10 de junho de 2026
Cafuné transforma cuidado coletivo em estratégia de proteção para mulheres quilombolas
Livro e documentário lançados durante o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas apresentam caminhos construídos pelas próprias lideranças para enfrentar violências e fortalecer redes de apoio.
O lançamento do livro Plano Emergencial para Proteção de Mulheres Quilombolas Defensoras de Direitos Humanos foi um dos momentos mais marcantes do primeiro dia do III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, realizado no Gama (DF). A atividade reuniu lideranças quilombolas, defensoras de direitos humanos, representantes do governo federal, organizações parceiras e convidados internacionais para apresentar uma proposta elaborada coletivamente por mulheres de diferentes regiões do Brasil.
A programação incluiu a exibição do documentário que leva o mesmo nome e a apresentação da publicação que sistematiza estratégias voltadas ao acolhimento, à segurança e à promoção da saúde integral das comunidades quilombolas. O lançamento também foi marcado por reflexões sobre os desafios enfrentados por defensoras de direitos humanos e pela necessidade de fortalecer políticas públicas que dialoguem com as realidades vividas nos territórios tradicionais.
Ao comentar a proposta, a jornalista Maju Coutinho destacou a potência simbólica do projeto e a importância de colocar o afeto e a solidariedade no centro das estratégias de resistência. “O Cafuné chama atenção logo no início porque demonstra amor. Começar pelo carinho e pelo cuidado foi uma grande sacada”, afirmou durante o debate realizado após a exibição do documentário.
Construção coletiva

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
O plano nasceu a partir de oficinas nacionais realizadas com mulheres quilombolas de diversos biomas brasileiros. Os encontros permitiram o compartilhamento de experiências, a identificação de desafios comuns e a elaboração de mecanismos para enfrentar violências territoriais, políticas, raciais e de gênero que atingem lideranças e comunidades em todo o país.
Mais do que um instrumento técnico, a proposta representa uma resposta construída a partir da realidade vivida pelas próprias participantes, ampliando a autonomia das lideranças e a capacidade de articulação comunitária. O material foi elaborado a partir da escuta de mulheres que convivem diariamente com ameaças, criminalização, conflitos fundiários e violações de direitos, transformando experiências individuais em estratégias coletivas de enfrentamento.
Durante o lançamento, a defensora de direitos humanos Maria José ressaltou a importância da rede construída pelo movimento quilombola para garantir apoio às lideranças ameaçadas. “A CONAQ foi fundamental quando eu estava sob ameaça. Hoje, poder vivenciar esse encontro e encontrar mulheres de todo o Brasil mostra a força da nossa organização”, declarou.
Acolhimento como ferramenta de luta

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
Inspirado no significado ancestral da palavra “cafuné” – gesto que remete ao acolhimento, à escuta e ao afeto -, o documento propõe uma abordagem baseada no fortalecimento das redes comunitárias e na valorização da saúde emocional como dimensão essencial da luta quilombola.
A publicação reconhece que a defesa dos territórios também passa pela garantia da vida, da integridade e da segurança das lideranças que estão na linha de frente da mobilização política e da conquista de direitos. Nesse sentido, apresenta reflexões sobre autocuidado, apoio mútuo e fortalecimento emocional capazes de minimizar os impactos das múltiplas violências sofridas por mulheres quilombolas.
Rejane Oliveira coordenadora executiva da CONAQ e uma das participantes do processo, ressaltou que a experiência proporcionada pelo projeto ajudou a enfrentar os efeitos do medo provocado pelas ameaças. “O projeto Cafuné conseguiu fazer com que eu relaxasse um pouco. O medo existe, mas não podemos deixar que ele nos paralise. O coletivo de mulheres nos abraça de uma maneira muito bonita e nos fortalece para continuar lutando”, afirmou.
Narrativas que denunciam

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
Durante o evento, o público acompanhou a exibição do documentário dirigido por Gabriela Barreto. A produção audiovisual apresenta relatos, reflexões e experiências compartilhadas ao longo do processo de elaboração do plano, evidenciando os desafios enfrentados pelas mulheres quilombolas e os caminhos construídos para assegurar permanência e dignidade nas comunidades tradicionais.
Com duração de 23 minutos, o filme destaca a força das redes de solidariedade e a importância do afeto como prática política diante das múltiplas formas de violência. As imagens e depoimentos revelam histórias de mulheres que seguem defendendo seus espaços ancestrais mesmo diante de ameaças, perseguições e conflitos provocados pela disputa por terra e recursos naturais.
Ao comentar a obra, Jhonny Martins diretor presidente da Negra Anastácia destacou que o documentário busca dar visibilidade a uma realidade frequentemente invisibilizada. “Falar do Cafuné é desafiador porque estamos falando de um território que protege o mundo. O Cafuné é muito mais que um filme. Ele mostra o tamanho de algumas das muitas dificuldades que os quilombos enfrentam”, afirmou.
Para ele, a produção também evidencia a força das comunidades na defesa de seus modos de vida. “Seguimos resistindo e protegendo os territórios e também o mundo”, acrescentou.
Compromisso institucional

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
A atividade contou com a participação de representantes de ministérios, organizações da sociedade civil, defensoras de direitos humanos e integrantes de missões diplomáticas internacionais. As intervenções reforçaram a necessidade de ampliar ações voltadas à segurança das lideranças quilombolas e de fortalecer iniciativas articuladas entre Estado e sociedade civil.
Representando a Fundação Ibirapitanga, Fernanda Lemos destacou a relevância do projeto para o fortalecimento da atuação política quilombola. “O lançamento do plano representa mais que um passo dentro de um programa de proteção. É uma honra para o Ibirapitanga participar dessa construção liderada pelas próprias mulheres quilombolas”, afirmou.
A representante da Embaixada da França, Cinthia Orraio, ressaltou a importância da cooperação internacional para iniciativas voltadas à igualdade racial e de gênero. “Tenho muito orgulho de ter apoiado o projeto Cafuné. Ainda temos muitos desafios para alcançar a igualdade de gênero e superar o racismo, mas iniciativas como esta mostram caminhos possíveis para avançarmos”, declarou.
A diplomata também observou que os desafios enfrentados pelas mulheres quilombolas dialogam com debates globais sobre direitos humanos, enfrentamento das desigualdades e defesa de comunidades tradicionais, reforçando a relevância da experiência brasileira para outros contextos internacionais.
Proteção que nasce da experiência

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
Ao longo do debate, diferentes participantes ressaltaram que a elaboração do documento está diretamente ligada às vivências de lideranças que enfrentam situações de risco em suas comunidades. As falas evidenciaram que a violência contra defensoras quilombolas não afeta apenas indivíduos, mas compromete coletivamente a continuidade dos modos de vida e a defesa dos territórios tradicionais.
A coordenadora executiva da CONAQ e defensora Sandra Pereira Braga destacou que as ameaças sofridas pelas lideranças estão diretamente relacionadas à defesa dos direitos coletivos. “As ameaças vêm justamente porque defendemos nossos povos e nossos territórios. Incomodamos aqueles que querem retirar nossos direitos. Por isso seguimos trabalhando todos os dias para proteger nossas comunidades”, afirmou.
O debate também trouxe à memória casos emblemáticos de violência contra lideranças quilombolas, reforçando a urgência da criação de mecanismos mais eficientes de prevenção e acolhimento.
Legado para o futuro

Foto: João Vitor Tavares/CONAQ
Ao reunir memória, escuta, formação e articulação política, o plano se consolida como um marco na trajetória do movimento quilombola. A publicação e o documentário deixam como legado um conjunto de reflexões e práticas construídas pelas próprias mulheres quilombolas, fortalecendo caminhos para que novas gerações sigam defendendo seus territórios, suas identidades e seus modos de vida.
Ao encerrar a atividade, a coordenadora nacional da CONAQ, Selma Dealdina Mbaye, destacou que o Cafuné nasceu da necessidade de responder a situações concretas enfrentadas por defensoras quilombolas que vivenciam ameaças e perseguições em seus territórios.
“Eram companheiras que não tinham o mínimo para garantir sua segurança. Construímos esse projeto para oferecer acolhimento, apoio jurídico e psicológico, mas também para mostrar que nenhuma mulher quilombola precisa enfrentar essas situações sozinha”, afirmou.
Selma também ressaltou o potencial da iniciativa para contribuir com o aprimoramento das políticas públicas existentes no país. “Esperamos que este material chegue às mãos de pessoas que possam compreender que os programas de proteção precisam mudar. O Cafuné ajuda a entender como a proteção acontece hoje e o potencial que existe para construir mecanismos mais eficazes e mais humanos”, concluiu.
Mais do que um instrumento voltado à segurança, a iniciativa se consolida como um legado político construído pelas próprias quilombolas. Ao transformar afeto, escuta e solidariedade em ações concretas, o projeto reafirma que defender quem sustenta a luta cotidiana também é garantir a continuidade dos territórios, das memórias ancestrais e dos modos de vida que mantêm viva a resistência quilombola.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 23:06:02
Categoria: Mulheres Quilombolas