios e potencialidades das cadeias produtivas quilombolas, compartilhando vivências acumuladas durante o trabalho de mapeamento realizado em diferentes estados.

O espaço permitiu compreender a diversidade de iniciativas existentes nos quilombos, desde a agricultura familiar até a produção de farinha, mel, biojoias, plantas medicinais, pesca artesanal, artesanato e sistemas agroflorestais.

Conhecimentos tradicionais que geram sustento e preservam a vida

Foto: Thaís Rodrigue/CONAQ

 

Os relatos apresentados durante o quitungo revelaram a riqueza das experiências construídas pelas comunidades e, ao mesmo tempo, os inúmeros obstáculos enfrentados para garantir melhores condições de trabalho e comercialização.

Alba Nascimento compartilhou a experiência de seu território, onde são cultivados café, pimenta-do-reino, urucum e açafrão. Apesar dos avanços conquistados por meio de parcerias institucionais, ela destacou que ainda existe uma grande desvalorização dos conhecimentos produzidos pelas próprias comunidades.

“Muitas vezes o conhecimento que vem de fora é mais valorizado do que aquilo que construímos dentro dos nossos quilombos. Precisamos reconhecer a importância dos nossos saberes e das nossas formas de produzir.”

A fala encontrou eco em diversos depoimentos apresentados ao longo do debate. Do Ceará, Maria Nilzete Rodrigues da Silva relatou as dificuldades enfrentadas por produtoras de farinha e goma para acessar mercados e obter preços justos pelos produtos. Já representantes do Maranhão, Pará, Amazonas, Amapá, Minas Gerais e Piauí apontaram problemas relacionados à logística, aos custos de transporte, à dependência de atravessadores e às dificuldades para acessar políticas públicas.

O protagonismo das mulheres na economia dos quilombos

Foto: Thaís Rodrigues/CONAQ

As discussões evidenciaram o papel central das mulheres na organização econômica das comunidades. São elas que cultivam alimentos, preservam sementes, manejam recursos naturais, coordenam associações, comercializam produtos e mantêm vivas práticas tradicionais que fortalecem a identidade coletiva.

Uma das participantes do Amapá chamou atenção para a sobrecarga enfrentada pelas mulheres, que acumulam responsabilidades produtivas, domésticas e comunitárias. “As mulheres estão em todos os espaços: na roça, na associação, na família e na luta pelo território. É uma responsabilidade enorme que precisa ser reconhecida.”

Experiências compartilhadas por representantes do Pará mostraram o potencial de iniciativas ligadas ao açaí, tucumã, mel, hortos medicinais e biojoias. No entanto, a ausência de investimentos públicos e a dificuldade de inserção em mercados continuam limitando a ampliação dessas atividades.

No Piauí, participantes relataram como a escassez de água levou muitas famílias a diversificarem suas fontes de renda por meio da gastronomia, da costura, do crochê e da participação em feiras locais.

Justiça climática e acesso à água também entraram no centro do debate

Foto: Thaís Rodrigues/CONAQ

As mudanças climáticas apareceram como uma preocupação comum entre as representantes de diferentes regiões. Secas prolongadas, contaminação de rios, degradação ambiental e perda de produtividade foram apontadas como fatores que afetam diretamente o cotidiano das comunidades.

Mulheres de Minas Gerais denunciaram a falta de acesso à água tratada e os impactos da poluição sobre cursos d’água historicamente utilizados pelos quilombos. Já participantes da Bahia relataram prejuízos causados pela poluição industrial em manguezais e rios, comprometendo a pesca artesanal e reduzindo a renda de pescadoras e marisqueiras.

As participantes defenderam que qualquer estratégia de desenvolvimento para os quilombos precisa considerar a preservação ambiental e o enfrentamento das injustiças climáticas que atingem desproporcionalmente as populações tradicionais.

Sem território garantido não há autonomia econômica

Foto: Thaís Rodrigues/CONAQ

A regularização fundiária também apareceu como uma demanda transversal ao longo de todo o debate. As participantes destacaram que a insegurança territorial compromete o acesso ao crédito, dificulta investimentos e fragiliza as iniciativas econômicas desenvolvidas pelas comunidades.

A avaliação compartilhada pelas lideranças foi de que fortalecer as atividades produtivas exige, necessariamente, avançar na titulação dos territórios quilombolas e garantir condições para que as famílias permaneçam em seus espaços de pertencimento.

Propostas construídas pelas próprias mulheres

Foto: Thaís Rodrigues/CONAQ

Ao final das discussões, Laura Ferreira sistematizou os principais desafios apontados pelas participantes, entre eles a insuficiência de políticas públicas específicas, a burocracia para acessar programas governamentais, a falta de investimentos diretos, as dificuldades logísticas, os impactos climáticos e a invisibilização dos conhecimentos tradicionais.

Para a coordenadora, as discussões demonstraram que as respostas para muitos desses desafios já existem dentro dos próprios quilombos. “Quando falamos de bioeconomia quilombola, estamos falando de vidas, de memória, de permanência nos nossos territórios e de autonomia para as mulheres. O que ouvimos aqui demonstra que existe um enorme potencial construído pelas comunidades, mas também barreiras históricas que ainda impedem que esse trabalho seja plenamente reconhecido e fortalecido pelas políticas públicas.”

Entre os encaminhamentos aprovados estiveram a ampliação do acesso ao crédito, assistência técnica continuada, fortalecimento das associações comunitárias, valorização dos produtos quilombolas, simplificação dos editais e criação de mecanismos que garantam maior acesso aos mercados institucionais.

As participantes também defenderam a criação de um Programa Nacional de Fomento à Produção e Comercialização das Mulheres Quilombolas e de um Plano Nacional de Fortalecimento da Bioeconomia e dos Saberes Ancestrais das Mulheres Quilombolas.

Produzir também é defender o território

Foto: Thaís Rodrigues/CONAQ

O Quitungo Arlindo Brito reafirmou que as iniciativas econômicas desenvolvidas pelas mulheres quilombolas não podem ser dissociadas da luta pelo território, pela preservação dos biomas e pela continuidade dos conhecimentos herdados das ancestrais.

Ao reunir lideranças de todas as regiões do país, agentes territoriais do Atlas da Sociobioeconomia e representantes de instituições parceiras, o espaço demonstrou que os quilombos seguem construindo soluções sustentáveis, baseadas na coletividade, no cuidado e na relação equilibrada com a natureza.

Como destacou Laura Ferreira, fortalecer essas experiências significa investir em um modelo de desenvolvimento que já existe e produz resultados concretos para milhares de famílias.

“As mulheres quilombolas já produzem soluções para seus territórios. O que precisamos é de investimento, acesso a direitos e reconhecimento. Fortalecer a bioeconomia quilombola significa fortalecer a proteção ambiental, a soberania alimentar e a continuidade dos conhecimentos que herdamos de nossas ancestrais.”

Mais do que uma pauta econômica, o debate mostrou que valorizar os conhecimentos tradicionais é reconhecer a contribuição histórica dos quilombos para a construção de um futuro mais justo, sustentável e comprometido com a vida.