22 de maio de 2026
CONAQ 30 anos: Juventude quilombola transforma ancestralidade em futuro
Da comunicação comunitária aos espaços de decisão internacional, a nova geração fortalece territórios, enfrenta o racismo ambiental e mantém viva a continuidade da luta coletiva.
Trinta anos após sua criação, a CONAQ se consolidou como a principal voz na defesa dos direitos quilombolas no Brasil, articulando comunidades de diferentes regiões do país. Um dos motivos para conseguir tal feito foi o fato da luta ter atravessado gerações e encontrado novos caminhos para o fortalecimento político, cultural e territorial.
Neste mês de maio, quando um novo ciclo dessa trajetória ganha força através da juventude que carrega a memória ancestral dos mais velhos, mas também constrói novas estratégias de resistência diante da emergência climática, das disputas narrativas e da violência contra os povos tradicionais.
Mais do que continuidade, os jovens tornaram-se a linha de frente na defesa dos territórios. São eles que transformam a comunicação em denúncia, a ancestralidade em estratégia política e a presença internacional em ferramenta de influência. Em meio ao avanço do racismo ambiental, da violência fundiária e das ameaças aos modos de vida tradicionais, os jovens quilombolas continuam a reafirmar que não há futuro possível sem território, memória e justiça social.
São eles que ocupam universidades sem abandonar suas raízes. Que produzem conhecimento a partir do quilombo. Que transformam celulares em ferramentas de mobilização. Que fazem do audiovisual, da agroecologia, da pesquisa, da comunicação comunitária e demais profissões armas contra o apagamento histórico imposto. Ao longo dessas três décadas do movimento, eles deixaram de ser vista apenas como “filhos da luta” para se tornarem protagonistas na construção política do presente. Vem entender a potência desse legado. Confira!
Permanecer no território também é um ato de resistência

Foto: a esquerda (Matheus, sua irmã e seus bisavós em seu território na Bahia. A direita (o fotógrafo com seu tio Florisvaldo, coordenador executivo da CONAQ e sua mãe Tomazia no evento da Consciência Negra no Quilombo Rio das Rãs, BA em 2022).
Para milhares de jovens quilombolas, continuar em suas comunidades significa enfrentar diariamente um sistema que tenta expulsá-los de seus próprios territórios. A ausência de escolas, universidades próximas, acesso à internet, oportunidades econômicas e políticas públicas empurra muitos jovens para os centros urbanos, onde frequentemente enfrentam racismo, invisibilidade e negação de identidade.
Segundo José Andrey, coordenador executivo da CONAQ e do coletivo de juventude do movimento, permanecer no território hoje significa enfrentar uma estrutura historicamente construída para negar dignidade às comunidades negras rurais.
“Seguir no quilombo hoje significa resistir à escolha forçada entre o próprio território e o futuro. Como as comunidades geralmente não têm escolas de nível médio ou superior, nem internet de qualidade, o jovem acaba empurrado para as cidades para conseguir estudar, trabalhar ou se comunicar”.
Contudo, após ele detalha que os jovens seguem lutando para transformar os territórios em espaços de possibilidades e não de ausência de direitos.
“Para continuar na terra ancestral com dignidade, a juventude quilombola precisa superar a falta de oportunidades econômicas locais, o racismo institucional e a urgência de renovar a liderança política, lutando para que o território seja um espaço de horizontes, e não de privação”, explica.
Ainda assim, mesmo diante das dificuldades, eles continuam a retornar aos quilombos, fortalecendo associações comunitárias, construindo coletivos, ocupando espaços políticos e reafirmando que permanecer no território também garante a continuidade da ancestralidade.
O raciocínio do coordenador também é embasado pelo pensamento de Matheus Vaz. Para o fotógrafo e comunicador do Quilombo Rio das Rãs em Bom Jesus da Lapa, Bahia, a principal aspiração das novas gerações quilombolas é construir uma vida digna em suas comunidades, sem precisar se afastar de suas origens para acessar oportunidades.
“Pelo que percebo, o maior sonho da maior parte dos jovens quilombolas é permanecer em seus territórios, com qualidade de vida, oportunidades de trabalho, educação de qualidade e acesso ao lazer e à cultura. Queremos ter acesso a esses direitos sem precisar abandonar nossas raízes e, assim, poder contribuir com a luta quilombola na busca de dias melhores para o nosso povo”, afirmou.
Sua reflexão revela um dos grandes desafios enfrentados pelas novas gerações: garantir condições para que as comunidades sejam espaços de realização, conhecimento e perspectivas de futuro. Mais do que assegurar a permanência no lugar onde nasceram, trata-se de criar possibilidades para que meninos e meninas possam estudar, trabalhar, desenvolver seus projetos de vida e fortalecer a organização coletiva sem romper os laços com sua ancestralidade. Dessa forma, seguem contribuindo para a preservação dos saberes tradicionais e para a continuidade da caminhada construída por quem veio antes.
Comunicação quilombola rompe silêncios históricos

Foto: Comunicadores quilombolas durante a cobertura da COP 30 realizada em Belém, no Pará em 2025. Reprodução CONAQ
Por décadas, os quilombos foram retratados sob a ótica errônea da pobreza onde na realidade existe uma gama de riqueza. Além disso, suas histórias eram quase sempre contadas por pessoas de fora dos territórios. Mas a nova geração de comunicadores quilombolas está mudando essa realidade. Hoje, eles produzem conteúdos, registram denúncias, constroem suas próprias narrativas e disputam espaço político nas redes sociais e nos debates públicos.
Mais do que comunicar, essa juventude enfrenta o apagamento histórico imposto às comunidades negras rurais. Para a comunicadora Patricia Brito, do Quilombo Tamboril de Condeúba, na Bahia, narrar a própria história é romper com séculos de silenciamento.
“Produzir nossas próprias narrativas garante que nossa voz, nossas especificidades e nossas necessidades sejam ouvidas e transmitidas corretamente, lutando contra o silenciamento que tentam nos impor”, enfatizou, em seguida, também relatou a importância de mostrar outras dimensões da vida quilombola além das violações.
“Além de poder transmitir coisas boas e felizes além da resistência, já que as notícias geralmente só relatam nossas vulnerabilidades”, concluiu. Eles estão transformando vídeos, fotografias, podcasts e redes sociais em instrumentos de proteção territorial, valorização cultural e denúncia das violações de direitos humanos que os quilombos enfrentam no dia a dia.
Ecoando as lutas para o mundo

Foto: Comunicadora Patrícia Brito em eventos realizados no seu estado. Reprodução: acervo pessoal
Com o agravamento e o aumento da visibilidade internacional das pautas ambientais, quilombolas passaram a marcar presença em conferências globais, fóruns multilaterais e negociações climáticas para denunciar os impactos do racismo ambiental sobre os territórios e reafirmar que não existe justiça climática sem titulação das terras.
Na COP 30, realizada em Belém, essa presença ganhou ainda mais força, com os jovens tornando-se expressão política do presente e não apenas como promessa de futuro. “Estar na conferência foi um marco histórico para a juventude. Foi uma forma de dizer que não somos apenas o futuro, mas também o presente, que estamos preparados para lutar por nossos títulos de terra, preservação do conhecimento e continuidade da vida nos territórios”, diz ela. Na reunião climática, ela também destaca o poder do que passou como uma experiência conjunta. “Foi uma experiência única de conhecimento, criando conexões e aprendendo histórias de tantos lugares diferentes. Isso ressoará por muito tempo”, pontuou a baiana.
Através da ocupação desses espaços, a juventude quilombola também internacionaliza denúncias de violência no campo, destruição ambiental, ausência de políticas públicas e atrasos prolongados na regularização dos territórios. A ancestralidade não é o passado nos quilombos, mas sim um instrumento político, direção comunitária e estratégia de sobrevivência.
Valorização das raízes

Foto: Ana Luiza e Francys Eliza com suas famílias em eventos realizados no quilombo Carrapatos da Tabatinga, Minas Gerais. Acervo pessoal.
Um ótimo exemplo de continuidade são as primas Francys Eliza e Ana Luiza, jovens do Quilombo Carrapatos da Tabatinga em Minas Gerais. Elas foram criadas por uma família repleta de lideranças femininas e representam a geração particularmente enraizada na resistência estabelecida por seus antepassados.
Para Fran, carregar parte da luta de antes significa resistir ao aniquilamento dos próprios direitos conquistados. “A juventude tem um papel fundamental na continuidade das lutas dos seus territórios, porque é ela quem mantém viva a memória, a cultura e os direitos conquistados pelas gerações anteriores”, afirma. Ela reforça, por fim, que seguir lutando também é honrar quem veio antes. “Assumir essa responsabilidade é honrar a ancestralidade e fortalecer a resistência, garantindo que as futuras gerações continuem lutando por igualdade, dignidade e reconhecimento”.
Já Ana Luiza destaca que os jovens vêm criando novas formas de fortalecer a identidade quilombola sem romper com os ensinamentos ancestrais. “Muitos jovens têm ocupado espaços, utilizado a comunicação, as redes sociais, os estudos e diferentes formas de participação para fortalecer as vozes das comunidades e garantir que suas histórias continuem sendo contadas. Ao mesmo tempo em que aprende com os mais velhos e carrega os ensinamentos ancestrais, a juventude também traz novas formas de mobilização e novas linguagens para ampliar essa luta”.
O futuro da luta quilombola já começou a tomar forma
A atual geração não representa apenas continuidade: ela representa permanência, enfrentamento e construção coletiva de futuro. São os jovens que defendem os territórios nas universidades, nos espaços internacionais, nas redes sociais, nas pesquisas acadêmicas, nos coletivos culturais, nos quintais produtivos e nas assembleias comunitárias.
Enquanto o racismo estrutural insiste em negar direitos, a juventude quilombola segue transformando resistência em mobilização política. Enquanto grandes empreendimentos ameaçam os territórios, eles seguem denunciando violações e defendendo a vida. Enquanto tentam apagar as memórias ancestrais, eles reafirmam que os quilombos permanecem vivos.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 14:57:32
Categoria: Lutas Quilombolas