Notícias

14 de setembro de 2026

Do quilombo ao coração da África: mulheres da CONAQ levam proteção, clima e ancestralidade a uma escola feminista no Quênia

Em uma formação internacional com 160 lideranças de 37 países, Selma Dealdina Mbaye e Cida Sousa representam o Coletivo de Mulheres da CONAQ e transformam a presença brasileira em troca política entre territórios, memórias e estratégias de resistência.

Há encontros que começam antes da primeira fala. Começam no corpo-território, na memória e na sensação de pisar em um lugar que, para muita gente, parecia distante, mas que nunca deixou de ser uma referência de origem.

É assim que Selma Dealdina M’baye e Cida Sousa descrevem a chegada ao Quênia. As duas coordenadoras do Coletivo de Mulheres da CONAQ, partiram rumo ao país africano para participarem de uma escola feminista afro-diaspórica. A formação reúne cerca de 160 lideranças de 37 países e articula organizações como a Marcha Mundial de Mulheres, a Via Campesina, a Amigos da Terra e a Conferência Africana.

Foto: Acervo CONAQ

No relato enviado ainda durante a experiência, Selma fala com a urgência de quem ainda está atravessando o acontecimento. Ela enumera os países presentes, reconhece os sotaques, identifica as diferentes lutas e situa o Brasil em uma geografia política maior: a da diáspora negra, que se reencontra em África para trocar ferramentas de sobrevivência e imaginação de futuro.

 

“É uma escola que acontece a cada dois anos. Então, este ano, em 2026, acontece aqui no Quênia. É um espaço importante de trocas, de partilhas, de conhecimento, de ancestralidade também.”, diz  Selma.

 

A escola acontece dentro de um parque nacional. A paisagem, no entanto, não é apenas cenário. Para Cida e Selma, o fato de estarem no continente africano acrescenta uma camada de sentido à formação. Não se trata somente de participar de mesas, oficinas e debates. Trata-se de “botar o pé no território sagrado”.

 

De acordo com Selma, “É muito importante para a CONAQ estar nesse espaço, trazer a realidade, a luta, a resistência e a resiliência das mulheres quilombolas para este espaço.”

Foto: Acervo CONAQ

A presença brasileira chega ao Quênia com uma história própria e uma disposição explícita para escutar. Selma e Cida não levam apenas a representação formal de uma organização nacional. Levam a experiência de mulheres que defendem territórios, enfrentam ameaças, protegem modos de vida e disputam o direito de produzir conhecimento sobre a própria realidade.

Levando o território na mala

Foto: Acervo CONAQ

 

Entre os materiais apresentados pelo Coletivo de Mulheres estão o Cafuné,  Plano Emergencial de Proteção e Autocuidado para Mulheres Quilombolas Defensoras de Direitos Humanos, a publicação Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima e o livro Vidas Interrompidas, obra que registra casos de violência contra pessoas quilombolas e ajuda a dar rosto e memória a vidas que muitas vezes desaparecem das estatísticas, todos lançados neste ano de 2026.

 

A escolha dos materiais não é casual. Cada publicação funciona como uma carta política dos quilombos. O Cafuné parte de oficinas e processos formativos realizados com mulheres de diferentes regiões do país para propor estratégias de segurança, acolhimento, autocuidado, apoio jurídico e saúde mental. O plano também articula proteção e regularização fundiária, porque, para as mulheres quilombolas, não há como separar a defesa da vida da defesa do território.

 

A proposta foi lançada em junho, durante o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, no Distrito Federal, e apresentada em agosto a representantes dos ministérios da Igualdade Racial, dos Direitos Humanos e das Mulheres. Em setembro, o Coletivo voltou a levar o documento ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, reforçando que políticas de proteção precisam considerar a realidade quilombola. 

 

O Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima amplia a conversa para a emergência climática. A publicação reúne narrativas de mulheres quilombolas e mostra como mineração, agronegócio, petróleo e projetos apresentados como transição energética incidem sobre os territórios e sobre os corpos. O livro sustenta uma ideia central: não existe justiça climática sem direito à terra, titulação, regularização fundiária e enfrentamento do racismo e da violência de gênero.

 

Já o Vidas Interrompidas aborda um projeto inédito para a produção literária da CONAQ, a publicação trás um panorama do período entre 2019 e 2024 das violências sofridas por defensores de direitos humanos quilombolas. Além de trazer dados nunca antes lançados, o livro analisa caso por caso dos assassinatos e ameaças levantadas durante o período e trás um recorte para os casos contra lideranças femininas. O Vidas Interrompidas foi lançado também durante o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas da CONAQ e compõe o arquivo de produções elaboradas no âmbito do projeto Resistência Quilombola, iniciativa co financiada pela União Europeia e realizo pela CONAQ e COSPE. 

 

A circulação internacional desses materiais desloca o centro da narrativa. Mulheres quilombolas deixam de aparecer apenas como população afetada por conflitos ambientais ou territoriais. Passam a ocupar o lugar de formuladoras de respostas, produtoras de conhecimento e protagonistas de uma agenda que conecta clima, proteção, autonomia e bem viver.

Foto: Acervo CONAQ

 

Aprender sem deixar de ensinar

A escola no Quênia também é um exercício de mão dupla. Selma fala em aprender metodologias, táticas, estratégias e formas de organização com as mulheres africanas. Mas a troca não é marcada por uma hierarquia entre quem ensina e quem recebe. Ela acontece entre companheiras que reconhecem problemas comuns e inventam saídas a partir de contextos diferentes.

“A gente está aqui também para aprender com elas, com as nossas irmãs africanas, as táticas, estratégias e os espaços de reflexão importantes para o empoderamento, o protagonismo e a autonomia das mulheres.”

O repertório da formação inclui o enfrentamento ao feminicídio, à misoginia, ao racismo e ao patriarcado. Inclui, ainda, debates sobre solidariedade, sororidade, bem viver e autocuidado. A reunião não se limita a falar da dor. Fala também da capacidade de construir alianças, celebrar a vida e sustentar a luta no longo prazo.

Foto: Acervo CONAQ

 

A formulação é importante porque desafia uma imagem recorrente sobre movimentos de mulheres negras: a de que sua legitimidade estaria apenas no sofrimento que denunciam. No Quênia, a delegação da CONAQ leva denúncias, mas leva também método, elaboração, publicação, memória e projeto. Leva a capacidade de transformar experiências difíceis em ferramentas para que outras mulheres não precisem atravessá-las sozinhas.

Uma ponte feita de presença

A CONAQ chega a esse espaço depois de um ciclo intenso de mobilização. Em 2026, o Coletivo de Mulheres realizou o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, lançou o Cafuné e Vozes Quilombolas, participou de agendas com ministérios, levou suas publicações à sede da ONU, em Nova York, durante o Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável, e ocupou espaços de circulação pública, como a Bienal do Livro de Brasília.

 

Cada uma dessas ações tem uma frente diferente. O encontro fortalece a organização interna. O Cafuné formula uma política de proteção. Vozes Quilombolas disputa a narrativa sobre clima e o Vidas Interrompidas trás evidências das consequências de estar no esquecimento das políticas do estado. A ida à ONU internacionaliza as experiências. A agenda com o governo cobra políticas públicas. Juntas, elas formam uma estratégia: produzir conhecimento, criar rede, incidir nas instituições e manter os territórios no centro da discussão.

“Estar aqui é histórico, simbólico, ancestral e de muita importância”, relata Selma.

 

No Quênia, a CONAQ não está apenas apresentando o Brasil. Está ajudando a construir uma conversa internacional sobre como mulheres negras defendem a vida. E, nessa conversa, o cuidado não aparece como intervalo da política. Ele é a própria política, o modo encontrado por uma rede de mulheres para continuar de pé, proteger seus territórios e fazer do futuro uma obra coletiva.

Foto: Acervo CONAQ