20 de agosto de 2026
Vozes quilombolas ocupam a Bienal de Brasília com publicações sobre memória, proteção e resistência
Na estreia da CONAQ no evento, mulheres apresentam obras que transformam vivências em conhecimento e propostas de proteção.
No início da noite desta quarta-feira (19), a presença quilombola ganhou espaço na programação da Bienal Internacional do Livro de Brasília, realizada de 17 a 23 de agosto, no Museu Nacional da República. Pela primeira vez no evento, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) apresentou parte de sua produção intelectual em uma mesa dedicada às obras construídas pelo movimento.
Intitulada “Vozes quilombolas falando das publicações da CONAQ na Bienal”, a atividade reuniu Nathalia Purificação, coordenadora de Comunicação da CONAQ; Regimara Santos, comunicadora do movimento; e Sarah Fogaça, assessora jurídica. As três integram o Coletivo de Mulheres da CONAQ e conduziram uma conversa que articulou literatura, comunicação, direitos humanos, justiça climática, proteção e defesa dos territórios.
Ao apresentar a organização ao público, Nathalia Purificação destacou a trajetória de três décadas do movimento quilombola e a importância de ocupar espaços de circulação de conhecimento. “O quilombo é existência e resistência ainda nos dias de hoje.”
A participação na Bienal ocorre justamente no ano em que a CONAQ completa 30 anos de atuação. Criada em 1996, a organização surgiu a partir de uma articulação do movimento negro para fortalecer a defesa dos direitos das comunidades quilombolas e de seus territórios. Ao longo dessa trajetória, consolidou uma atuação nacional que combina mobilização política, produção de conhecimento e incidência pela formulação e implementação de políticas públicas.
Segundo Nathalia, a presença no evento literário representa também uma oportunidade de mostrar à sociedade brasileira que os quilombos não pertencem apenas ao passado. A produção apresentada procura evidenciar a capacidade intelectual das comunidades e registrar experiências, conhecimentos e desafios vivenciados nos territórios.
Em sua fala, a jornalista também ressaltou dados produzidos em parceria com o IBGE em 2022, que identificaram mais de 1,3 milhão de pessoas quilombolas vivendo no Brasil, distribuídas por milhares de localidades. Mais do que números, entretanto, as publicações apresentadas durante a mesa revelam histórias e perspectivas construídas por quem vive diretamente as realidades retratadas.
Mulheres quilombolas e justiça climática

Foto: Pedro Garcês
Entre os materiais apresentados esteve “Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima”, publicação lançada durante o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, realizado em junho de 2026.
A obra é resultado de processos formativos realizados no primeiro semestre deste ano e dialoga com uma trajetória anterior de mobilização, que inclui o manifesto “Mulheres Quilombolas por Justiça Climática”, elaborado para levar à Conferência das Partes sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em Belém.
A publicação parte das experiências de mulheres quilombolas para discutir como as transformações ambientais e os grandes empreendimentos afetam os territórios e os corpos. Entre os impactos abordados estão aqueles relacionados ao avanço do agronegócio, à mineração, ao petróleo e às propostas apresentadas como alternativas para a transição energética.
Para Nathalia Purificação, discutir a emergência climática sem considerar os direitos territoriais significa deixar de lado uma dimensão fundamental do problema. “Não é possível falar de justiça climática sem falar de titulação dos quilombos, sem falar de regularização fundiária e sem falar da violência de gênero e de raça que atravessa os nossos corpos.”
Organizado pelas pesquisadoras quilombolas Fran Paula, do Mato Grosso, e Micely Silva, do Pará, o livro reúne experiências e narrativas de mulheres que participaram das formações promovidas pelo movimento.
A proposta, segundo a coordenadora de Comunicação, não se limita à denúncia. A publicação também busca oferecer ferramentas de compreensão e apontar caminhos construídos a partir das próprias comunidades.
Esse aspecto é central para compreender o conjunto de materiais apresentados na Bienal: as publicações não são tratadas apenas como registros de problemas, mas como instrumentos de incidência política e produção de respostas.
Quando os números ganham rosto e história

Foto: Pedro Garcês
Essa perspectiva aparece também em “Vidas Interrompidas”, publicação apresentada pela advogada Sarah Fogaça. O trabalho nasceu de uma preocupação com a ausência ou insuficiência de dados sistematizados sobre assassinatos de pessoas quilombolas. Embora as comunidades conheçam de perto os casos de violência, muitas vezes essas ocorrências não aparecem nas estatísticas ou nas notícias com informações capazes de revelar a dimensão humana das vítimas.
A advogada explicou que a produção de dados é fundamental para a construção de políticas públicas. “Se não estão construindo os dados, então a gente vai construir os nossos próprios dados, porque a gente sabe da nossa realidade, a gente sabe mapear a nossa realidade.”
A publicação procura, portanto, ir além da apresentação de números. Cada caso é relacionado a uma trajetória, uma história e uma vida que foi interrompida. O levantamento apresentado durante a mesa aponta ainda para a relação entre os assassinatos e a defesa territorial. A idade média das pessoas quilombolas assassinadas identificada no levantamento é de 45 anos, indicando a presença significativa de lideranças entre as vítimas.
Para Sarah, esse dado ajuda a evidenciar que a violência não pode ser dissociada da luta pelo reconhecimento dos territórios. As mulheres aparecem de maneira específica nessa análise. Além das ameaças relacionadas à atuação como defensoras de direitos humanos e dos territórios, elas também enfrentam violências de gênero dentro e fora das comunidades.
A publicação é dividida em duas partes, sendo uma delas dedicada especificamente às mulheres quilombolas. Entre as questões levantadas está uma pergunta que sintetiza a dimensão da insegurança enfrentada por muitas delas: qual é o lugar seguro para uma mulher quando até a própria casa deixa de representar proteção?
A reflexão ganha força diante dos casos mapeados pela publicação, que apontam para assassinatos ocorridos dentro das residências e, em algumas situações, diante dos filhos das vítimas. “Nós mulheres quilombolas somos assassinadas duplamente por sermos lideranças dos nossos territórios e também por sermos mulheres.”
A afirmação da jurista evidencia como diferentes formas de violência se sobrepõem. Defender o território, proteger a biodiversidade e sustentar modos de vida tradicionais pode colocar mulheres em situação de ameaça, enquanto a violência doméstica acrescenta outra camada de vulnerabilidade.
Do luto à construção de estratégias de proteção

Foto: Pedro Garcês
A discussão sobre violência levou à apresentação de uma terceira publicação: Cafuné – Plano Emergencial de Proteção para Mulheres Quilombolas Defensoras de Direitos Humanos.
Regimara Santos explicou que o plano surgiu a partir das experiências de mulheres que vivem situações de ameaça e da necessidade de construir uma proposta de proteção que considere as especificidades dos territórios quilombolas.
A iniciativa ganhou impulso após o assassinato de Mãe Bernadete, liderança quilombola cuja morte provocou forte mobilização do movimento. Segundo a quilombola Kalunga, a ialorixá fazia parte de um programa estadual de proteção, mas teria sido retirada dele dois meses antes do assassinato, sem ter sido informada.
A elaboração do Cafuné contou com diálogos realizados em 2025 com mulheres de diferentes regiões do país. O primeiro encontro ocorreu na oficina de Salvador, reunindo participantes das regiões Norte e Nordeste. O segundo foi realizado em Vitória, com mulheres do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
A partir dessas escutas foram elaborados o plano e um documentário com orientações sobre como as políticas de proteção devem considerar as necessidades das defensoras quilombolas. O nome escolhido para a iniciativa também carrega um significado político e afetivo. “Cafuné é uma palavra originária de África que significa aconchego, acolhimento.”
Para a comunicadora, a proteção não pode ser compreendida apenas pela dimensão jurídica ou pela segurança física. Ela precisa incluir o cuidado coletivo e o acolhimento emocional de mulheres que convivem diariamente com o medo.
Durante as oficinas que deram origem ao plano, participantes relataram que, em alguns momentos, conseguiram dormir tranquilamente pela primeira vez em muito tempo, sem o temor constante de uma invasão ou de um ataque. “Cafuné não é só sobre a proteção jurídica, mas ele é também sobre a proteção das nossas mentes, ele é também sobre acalento.”
A apresentação do plano na Bienal ganhou ainda mais significado por ocorrer no mês em que se completaram três anos do assassinato de Mãe Bernadete e durante o Agosto Lilás, período dedicado ao enfrentamento da violência contra as mulheres.
Produzir conhecimento também é resistir

Foto: Pedro Garcês
Embora abordem temas distintos, Vozes Quilombolas, Vidas Interrompidas e Cafuné foram apresentados com um mesmo intuito. As três produções partem de experiências concretas e transformam relatos, dados e vivências em ferramentas para reivindicar direitos e formular respostas.
Nesse sentido, Nathalia ressaltou que a intenção não é reforçar uma representação das comunidades quilombolas apenas como vítimas. “Nós não somos somente vítimas, nós também somos solucionadoras. Nós também temos respostas.”
Essa mudança de perspectiva atravessa toda a produção apresentada. Ao mesmo tempo em que documentam assassinatos, ameaças, racismo, violência de gênero e impactos ambientais, as publicações apresentam propostas elaboradas pelas próprias comunidades.
A dimensão climática também se conecta a essa compreensão. Nathalia destacou que os territórios quilombolas desempenham papel fundamental na conservação ambiental e citou um levantamento apresentado pela CONAQ que identificou elevados índices de preservação da biodiversidade em áreas quilombolas.
A defesa dos territórios, portanto, aparece como uma questão que ultrapassa a garantia fundiária. Ela também está relacionada à preservação de conhecimentos tradicionais, modos de produção, práticas culturais e formas ancestrais de cuidado com a natureza.
A raiz de seu território

Foto: Pedro Garcês
Durante o debate com o público, uma das questões levantadas foi o papel das mulheres quilombolas diante das violências que atravessam suas comunidades e relações familiares.
Ao responder, Nathalia utilizou uma expressão que sintetiza a dimensão coletiva da atuação dessas lideranças: “As mulheres quilombolas maternam o território.” O conceito, não está restrito à maternidade biológica. Trata-se de uma ideia relacionada ao cuidado, à proteção, à mobilização e à responsabilidade coletiva.
A atuação das mulheres, entretanto, não as protege automaticamente da violência. Pelo contrário, assumir posições de liderança pode ampliar os riscos enfrentados por elas.
Nesse cenário, o fortalecimento coletivo aparece como uma das principais estratégias de sobrevivência. Nathalia lembrou que o Coletivo de Mulheres da CONAQ foi criado em 2011, após o assassinato de uma liderança quilombola da Paraíba, Maria do Céu.
A partir daquele momento, mulheres de diferentes partes do país passaram a construir juntas estratégias para enfrentar as ameaças e fortalecer a defesa das lideranças. “Acho que a melhor estratégia é essa, trabalhar em coletivo.”
O trabalho coletivo se manifesta de diversas formas: na comunicação, na advocacia, na produção de pesquisas, na defesa ambiental, na incidência política e na criação de mecanismos próprios de proteção.
Em situações de ameaça, medidas aparentemente simples também podem representar instrumentos de segurança. Nathalia mencionou demandas como a instalação de portões, janelas e câmeras de segurança, demonstrando que a proteção precisa considerar as condições concretas de cada território e de cada mulher.
Ocupação de espaços e incidência política

Foto: Pedro Garcês
A atuação construída pelo movimento não se restringe às comunidades ou aos espaços nacionais. As participantes também destacaram a presença de mulheres quilombolas em agendas internacionais. O plano Cafuné, por exemplo, foi traduzido para espanhol, inglês e francês, ampliando as possibilidades de incidência e diálogo com organismos e movimentos de outros países.
Sarah destacou ainda a participação da CONAQ na CEDAW, mecanismo da Organização das Nações Unidas voltado aos direitos das mulheres. Segundo ela, das 20 propostas apresentadas pela organização, 19 foram acolhidas. Entre as recomendações, estão questões relacionadas à titulação dos territórios e à saúde das mulheres quilombolas, além da necessidade de garantir que políticas de enfrentamento à violência sejam acessíveis para aquelas que vivem em áreas distantes dos centros urbanos.
A realidade territorial impõe obstáculos concretos. Para muitas mulheres, denunciar uma violência pode significar percorrer longas distâncias, utilizar barco, balsa ou depender de carona para chegar ao município mais próximo.
Por isso, a incidência internacional também é utilizada para cobrar do Estado brasileiro políticas que considerem essas especificidades. “A gente precisa estar viva para poder ocupar os espaços, a gente precisa estar viva para falar de justiça climática. ”A frase resume uma das principais mensagens deixadas pela mesa: antes de qualquer disputa política, é preciso garantir o direito de existir.
A urgência da titulação

Foto: Pedro Garcês
A defesa territorial apareceu como um dos fios condutores de toda a conversa. Segundo os dados apresentados durante a atividade, a CONAQ contabiliza quase 9 mil localidades quilombolas no Brasil, enquanto menos de 5% estariam tituladas. A certificação, explicaram as participantes, constitui uma etapa inicial, enquanto a titulação representa o estágio final do reconhecimento territorial.
A demora dos processos ajuda a dimensionar a urgência da pauta. Sarah apresentou uma estimativa feita a partir da realidade dos territórios e do tempo necessário para os processos de reconhecimento e titulação. Na conta apresentada, seriam necessários mais de 2 mil anos para titular todos os territórios quilombolas.
Literatura, comunicação e memória como ferramentas de luta

Foto: Pedro Garcês
Ao final da mesa, as participantes reforçaram que as obras apresentadas representam apenas uma parte da produção construída pela CONAQ. O Coletivo de Mulheres, criado em 2011, ocupa papel central nesse processo. A produção intelectual é compreendida como mais uma ferramenta de organização política, ao lado da comunicação, da atuação jurídica, da mobilização ambiental e da incidência institucional.
A preocupação com a acessibilidade também esteve presente na apresentação. Além dos livros, a CONAQ tem produzido infográficos e materiais que facilitam a circulação das informações dentro das próprias comunidades.
Sarah destacou que o objetivo não é escrever apenas para a academia ou para espaços especializados, mas produzir materiais nos quais as comunidades possam se reconhecer. A proposta é fazer com que dados e histórias retornem aos territórios e sejam apropriados por quem os produziu.
Como sintetizou Nathalia durante a mesa, aquilo que estava exposto no estande era apenas “a ponta do iceberg” de uma produção construída ao longo de décadas. Em um ano marcado pelos 30 anos da CONAQ, a primeira participação na Bienal simboliza mais do que uma estreia institucional. Representa a ocupação de um espaço de circulação de ideias por mulheres que há décadas produzem conhecimento a partir de seus territórios, transformando a ancestralidade em memória, mobilização e resistência em propostas de futuro.
As publicações da CONAQ estão disponíveis para consulta e distribuição durante a Bienal Internacional do Livro de Brasília. Para baixar as obras, clique nos links abaixo:
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 11:43:13
Categoria: Mulheres Quilombolas