Notícias

20 de março de 2026

2° Encontro de Formação Climática da CONAQ aborda transição energética

Quem se beneficia desse processo e quem assume seus impactos?

A aula 2 do curso “Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima”, promovido pela Secretaria/Coletivo de Mulheres da CONAQ, ministrada no último sábado (14), na plataforma Google Meet, aprofundou o debate sobre os impactos da chamada transição energética nos territórios quilombolas, reunindo mulheres de diversas regiões do país em um espaço de troca e formação coletiva.

Dando continuidade às reflexões da primeira aula que abordou os impactos do agronegócio e de grandes empreendimentos, o encontro destacou que os conflitos socioambientais vividos nos territórios fazem parte de um mesmo modelo de desenvolvimento, baseado na exploração intensiva da natureza e na reorganização dos territórios para atender interesses econômicos. Nesse contexto, a água, o acesso à terra e a garantia dos modos de vida tradicionais seguem como elementos centrais da luta por justiça climática.

O tema principal em discussão, foi a transição energética, trazendo questionamentos fundamentais: quem se beneficia desse processo e quem assume seus impactos? A partir dessa provocação, foram apresentados dois estudos de caso que evidenciam como diferentes matrizes energéticas, tanto fósseis quanto renováveis, têm gerado violações de direitos em comunidades quilombolas.

O primeiro caso abordou os impactos da cadeia produtiva do petróleo em territórios do Rio de Janeiro, evidenciando problemas como poluição ambiental, perda de áreas tradicionais, especulação imobiliária e precarização das condições de vida, mesmo em regiões que concentram grande geração de riqueza. Já o segundo caso tratou dos impactos dos parques eólicos no Quilombo do Cumbe, no Ceará, onde a instalação de empreendimentos tem provocado restrição de acesso ao território, conflitos internos, violência e alterações profundas nos modos de vida da comunidade.

Apesar das diferenças entre os modelos energéticos, os relatos apontam um padrão comum: a implementação de grandes projetos sem a devida consulta às comunidades, resultando em novos conflitos e desigualdades. As mulheres quilombolas, mais uma vez, aparecem na linha de frente da resistência, organizando a defesa dos territórios, denunciando violações e construindo estratégias coletivas de enfrentamento.

 

Ao longo do encontro, também foram debatidas as contradições entre os discursos institucionais, que apresentam a transição energética como solução para a crise climática e a realidade vivida nos territórios, onde esses projetos frequentemente reproduzem injustiças históricas.

As participantes reforçaram a importância da organização política, da permanência nos territórios e da incidência sobre o Estado, especialmente em um contexto de disputas políticas e formulação de políticas públicas. O espaço formativo foi destacado como fundamental para o fortalecimento das redes entre mulheres quilombolas e para a construção de respostas coletivas.

 

Fran Paula, coordenadora da Formação, provocou as participantes a refletirem sobre as contradições  entre o que está colocado nos documentos oficiais e o que tem sido vivido, na prática, pelas comunidades quilombolas.

 

“Embora o plano fale em equidade energética, muitas dessas comunidades continuam enfrentando dificuldades no acesso à energia e, ao mesmo tempo, lidam com os impactos de grandes empreendimentos instalados em seus territórios ou no entorno. O objetivo não é apenas entender o que está nos documentos, mas também compreender como essas políticas se materializam nos territórios, especialmente quando são apresentadas como soluções para a crise climática, mas acabam produzindo novos conflitos e desigualdades”. Destacou.

 

A formação segue com novos encontros, dando continuidade ao processo de fortalecimento das mulheres quilombolas na defesa de seus territórios, saberes e modos de vida.

Parceiros do projeto: WWF e Fundo CASA