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28 de abril de 2026

Caatinga viva: bioma essencial sustenta quilombos e equilibra o Brasil

Territórios quilombolas preservam saberes ancestrais e garantem a sobrevivência de um dos ecossistemas mais únicos do país.

Hoje, 28 de abril, é celebrado o Dia Nacional da Caatinga,  um dos biomas mais singulares do mundo – e exclusivamente brasileiro. Presente em grande parte do Nordeste e no norte de Minas Gerais, é muito mais do que uma vegetação marcada pela seca: trata-se de um espaço de vida, cultura, resistência e biodiversidade, profundamente conectado à existência de inúmeras comunidades quilombolas.

Ao longo de gerações, esses territórios construíram formas próprias de convivência com o semiárido, desenvolvendo práticas sustentáveis que garantem não apenas a sobrevivência, mas também a preservação ambiental.

Nesse contexto, a relação entre povo e natureza se constrói a partir do respeito e da convivência. Como explica Edna Paixão, coordenadora estadual de Pernambuco e integrante do Coletivo de Mulheres da CONAQ:

“A Caatinga não é apenas uma paisagem ao redor do nosso território. Ela é quem fornece alimento, refúgio, remédio. É nesse bioma que as comunidades sobrevivem com autonomia e com reverência à sua ancestralidade.”

Quilombos: guardiões do bioma

Nos territórios quilombolas, a relação com a Caatinga vai além do uso dos recursos naturais. Ela se traduz em respeito, cuidado e pertencimento. Plantios adaptados ao clima, uso consciente da água, manejo de sementes crioulas e conhecimento das espécies nativas fazem parte de um sistema de vida que mantém o equilíbrio do bioma.

Essas práticas, muitas vezes invisibilizadas, são fundamentais para a conservação da biodiversidade. Ao contrário de modelos predatórios, os modos de vida quilombolas contribuem para a regeneração do solo, a proteção da fauna e a manutenção dos ciclos naturais.

Além disso, esses saberes não surgem de forma isolada, mas são construídos ao longo de gerações. Edna destaca que essa relação envolve estratégia e resistência histórica:

“Conviver com a Caatinga de forma estratégica permitiu que as comunidades se mantivessem resilientes às secas e também invisíveis ao sistema escravagista.” Ela também reforçou que o bioma é fonte de renda, alimento e identidade:

“Esse fazer coletivo dentro da Caatinga é um reencontro com a nossa ancestralidade e a garantia da segurança alimentar do nosso povo.”

Importância para regulação do clima

Edna Paixão, liderança quilombola de Pernambuco. Foto: Pedro Garcês

Embora frequentemente subestimada, a Caatinga desempenha um papel estratégico no equilíbrio ambiental do país. O bioma abriga uma rica diversidade de espécies, muitas delas endêmicas, além de contribuir para a regulação climática e a conservação dos recursos hídricos.

Além disso, a vegetação possui grande capacidade de adaptação às condições extremas, sendo essencial no enfrentamento às mudanças climáticas. Preservar esse território significa proteger um patrimônio natural que impacta diretamente o clima, a segurança alimentar e a qualidade de vida em todo o Brasil.

Subsistência e autonomia 

Para as comunidades quilombolas, a Caatinga é fonte de sustento e autonomia. A produção de alimentos, o extrativismo sustentável, o uso de plantas medicinais e a criação de animais fazem parte de um sistema econômico que respeita o tempo da natureza.

Esse modo de vida garante segurança alimentar e fortalece a independência dos territórios, reduzindo a vulnerabilidade diante de crises externas. Ao mesmo tempo, valoriza conhecimentos ancestrais que seguem sendo transmitidos entre gerações.

Desafios 

Apesar de sua importância, a Caatinga enfrenta ameaças crescentes. O desmatamento, a expansão de atividades econômicas predatórias, a escassez de políticas públicas e os impactos das mudanças climáticas colocam em risco tanto o bioma quanto as comunidades que dele dependem.

Nesse contexto, quilombolas seguem na linha de frente da resistência, denunciando violações e defendendo seus territórios como espaços de vida.

Edna alertou para esse cenário: “Os desafios hoje são o avanço do desmatamento, que ameaça o sustento das famílias, e as mudanças climáticas, que dificultam o plantio e o acesso à água.”

Ela também enfatizou a ausência do Estado como um fator agravante: “A falta de regularização dos territórios e de políticas públicas enfraquece a biodiversidade e coloca as comunidades em situação de vulnerabilidade.”

Reconhecimento gera proteção

Esta data também é um momento de reflexão sobre a necessidade de reconhecer o papel estratégico das comunidades quilombolas na preservação ambiental. Garantir direitos territoriais, investir em políticas públicas e valorizar os saberes tradicionais são passos fundamentais para proteger esse bioma.

Mais do que um cenário de adversidades, a Caatinga é um território de potência. E os quilombos, que há séculos aprendem e ensinam a conviver com ela, mostram que é possível construir caminhos de equilíbrio entre natureza e sociedade. Como reforçou Edna:

“A Caatinga garante a nossa forma de viver, assegurando a reprodução cultural, econômica e social do nosso povo”, concluiu.