13 de maio de 2026
Entre territórios e conexões: conectividade fortalece a luta quilombola e amplia a defesa das comunidades
Parceria com a Rede Conexão Povos da Floresta transforma acesso à internet em ferramenta estratégica para incidência política, comunicação e garantia de direitos.
Os quilombos no Brasil são símbolos de ancestralidade, resistência e coletividade. No centro dessa trajetória, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) mantém como bandeira prioritária a titulação plena dos territórios. Para o movimento, a regularização fundiária é o “guarda-chuva” essencial: somente através da posse da terra é possível garantir segurança jurídica e o acesso a políticas públicas eficazes, equitativas e de qualidade.
Historicamente, o Estado tem sido um dos principais violadores desses direitos. Em resposta, o movimento quilombola desenvolveu mecanismos próprios de defesa para promover o “bem viver”, o acesso à democracia e a proteção socioterritorial.
Conexão como ferramenta de emancipação
Diante do cenário de isolamento, a CONAQ, em parceria com a Rede Conexão Povos da Floresta, tem transformado a conectividade em uma ferramenta de luta. Dados do IBGE ano de 2023 apontam que estados como Roraima e Amazonas possuem as maiores taxas de usuários com banda larga móvel em velocidades precárias (inferiores a 10 Mbps), o que inviabiliza atividades acadêmicas, saúde e informação.
A chegada da Rede Conexão rompe essa barreira. Mais do que fornecer sinal, o projeto une saberes científicos e tradicionais para proteger os territórios contra a desinformação, o desmatamento e a grilagem. Atualmente, a rede já alcança, conforme seu relatório anual de 2025:
- 2.106 comunidades conectadas;
- 251 municípios atendidos;
- Mais de 169 mil pessoas beneficiadas.
O “abismo” social revelado pelo censo
Os dados recentes do IBGE expõem o descaso histórico. A taxa de analfabetismo entre quilombolas de 15 anos ou mais é de 18,99% , quase três vezes superior à média nacional (7%). A infraestrutura básica também é crítica: nas áreas rurais, 94,6% dos quilombolas convivem com saneamento precário e apenas 54% têm acesso à rede geral de água.
Contra esse cenário de marginalização, a telemedicina surge como um alento. O programa Conexão Saúde já cadastrou 500 comunidades tradicionais da Amazônia. Ana Paula da Costa Ribeiro, moradora do território São José do Gurupi (Viseu/PA), relata a mudança: “ Antes era difícil conseguir consulta rápido. A gente perdia o dia todo esperando transporte, pegando fila no posto, e às vezes nem conseguia ser atendido. Com a telemedicina mudou muita coisa. Eu gostei de usar porque consigo falar com o médico sem sair de casa. É mais rápido, não gasto com condução, e consigo explicar o que estou sentindo com calma. O médico me orienta, manda a receita no celular e dá as orientações certinho. Isso ajudou muito na hora que minha mãe ficou doente e eu não podia deixar ela sozinha. Acho que a telemedicina aproxima o cuidado da gente. Especialmente pra quem mora longe do centro ou trabalha o dia todo, faz diferença. Me senti ouvida e bem atendida. Por isso eu recomendo. Facilitou minha vida e da minha família.’’

Foto: Arquivo do território São José do Gurupi (Viseu/PA)
Tecnologia a serviço dos territórios quilombolas
Para José Carlos Galiza, coordenador da Rede pela CONAQ, este é um momento de reflexão e celebração. “Temos dados e ações concretas, como o Conexão Saúde e a IA Parente. Esses projetos provam que, nesses 30 anos, construímos uma história de conquistas. Ainda precisamos avançar, mas não estamos mais no início”, afirma. Lideranças locais reforçam que o impacto atinge também a educação, facilitando pesquisas pedagógicas e o acesso a conteúdos que antes eram inacessíveis.
Para as comunidades, a Rede Conexão se mostra como uma ferramenta de transformação, trazendo uma perspectiva de um futuro promissor no campo da Educação Quilombola, como relata Silvandro Fernandes Pinheiro, de 41 anos anos. Liderança do quilombo de Providência em, Salvaterra (PA), ele conta que por muito tempo ficou sem perspectivas, mas o projeto lhe deu forças para voltar a estudar.
“Essa experiência me mostrou que a internet pode ser uma ferramenta importante para nós. As videoaulas foram decisórias para o meu futuro hoje. Quando iniciou o Processo Seletivo Especial para Indígenas e Quilombolas (PSE), me dediquei ainda mais. Decidi, juntamente com minha esposa, retomar os estudos para ingressar na universidade. O acesso à internet proporcionado pelo projeto Rede Conexão Povos da Floresta foi essencial para estudar online. Com dedicação, fui aprovado e ingressei na UFPA [Universidade Federal do Pará] no curso de Geoprocessamento, e como resultado fiquei careca”, afirma Fernandes.
Além do suporte à saúde e educação, a conectividade emerge como uma ferramenta estratégica e indispensável para a titulação e regularização fundiária dos territórios quilombolas. O acesso à internet de qualidade permite que as comunidades utilizem sistemas de georreferenciamento em tempo real e agilizem o diálogo com órgãos governamentais, superando as barreiras geográficas que historicamente atrasam os processos burocráticos. Com a informação circulando de forma veloz e segura, as lideranças ganham autonomia para monitorar seus limites territoriais e produzir provas documentais fundamentais na luta pela garantia definitiva.

Foto: Arquivo do território São José do Gurupi (Viseu/PA)
O marco de três décadas: Tecnologia como resistência ancestral
Ao completar 30 anos de fundação, a CONAQ reafirma que a tecnologia, quando apropriada pelas comunidades, não apaga a tradição, mas a protege. A parceria com a Rede Conexão Povos da Floresta simboliza uma nova era da resistência quilombola em todos os biomas: a transição do isolamento imposto para a conexão estratégica. Nestas três décadas de organização política, a CONAQ deixa claro que o acesso à informação e à saúde digital não é um privilégio tecnológico, mas um direito fundamental para que o povo quilombola continue ocupando seu lugar de direito no mapa do Brasil, unindo vozes em um ato político, e na garantia e na luta por territórios quilombolas protegidos e titulados de forma plena.
Sobre a Rede Conexão Povos da Floresta
A Rede Conexão Povos da Floresta é uma iniciativa que tem como objetivo viabilizar, até o final da década, a inclusão digital e o acesso a políticas públicas para 1 milhão de pessoas em 9 mil comunidades, começando pela Amazônia e avançando para outras regiões em isolamento digital.
Liderada por CONAQ, COIAB e CNS, a iniciativa reúne mais de 50 organizações parceiras e atua com base em três pilares: infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital com empoderamento. A proposta é garantir que a conectividade vá além do acesso à internet, tornando-se uma ferramenta de transformação social, promoção de direitos e conservação da floresta. Saiba mais em: https://conexaopovosdafloresta.org.br/
Texto por Ailton Borges/CONAQ, publicado às 11:45:58
Categoria: Meio Ambiente