27 de abril de 2026
Mulheres quilombolas impulsionam fundos comunitários e impulsionam economias nos territórios
Gestão protagonizada por lideranças amplia acesso a recursos, autonomia coletiva e estratégias de desenvolvimento.
Histórias marcadas por resistência, organização e cuidado coletivo vêm ganhando novos contornos no cenário brasileiro. Em diferentes regiões, mulheres quilombolas assumem a condução de fundos e iniciativas que impactam diretamente a vida em seus territórios, criando caminhos próprios de fortalecimento econômico, social e político.
Essa presença nos espaços de decisão não é recente, mas agora se consolida com mais visibilidade e poder de incidência. O que antes era resistência cotidiana, hoje também se traduz em gestão de recursos, definição de prioridades e construção de alternativas ao abandono histórico.
Trajetória que se transforma em liderança estratégica

Foto: Pedro Garcês
Com mais de duas décadas de atuação, Selma Dealdina Mbaye, articuladora política da CONAQ e presidenta do Conselho Deliberativo do Fundo Casa Socioambiental – cargo que assumiu em março deste ano – carrega uma caminhada construída em diferentes frentes do movimento.
Para ela, chegar à presidência da instituição representa um marco coletivo: “Esses povos agora também traçam outro caminho, que é o caminho de estar num espaço de poder de decisão, de poder inserir mais recursos para essas lutas.”
Sua fala evidencia uma mudança profunda: comunidades historicamente tratadas como objeto de estudo passam a ocupar o centro das decisões, influenciando diretamente onde e como os recursos são aplicados. A atuação dos fundos comunitários rompe com a lógica tradicional de financiamento. Mais do que apoiar iniciativas pontuais, esses mecanismos se tornam ferramentas de transformação estrutural.
Segundo Selma, os impactos são sentidos no cotidiano: “Esses editais chegam em locais que a política pública às vezes abandona e mudam toda a estrutura de uma comunidade.”
Seja na produção de alimentos, no acesso à água, na organização social ou em ações formativas, os investimentos fortalecem a capacidade de autogestão e reduzem a dependência de estruturas externas.
Olhar coletivo que multiplica resultados
A condução feminina imprime outra lógica à administração dos recursos. Com sensibilidade e visão ampliada, essas lideranças priorizam o bem comum e o futuro das comunidades. “As mulheres multiplicam conhecimento, multiplicam saber, multiplicam recursos e pensam em todo o contexto de um território. ”Esse modo de agir amplia os impactos, garantindo que diferentes grupos, jovens, idosos, educadores e famílias, sejam contemplados pelas ações.
A força da articulação entre mulheres

Foto: Pedro Garcês
No Fundo Mokambo, presidido por Xifroneze Santos, coordenadora executiva da CONAQ, a construção nasce da necessidade de enfrentar a ausência do Estado e criar soluções próprias. A estratégia passa pela união e pela troca de experiências: “Percebemos a necessidade de nos juntarmos na busca de parceiros no intuito do fortalecimento das nossas bases.”
Esse movimento fortalece redes locais e amplia as possibilidades de captação de recursos, garantindo maior sustentabilidade às iniciativas comunitárias.
Resultados que transformam realidades locais
Os efeitos dessa gestão já são visíveis em diversos territórios. A criação de espaços de apoio, o fortalecimento de organizações e o aumento da participação feminina indicam mudanças concretas. “Já conseguimos estruturar um espaço onde podemos apoiar outras organizações dando dignidade de participação.” Além disso, esses processos estimulam o surgimento de novas lideranças e fortalecem a confiança coletiva.
Aprendizados que sustentam o futuro
As experiências acumuladas pelas gestoras quilombolas revelam ensinamentos que vão além da administração de recursos. Persistência, confiança e compromisso coletivo aparecem como pilares centrais. “Nunca podemos retroceder, é possível conquistar, basta acreditar e lutar.”
Ao mesmo tempo, a defesa por acesso, dignidade e soberania segue como horizonte permanente, orientando cada ação desenvolvida.
Economia que nasce do território

Foto: Pedro Garcês
Outro exemplo potente vem da atuação de Cida Sousa, coordenadora nacional da CONAQ e presidenta da Cooperativa Central do Cerrado. Sua trajetória começa ainda na infância, acompanhando a mãe, uma das fundadoras da organização.
Esse percurso a transformou em liderança em um espaço estratégico de comercialização: “Me tornei presidente da Central sendo uma mulher quilombola, jovem, ocupando esse lugar de decisão de um lugar muito referenciado para mim. Minha mãe, dona Maria do Carmo, foi uma das fundadoras, ela estava lá há 20 anos atrás, nesse processo e aí, eu começo a acompanhar, de alguma forma e diretamente, juntamente com ela.
A cooperativa conecta comunidades a mercados nacionais e internacionais, levando produtos da sociobiodiversidade para diversos países.
Da sociobiodiversidade ao mercado global
A Central do Cerrado demonstra que economia e território caminham juntos. Produtos como pequi, baru e capim-dourado ganham o mundo, fortalecendo cadeias produtivas e garantindo renda para comunidades tradicionais. “A gente tem levado os nossos produtos para diversos lugares do país e também para fora do Brasil. ”Além da comercialização, a cooperativa também promove debates sobre gênero e identidade, reconhecendo quem está por trás da produção.
Desafios e disputas em espaços historicamente excludentes
Apesar dos avanços, os desafios permanecem. O ambiente institucional ainda carrega desigualdades, especialmente para mulheres jovens e negras. Cida ressalta por fim a importância de ocupar esses espaços: “É um desafio estar nesse lugar enquanto mulher quilombola, mas a gente dá conta de gerenciar.”
A presença feminina nesses ambientes rompe padrões e amplia possibilidades para as próximas gerações. O avanço dessas iniciativas aponta para uma transformação mais ampla: a construção de modelos baseados na autonomia, no conhecimento ancestral e na coletividade.
Ao assumir a gestão de fundos e projetos, as mulheres quilombolas não apenas ampliam oportunidades, mas também redesenham o futuro de seus territórios, mostrando que desenvolvimento só faz sentido quando nasce de dentro, respeita as raízes e fortalece quem sempre sustentou essas histórias.
Texto por Thais Rodrigues, publicado às 11:31:31
Categoria: Mulheres Quilombolas