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8 de junho de 2026

Romaria Quilombola revive memória da liberdade e fortalece mobilização coletiva na Bahia

Seminário da Alforria celebrou três décadas da CONAQ reunindo comunidades para debater direitos, cultura, educação e participação social

A 10ª Romaria Quilombola e o Seminário da Alforria reuniram comunidades de diferentes territórios em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, entre os dias 5 e 7 de junho, em uma programação marcada pela valorização da ancestralidade, reflexão política e celebração dos 30 anos da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).

O encontro teve como tema “Reafirmar a Luta, Celebrar as Conquistas” e promoveu debates sobre políticas públicas, educação escolar quilombola, garantia de direitos e fortalecimento organizativo dos territórios tradicionais.

Herança de resistência atravessa gerações

Foto: Matheus Vaz

 

O evento resgata uma trajetória histórica iniciada em 1888, quando pessoas negras recém-libertas organizaram uma peregrinação até a Gruta do Senhor Bom Jesus da Lapa para celebrar o fim legal da escravidão. Conhecido como Encontro da Alforria ou Romaria dos Pretos, o momento tornou-se símbolo da busca por dignidade, autonomia e reconhecimento.

Inspirada por esse legado, a CONAQ retomou a iniciativa em 2009, ampliando o caráter político e cultural da mobilização. Desde então, a romaria consolidou-se como espaço de articulação entre comunidades quilombolas, fortalecendo a identidade coletiva e a luta pela efetivação de direitos.

Foto: Matheus Vaz

 

Para Florisvaldo Rodrigues, coordenador executivo da CONAQ (BA), a Romaria segue cumprindo um papel fundamental de manter viva a memória histórica da população quilombola e fortalecer a organização política dos territórios.

“Nos dias 5 e 6 de junho realizamos a nossa 10ª Romaria Quilombola e o Seminário da Alforria. Foi um momento muito forte, importante, de diálogo, fortalecimento e construção de propostas que possam fortalecer a nossa caminhada. A reflexão principal parte daquele registro histórico de 1888, quando nossos irmãos e irmãs vieram a Bom Jesus da Lapa agradecer pela liberdade após a assinatura da Lei Áurea. Mas sabemos que essa liberdade sonhada pelos nossos antepassados ainda não se concretizou plenamente. Por isso, a Romaria continua sendo um espaço de reflexão, denúncia e reafirmação da luta quilombola”, destacou.

Segundo ele, a celebração dos 30 anos da CONAQ trouxe ainda mais significado para o encontro realizado justamente no território onde nasceu a articulação nacional do movimento quilombola.

“A CONAQ nasce aqui na Bahia, é criada em Bom Jesus da Lapa. Foi um momento muito forte de reflexão sobre o caminho que construímos até aqui e sobre as possibilidades que se abrem a partir da nossa organização coletiva. O movimento nasce, cresce, as políticas avançam e a gente continua insistindo porque sabemos que é possível garantir os direitos dos territórios quilombolas”, afirmou.

Debates e construção de caminhos

Foto: Matheus Vaz

 

A programação contou com mesas de análise sobre a implementação de políticas voltadas às populações quilombolas, discussões sobre responsabilidades dos entes públicos e reflexões sobre o papel da educação como instrumento de transformação social.

Outro destaque foi a caminhada até a Esplanada do Bom Jesus, acompanhada pelo toque do sino e por celebrações na Gruta da Soledade, refazendo simbolicamente os passos dos ancestrais que protagonizaram a histórica Romaria dos Pretos.

Para José Ramos, coordenador nacional da CONAQ (BA), a programação fortaleceu os laços entre as lideranças e resultou em importantes encaminhamentos para o movimento quilombola.

“Vivemos um momento de confraternização pelos 30 anos da CONAQ, com falas muito importantes e reuniões com lideranças dos territórios presentes. A partir desses encontros, saímos com encaminhamentos importantes e também realizamos a posse da nova coordenação do CEAQ. No sábado, tivemos a missa solene da 10ª Romaria Quilombola, seguida de uma caminhada até a gruta e um momento celebrativo que reforçou a fé e a luta do nosso povo. Foi uma atividade muito boa e muitíssimo importante”, destacou.

Cultura, identidade e futuro

Foto: Matheus Vaz

 

As atividades também abriram espaço para apresentações culturais, compartilhamento de experiências dos territórios e exposição de artesanato e produtos quilombolas. A feira temática “Da Romaria dos Pretos à Romaria Quilombola” destacou a riqueza cultural e econômica das comunidades participantes.

Ao celebrar os 30 anos da CONAQ, o evento reafirmou a continuidade de uma trajetória construída por gerações de lideranças quilombolas que transformaram a memória em organização política, fortalecendo a defesa dos territórios, da cultura e dos direitos dos povos quilombolas em todo o Brasil.