11 de junho de 2026
Mulheres quilombolas lançam diagnóstico climático e reivindicam protagonismo na construção de soluções
Publicação “Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima” reúne experiências, saberes e estratégias construídas nos territórios para enfrentar os impactos da crise climática.
O III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas da CONAQ foi palco do lançamento do diagnóstico “Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima”, publicação construída a partir das vivências, análises e propostas de mulheres quilombolas de diferentes regiões do país. O documento apresenta reflexões sobre os impactos das mudanças climáticas nos territórios e destaca caminhos construídos pelas próprias comunidades para proteger a vida, a natureza e os modos tradicionais de existência.
O lançamento reuniu lideranças quilombolas, representantes de organizações parceiras, financiadores e integrantes do governo federal, em um momento marcado pela valorização da produção de conhecimento feita pelas próprias mulheres dos territórios.
Durante a atividade, a coordenadora nacional do Coletivo de Mulheres Quilombolas da CONAQ, Micele, destacou que a publicação nasce de um amplo processo formativo voltado à justiça climática e ao fortalecimento da participação das mulheres nos debates ambientais.
“O espaço é de importância para retomar as próprias narrativas. O que torna o livro especial é que foi feito por mãos de mulheres quilombolas. As narrativas precisam ser construídas e emanadas por elas”, afirmou.
Segundo ela, o processo permitiu ouvir mulheres de todas as regiões do Brasil, garantindo que diferentes experiências territoriais fossem contempladas no diagnóstico.
Da denúncia à construção de alternativas

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
A publicação não se limita a registrar os impactos da crise climática. O material evidencia práticas ancestrais de cuidado, preservação ambiental e convivência sustentável desenvolvidas pelas comunidades quilombolas ao longo de gerações.
Fran Paula, uma das articuladoras da iniciativa, ressaltou que o trabalho representa uma disputa por narrativas e pelo reconhecimento da produção intelectual quilombola.
“Não é só sobre impacto. É sobre disputa de conhecimento, da ciência e de quem pode falar deles e sobre eles”, destacou.
Ela explicou que o objetivo foi apresentar não apenas os desafios enfrentados pelas comunidades, mas também as estratégias de proteção dos territórios e de cuidado com a natureza, frequentemente invisibilizadas nos debates climáticos.
Contra o racismo ambiental e o silenciamento

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
As lideranças presentes enfatizaram que a exclusão das vozes quilombolas dos espaços de decisão também constitui uma forma de racismo ambiental. O diagnóstico surge justamente para enfrentar essa invisibilidade e fortalecer a incidência política das comunidades tradicionais.
Durante o lançamento, foi ressaltado que mulheres quilombolas costumam ser retratadas apenas como vítimas dos impactos ambientais, enquanto seus conhecimentos e contribuições para a preservação dos biomas permanecem pouco reconhecidos.
“O silenciamento das vozes quilombolas é também uma forma de racismo ambiental”, foi uma das reflexões compartilhadas durante a atividade.
As participantes defenderam que o Estado brasileiro incorpore os saberes dos territórios na formulação das políticas ambientais e climáticas.
Investimento na autonomia e na produção de saberes

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
Representantes de organizações parceiras reforçaram a importância de apoiar iniciativas lideradas pelas próprias comunidades. Durante o evento, entidades financiadoras destacaram que investir na produção de conhecimento quilombola significa fortalecer a autonomia dos territórios e ampliar sua capacidade de incidência política.
Representando o Fundo Casa, Cris ressaltou que o objetivo das parcerias é garantir que os recursos cheguem diretamente às comunidades. “Fazer o fundo chegar e fazer com que as comunidades possam gerir seus projetos, feitos por elas a partir das necessidades delas”, afirmou.
A atividade também contou com manifestações de apoio do Ministério das Mulheres, do Instituto Federal de Goiás (IFG), do Fundo Baobá, da Tenure Facility e de outras organizações que vêm apoiando processos de formação e fortalecimento das mulheres quilombolas.
Mulheres quilombolas no centro da agenda climática
Ao encerrar a mesa, representantes das instituições parceiras e das organizações quilombolas reforçaram que a crise climática afeta de forma desigual diferentes populações e que as mulheres quilombolas estão entre aquelas que enfrentam os impactos mais severos, ao mesmo tempo em que desenvolvem soluções concretas para proteger seus territórios.
Para as participantes, o diagnóstico “Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima” representa mais do que uma publicação. O documento torna visíveis experiências historicamente ignoradas, fortalece a incidência política das comunidades e reafirma que não haverá justiça climática sem o reconhecimento dos saberes, dos direitos e do protagonismo das mulheres quilombolas.
“Se as mulheres quilombolas têm nas mãos as soluções, o Estado precisa ouvir, analisar e avaliar suas contribuições para as políticas ambientais”, defenderam as organizadoras durante o lançamento.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 23:12:25
Categoria: Mulheres Quilombolas