27 de março de 2026
Mulheres quilombolas fortalecem articulação nacional em encontro formativo sobre racismo ambiental e defesa dos territórios
A atividade teve como tema central os impactos do racismo ambiental, mineração e as negligências do Estado.
A terceira e última aula do ciclo de formação online “Vozes Quilombolas: mulheres pelo clima” reuniu mulheres quilombolas de diversas regiões do país em um espaço de formação, escuta e articulação política, marcado pelo acolhimento, pela partilha de experiências e pelo fortalecimento de vínculos entre lideranças. Realizado em formato virtual, o momento integrou um processo formativo que debateu os impactos de grandes empreendimentos nos territórios, com foco na relação entre Estado, racismo ambiental e violações de direitos.
A abertura foi conduzida por Micele, que destacou a importância do percurso construído coletivamente e reforçou que, mesmo diante da distância, o espaço tem sido fundamental para troca de saberes e fortalecimento político das participantes. A atividade teve como tema central “Quando o impacto vira política: racismo ambiental, mineração e Estado”, aprofundando o debate sobre como políticas públicas e interesses econômicos incidem diretamente sobre os territórios quilombolas.
Como parte da metodologia, foi exibido um vídeo sobre o território de Andrequicé (MG), seguido do relato de Gilmara Tiju. Em sua fala, a liderança trouxe um panorama das ameaças enfrentadas pela comunidade, como a pressão da mineração, o avanço do agronegócio, a presença de monoculturas e a ausência de titulação definitiva do território. Também denunciou situações de intimidação, insegurança e negligência do poder público, evidenciando a vulnerabilidade das comunidades frente a interesses externos.
As trocas entre as participantes revelaram que esses desafios não são isolados. Lideranças de diferentes estados compartilharam realidades semelhantes, marcadas por conflitos territoriais, falta de acesso a políticas públicas, dificuldades estruturais e ameaças constantes. Também foram destacadas as divisões internas geradas pela chegada de empreendimentos, que muitas vezes prometem desenvolvimento, mas resultam em impactos sociais, ambientais e culturais negativos.
O debate também evidenciou a importância da organização política, da incidência nos processos eleitorais e da construção de estratégias coletivas para enfrentar as violações de direitos. A comunicação apareceu como ferramenta central na defesa dos territórios, tanto para denúncia quanto para valorização dos modos de vida quilombolas, fortalecendo narrativas próprias frente aos discursos que deslegitimam essas comunidades.
Ao longo do encontro, foi reforçado que o racismo ambiental se manifesta de forma estrutural, especialmente na negação de direitos como a titulação dos territórios, e na implementação de políticas que desconsideram a existência e a autonomia dos povos quilombolas. Nesse contexto, as participantes destacaram a necessidade de ampliar a articulação nacional e fortalecer redes de apoio entre comunidades.
O encerramento foi marcado por reflexões sobre a continuidade do processo formativo e a importância de manter os espaços de diálogo e mobilização. Inspiradas no conceito de “paz quilombola”, de Beatriz Nascimento, as participantes reafirmaram que a luta por território, direitos e bem viver segue sendo coletiva, construída a partir da resistência, da ancestralidade e da organização política das mulheres quilombolas.
Texto por Regimara Santos/ CONAQ, publicado às 14:51:14
Categoria: Lutas Quilombolas