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10 de junho de 2026

III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas tem início com debates sobre proteção, ancestralidade e fortalecimento da luta coletiva

Primeiro dia reuniu lideranças de todo o país no Gama (DF), marcou o lançamento do livro do Cafuné, contou com a presença de Maju Coutinho e celebrou os 30 anos da CONAQ com reflexões sobre organização política, memória e resistência quilombola.

Gama (DF) – Com uma programação marcada por espiritualidade, formação política e fortalecimento comunitário, teve início nesta quarta-feira (10), em Brasília (DF), o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). A atividade reúne centenas de representantes de comunidades tradicionais negras de todas as regiões do Brasil em um grande espaço de troca de experiências, construção coletiva e celebração da trajetória do movimento quilombola.

O evento que está sendo realizado no Divino Paraíso conta com a participação de representantes de dezenas de estados brasileiros, além de convidadas internacionais de países – Equador, Senegal, Colômbia, Paraguai, Quênia, Honduras e Trinidad e Tobago-, pesquisadoras, integrantes do governo federal, apoiadores históricos da pauta quilombola e organizações parceiras.

Mais do que uma agenda de debates, a iniciativa se consolida como um espaço de formulação política, fortalecimento de estratégias coletivas e valorização dos saberes ancestrais. Em um ano simbólico para o movimento, a programação também celebra três décadas de atuação da CONAQ na defesa dos direitos das comunidades quilombolas em todo o país. Confira!

Ancestralidade, memória e acolhimento marcam a abertura

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ

As atividades começaram com a recepção das delegações e a apresentação dos espaços preparados para os cinco dias de programação. Entre eles, o Quilombinho Vitória Hellen da Silva Moraes, criado para acolher crianças e garantir a participação plena de mães e cuidadoras.

Um dos momentos mais emocionantes da abertura foi a realização da reza para ancestralidade, reafirmando a espiritualidade como elemento fundamental da resistência dos povos quilombolas. A cerimônia destacou a importância dos ensinamentos herdados das gerações anteriores e homenageou lideranças que dedicaram suas vidas à defesa da terra, da cultura e dos direitos coletivos.

A exibição do vídeo institucional da CONAQ também sensibilizou o público ao apresentar a trajetória da organização e reverenciar lideranças já encantadas, reforçando que a caminhada quilombola é construída por muitas mãos e atravessa gerações.

Durante a abertura oficial, a coordenadora executiva da CONAQ, Selma Dealdina, saudou as caravanas presentes e destacou a relevância daquele momento para a articulação nacional. Também reconheceu o trabalho das equipes responsáveis pela construção da atividade, ressaltando o empenho coletivo necessário para reunir representantes de diferentes territórios do país.

Comunicação, representatividade e protagonismo feminino em pauta

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ

A programação da tarde teve início com a aprovação do regimento interno e seguiu com a realização do Quitungo Nêgo Bispo com a realização de uma gira, espaço de diálogo que reuniu a jornalista e apresentadora Maju Coutinho, lideranças quilombolas e jovens representantes de diferentes comunidades.

Recepcionada com cantos, homenagens e presentes produzidos por mulheres de diversos estados, a jornalista participou de uma conversa marcada pelo compartilhamento de experiências sobre comunicação, identidade negra e ocupação de espaços historicamente negados à população afro-brasileira.

A jovem quilombola Helloisy Cristina Leal, da Escola Nacional de Formação de Meninas Quilombolas, projeto do Coletivo de Educação da CONAQ, emocionou a plenária ao destacar a importância da continuidade das lutas travadas pelas gerações anteriores. “Se hoje estamos aqui lutando por direitos, é porque outras pessoas lutaram para ocupar espaços que também são nossos.”

Representando a coordenação do coletivo de mulheres, Cida Sousa ressaltou a importância simbólica da presença da jornalista. “Ter Maju conosco é um sonho. Este dia ficará guardado na memória. Estamos construindo, ao longo destes dias, quilombos cada vez melhores”, declarou. Ao falar para as centenas de participantes presentes, Maju destacou que sua presença no espaço representava sobretudo um exercício de escuta e aprendizado.

“Eu venho com papel de escuta, de aprendiz. Aprendo com o quilombo. Celebrar a existência quilombola é celebrar a vida, a alegria e a resistência”, afirmou.

A apresentadora também ressaltou a importância de ampliar a visibilidade das pautas quilombolas nos meios de comunicação e foi homenageada pelas participantes, sendo convidada a se tornar embaixadora nacional das mulheres quilombolas do Brasil.

Cafuné: proteção coletiva para enfrentar as violências

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ

Um dos momentos mais aguardados da programação foi o lançamento oficial do livro do Plano Emergencial de Proteção e Autocuidado para Mulheres Quilombolas defensores de direitos humanos, iniciativa construída a partir de escutas, oficinas e processos formativos realizados em diferentes regiões do país.

A atividade foi precedida pela exibição do documentário Cafuné, que apresenta relatos de defensoras ameaçadas por proteger seus espaços de vida, suas tradições e os direitos de suas comunidades.

A proposta foi elaborada a partir das vivências de lideranças de diferentes biomas brasileiros e reúne estratégias voltadas ao cuidado comunitário, à segurança de defensoras de direitos humanos, ao acolhimento emocional e à articulação institucional diante das múltiplas formas de violência enfrentadas cotidianamente.

Ao comentar a iniciativa, Selma Dealdina destacou que a segurança das defensoras deve ser construída de forma compartilhada. “A resistência é coletiva e a proteção também deve ser.”

Representantes de organizações parceiras reforçaram a necessidade de ampliar investimentos e políticas públicas voltadas à garantia de direitos e à permanência das comunidades em seus espaços tradicionais.

Sandra Braga, coordenadora executiva da coordenação nacional, lembrou que os obstáculos enfrentados pelas lideranças e como eles estão diretamente relacionados à defesa dos territórios. “As ameaças acontecem porque estamos defendendo nossos territórios. Se nos ameaçam, é porque estamos incomodando. Não podemos tombar, porque estamos defendendo um legado para as próximas gerações”, declarou.

A defensora de direitos humanos Maria José Brito também emocionou o público ao compartilhar sua experiência e lembrar os riscos enfrentados por quem atua na linha de frente da defesa dos direitos coletivos.

Já a coordenadora executiva Rejane Oliveira relatou o período em que precisou deixar sua comunidade em razão das ameaças sofridas e ressaltou a importância das redes de solidariedade construídas pelas mulheres quilombolas.

“Não deixe o medo paralisar você. Nós temos uma grande rede de proteção. Quando o coletivo me abraçou, encontrei forças para continuar”, afirmou.

Representantes das embaixadas da França e da Espanha, além de organizações apoiadoras, reafirmaram o compromisso de colaborar com ações voltadas à segurança das defensoras e ao enfrentamento das desigualdades raciais e de gênero.

Trinta anos de CONAQ: uma história construída coletivamente

Encerrando a programação política do dia, lideranças históricas participaram do debate “CONAQ 30 anos: Organicidade e Resistência”, refletindo sobre a trajetória da articulação nacional desde sua fundação, em 1996.

A atividade promoveu uma análise da caminhada construída ao longo de três décadas, destacando avanços na incidência política, no fortalecimento da identidade quilombola, na ampliação da representação institucional e na defesa permanente dos direitos garantidos pela Constituição Federal.

A mesa foi composta por Biko Rodrigues coordenador nacional e articulador político da CONAQ e Xifroneze Santos, coordenadora executiva da CONAQ e presidenta do Fundo Mokambo. As lideranças presentes destacaram ainda que permanecem desafios significativos, especialmente diante da lentidão dos processos de regularização fundiária, dos conflitos por terra e das ameaças constantes enfrentadas pelas comunidades tradicionais.

“A nossa CONAQ inicia lá no ano de 95, 96, com os nossos… os nossos que antecederam a nós, sem condições nenhuma de chegar à Brasília. Eram com vaquinhas, com bingos, com farofas, de pau de arara, dormindo em rodoviárias, mas mesmo assim resistindo. E resistimos até chegar a esse nível que estamos aqui e queremos chegar muito mais. Então, essa é a CONAQ composta pelos 24 estados do Brasil, onde temos os nossos coordenadores, né? Somos 104 coordenadores no estado. Não é só uma coordenação pequena, mas é um país inteiro, onde a gente chora, se abraça”, enfatizou a sergipana.

Já o quilombola de Ivaporunduva reforçou citando algumas das conquistas do movimento ao longo dos anos: “Somos mais de 8 mil comunidades e grande parte ou a maioria das políticas públicas voltadas para nós foi com muito trabalho da CONAQ.

Homenagem às defensoras dos territórios

O primeiro dia foi encerrado com a abertura da exposição fotográfica “Mãe Bernadete: Mulheres Quilombolas Defensoras de Direitos Humanos e Ambientais, na luta pela proteção territorial”.

A mostra homenageia a memória da ialorixá Maria Bernadete Pacífico Moreira, assassinada brutalmente em 2023, e presta reconhecimento a todas as mulheres que seguem atuando na defesa dos direitos humanos, da preservação ambiental e dos modos de vida tradicionais.

Ao reunir memória, denúncia e resistência, a exposição reforça uma das principais mensagens desta edição: proteger as defensoras quilombolas significa preservar a biodiversidade, a cultura, os saberes ancestrais e a continuidade dos quilombos em todo o Brasil.

A programação segue até o dia 14 de junho com grupos de trabalho, mesas temáticas, lançamentos de publicações, intercâmbios internacionais, atividades culturais e espaços de formulação política voltados ao enfrentamento das desigualdades raciais, de gênero e climáticas.