30 de junho de 2026
Atlas de Sociobioeconomia Quilombola fortalece planejamento territorial e valoriza saberes tradicionais no Quilombo Cachoeira do Jaú, no Amazonas
Projeto da CONAQ realiza diagnóstico participativo para fortalecer a bioeconomia e a gestão territorial.
No coração do Parque Nacional do Jaú, onde os rios conduzem histórias centenárias e a floresta guarda conhecimentos transmitidos entre gerações, o Quilombo Cachoeira do Jaú recebeu mais uma etapa do Projeto Atlas de Sociobioeconomia Quilombola da Amazônia. Durante dois dias de atividades, consultores, comunicadores, geógrafos e especialistas da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) realizaram oficinas, escutas, mapeamentos e diagnósticos participativos voltados ao fortalecimento da bioeconomia, da gestão territorial e da autonomia comunitária.
Muito mais do que um levantamento técnico, a iniciativa transformou-se em um espaço de diálogo, troca de conhecimentos e construção coletiva. Ao longo das atividades, moradores compartilharam experiências, identificaram desafios, apontaram potencialidades e reafirmaram a importância de preservar um território que reúne produção agrícola, artesanato, turismo de base comunitária e modos de vida profundamente conectados à floresta.
O projeto em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID contempla 11 comunidades distribuídas por cinco estados da Amazônia Legal e busca construir um grande banco de informações produzido pelas próprias comunidades, fortalecendo a incidência política, a formulação de políticas públicas e a defesa dos territórios quilombolas.
Recepção marca início de uma construção coletiva

Foto: Mylena Pereira/CONAQ
A programação começou na tarde de domingo (28), quando moradores receberam a equipe da CONAQ na comunidade Cachoeira do Jaú. Coube à coordenadora executiva do projeto, Laura Silva, apresentar os objetivos da iniciativa e explicar como será desenvolvido o trabalho ao longo das visitas.
Segundo ela, cada informação produzida pertence às próprias comunidades e servirá como instrumento permanente para fortalecer o planejamento territorial.
“Para nós é uma satisfação poder estar aqui, poder fazer esse levantamento e, acima de tudo, vocês terem aberto as portas da comunidade para que pudéssemos realizar esse trabalho. Depois nós voltaremos para apresentar o resultado para vocês. O projeto compreende 11 comunidades de cinco estados. Aqui no Amazonas são duas. Nós possuímos uma equipe grande para compreender diversas áreas e possibilitar nossas vindas. Vamos criar todo um sistema com as informações que estamos colhendo das comunidades. Não é um sistema da CONAQ, é das comunidades e servirá para diversas situações, desde identificar onde estamos até compreender nossas limitações e potencialidades”, destacou Laura Silva.
A apresentação também permitiu que os moradores conhecessem cada integrante da equipe e entendessem como diferentes áreas, georreferenciamento, planejamento territorial, bioeconomia e comunicação, dialogam para construir um retrato amplo do território.
O Quilombo Cachoeira do Jaú é formado por quatro comunidades, Cachoeira do Jaú, Patauá, Seringalzinho e Lázaro, reunindo 21 famílias. Entre suas principais atividades econômicas estão a produção de farinha, tucupi, goma, mel, artesanato, pesca artesanal e iniciativas de turismo comunitário. O território abriga ainda seis casas de farinha, fundamentais para a economia local e para a preservação dos conhecimentos tradicionais.
Mapear o território é reconhecer quem vive nele
Logo após a apresentação, teve início uma das etapas centrais do projeto: a oficina de georreferenciamento. Conduzida pelo consultor e geógrafo Heitor Paulo, a atividade reuniu moradores para desenhar coletivamente o mapa do território, identificando locais considerados fundamentais para a vida comunitária.
“Sou responsável pela parte do georreferenciamento do projeto. Para realizar essa etapa vou precisar da ajuda de vocês, porque ninguém conhece melhor o território do que quem vive nele”, afirmou. O exercício foi muito além da localização geográfica. Cada rio, trilha, escola, igreja, casa de farinha e área produtiva desenhada no papel representava parte da memória coletiva da comunidade.
Durante a atividade, os próprios moradores apontaram elementos que consideram indispensáveis para representar a identidade do quilombo, como o Rio Jaú, espaços de convivência, áreas produtivas e equipamentos comunitários. A construção coletiva do mapa permitirá que essas informações integrem o Atlas, fortalecendo processos futuros de planejamento, defesa territorial e elaboração de políticas públicas.
Comunicação fortalece memória, identidade e protagonismo das novas gerações
Enquanto uma parte da comunidade participava do georreferenciamento, outro grupo se reunia para uma oficina de fotografia conduzida pelas comunicadoras Mylena Pereira e Thaís Rodrigues.
A atividade reuniu crianças e adolescentes para discutir o papel da imagem como ferramenta de memória, identidade e valorização do território.
Antes mesmo de aprender técnicas de enquadramento, iluminação e composição, os participantes refletiram sobre o significado da fotografia. Mais do que registrar paisagens bonitas, fotografar significa preservar histórias, guardar lembranças e mostrar ao mundo aquilo que torna cada território único.
Durante a oficina, os jovens realizaram um passeio pela comunidade registrando aquilo que mais gostam em seu quilombo. Cada participante escolheu uma fotografia especial, que posteriormente foi revelada e entregue como lembrança da atividade.
A emoção tomou conta da turma quando as imagens impressas chegaram às mãos de seus autores. “A fotografia tem o dom não apenas de registrar um momento, mas de contar histórias. Uma foto pode nos levar para outro lugar, guardar a lembrança do nosso território, dos nossos mais velhos e de tudo aquilo que faz parte da nossa história”, explicaram as comunicadoras durante a oficina.
Mais do que ensinar técnicas fotográficas, a atividade despertou o olhar das novas gerações para a importância de registrar a própria realidade com suas próprias narrativas. Assim, cada imagem produzida tornou-se também um exercício de pertencimento.
Planejamento comunitário transforma desafios em estratégias para o futuro
Na manhã de segunda-feira (29), a programação teve continuidade com a oficina de Gestão Territorial Quilombola (PGTAQ), conduzida pelo consultor Hilton Lucas. O encontro representou um dos momentos mais participativos da visita, reunindo moradores para refletir sobre o presente e, principalmente, construir coletivamente caminhos para o futuro da comunidade.
A proposta foi demonstrar que o planejamento territorial não é um documento elaborado de forma externa, mas um instrumento construído pelas próprias famílias quilombolas para organizar prioridades, proteger o território, fortalecer a produção e orientar políticas públicas capazes de responder às necessidades locais.
Logo no início da atividade, Hilton fez uma comparação simples, aproximando o conceito de planejamento da realidade vivida por todas as famílias.
“Está sendo um privilégio muito grande estar aqui. Nossa primeira atividade foi no Maranhão e agora vamos trabalhar essa parte de planejamento. O que é o Plano de Gestão Territorial e Ambiental? Toda família se planeja de alguma forma dentro de casa. Você conversa com seu esposo, conversa com sua esposa sobre como vai organizar o mês, o ano. O PGTAQ funciona mais ou menos assim. É o planejamento da comunidade para cuidar do seu território e do seu futuro”, explicou o consultor.
Ao longo da oficina, os moradores compreenderam que o Plano de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola (PGTAQ) é um instrumento capaz de reunir decisões coletivas sobre proteção ambiental, produção, educação, saúde, cultura e organização comunitária, permitindo que as prioridades definidas pelos próprios quilombolas orientem projetos, investimentos e políticas públicas.
Mais do que um documento técnico, o PGTAQ representa um compromisso coletivo com o fortalecimento da autonomia territorial.
Quatro eixos estruturam a construção do Plano de Gestão Territorial Quilombola

Foto: Mylena Pereira/CONAQ
Durante a oficina, Hilton apresentou os quatro grandes eixos que organizam o planejamento. O primeiro deles trata da produção e geração de renda, buscando fortalecer atividades produtivas sustentáveis que ampliem a autonomia econômica das famílias.
O segundo eixo aborda o meio ambiente e o território, priorizando a conservação da biodiversidade, a proteção dos recursos naturais e o uso sustentável das áreas ocupadas historicamente pelas comunidades quilombolas.
A terceira dimensão concentra-se em saúde e educação, defendendo o acesso a serviços públicos de qualidade sem desconsiderar os saberes tradicionais construídos ao longo de gerações.
Por fim, o quarto eixo trabalha a cultura e organização social, valorizando a identidade quilombola, fortalecendo associações comunitárias e ampliando a participação das famílias nas decisões sobre seus territórios.
Ao compreender essa metodologia, os moradores perceberam que todas essas áreas estão profundamente conectadas. Não é possível fortalecer a produção sem cuidar do território, assim como não há desenvolvimento sustentável sem educação, saúde e valorização cultural.
Organização fortalece a defesa dos direitos quilombolas
Durante o encontro, o consultor também apresentou um panorama sobre a trajetória da CONAQ e sua importância na conquista de direitos das comunidades quilombolas em todo o país.
Ao lembrar que a organização completou 30 anos em 2026, o consultor destacou que a articulação nacional nasceu justamente da necessidade de reunir diferentes territórios em torno de uma mesma pauta: a defesa da terra, da cultura e da dignidade das famílias quilombolas.
“Quem nos representa hoje no Brasil é a CONAQ, com sede em Brasília, e em todos os estados existem coordenações estaduais. Desde a década de 1990 ela atua pela garantia dos nossos direitos à saúde, educação, território, moradia e tantas outras políticas públicas fundamentais para as comunidades quilombolas”, ressaltou.
A fala reforçou que iniciativas como do projeto não surgem de forma isolada, mas fazem parte de uma trajetória construída ao longo de décadas de organização política do movimento quilombola brasileiro.
Diagnóstico participativo revela potencialidades e desafios do território
Depois da apresentação dos conceitos, teve início uma das atividades mais importantes da oficina: o diagnóstico comunitário. Em uma grande roda de conversa, moradores passaram a identificar, coletivamente, as principais forças, fraquezas, oportunidades e ameaças presentes no território.
A metodologia permitiu que diferentes gerações compartilhassem percepções sobre o cotidiano da comunidade. Foram lembradas as riquezas naturais, a força da produção tradicional, a existência das casas de farinha, a organização comunitária e o potencial turístico existente na região.
Ao mesmo tempo, também surgiram preocupações relacionadas às dificuldades de acesso às políticas públicas, infraestrutura limitada, desafios para comercialização da produção, acesso à saúde, permanência da juventude na comunidade e necessidade de ampliar investimentos.
Mais do que listar problemas, a dinâmica mostrou que cada desafio pode se transformar em prioridade para futuras ações do território. Ao final da atividade, os moradores compreenderam que o planejamento nasce justamente da capacidade de transformar preocupações em estratégias coletivas de enfrentamento.
Esse processo participativo fortalece a autonomia comunitária porque garante que o futuro da Cachoeira do Jaú seja construído pelos próprios quilombolas, respeitando seus conhecimentos, sua cultura e sua forma de viver.
Bioeconomia evidencia a força produtiva do Quilombo Cachoeira do Jaú

Foto: Mylena Pereira/CONAQ
Após as discussões sobre planejamento territorial, os trabalhos avançaram para uma das etapas centrais do Projeto Atlas de Sociobioeconomia Quilombola da Amazônia: o diagnóstico das cadeias produtivas presentes no território.
Conduzida pelos consultores Danilo Miranda e Maria Helena, a atividade buscou compreender como a comunidade produz, comercializa e agrega valor aos seus produtos, identificando potencialidades, gargalos e oportunidades para ampliar a geração de renda sem abrir mão da preservação ambiental e dos modos de vida tradicionais.
Mais do que elaborar um inventário econômico, a oficina permitiu enxergar a bioeconomia a partir do olhar dos próprios quilombolas. Cada relato evidenciou que produzir na Cachoeira do Jaú significa manter viva uma relação ancestral com a floresta, com os rios e com os conhecimentos transmitidos pelas gerações mais velhas.
Durante o diálogo, moradores apresentaram o funcionamento das principais atividades produtivas desenvolvidas na comunidade, explicando desde as etapas de produção até os desafios enfrentados para escoar os produtos e ampliar a comercialização.
Produção tradicional sustenta renda, cultura e permanência no território
Ao longo da conversa, tornou-se evidente que a economia da Cachoeira do Jaú está profundamente conectada ao território. A mandioca ocupa lugar de destaque, dando origem à farinha, ao tucupi e à goma, alimentos que fazem parte da identidade alimentar amazônica e representam importante fonte de renda para diversas famílias.
O artesanato produzido pelas mulheres também apareceu como uma atividade de grande relevância econômica e cultural, reunindo técnicas tradicionais que expressam a identidade quilombola e valorizam matérias-primas encontradas na própria floresta. Outro elemento que ganhou destaque foi a produção de mel, desenvolvida de forma integrada ao ambiente natural, além da pesca artesanal, responsável por complementar tanto a alimentação quanto a economia das famílias.
Somadas, essas atividades demonstram que a bioeconomia praticada na comunidade não está baseada na exploração predatória dos recursos naturais, mas na convivência equilibrada com a floresta.
Esse modelo de produção preserva conhecimentos ancestrais e fortalece a permanência das famílias em seus territórios.
Turismo de base comunitária amplia possibilidades para o desenvolvimento local
Durante a oficina, um aspecto chamou a atenção da equipe técnica: o potencial do turismo comunitário desenvolvido pelos moradores. Ao analisar os relatos apresentados desde o primeiro dia de atividades, os consultores identificaram que, além da agricultura e do artesanato, a comunidade reúne condições para consolidar o turismo como uma importante cadeia produtiva.
A localização privilegiada dentro do Parque Nacional do Jaú, a riqueza ambiental e cultural e o protagonismo das famílias criam oportunidades para receber visitantes interessados em conhecer a história, os saberes e a biodiversidade da região. Foi justamente essa percepção que levou a consultora Maria Helena a destacar a diversidade econômica existente no território.
“Trazendo em mente as conversas de ontem e de hoje, eu particularmente consigo visualizar duas maiores cadeias produtivas aqui de vocês: o cultivo da mandioca para produção de farinha e também o artesanato. Além disso, consegui perceber uma questão muito forte relacionada ao turismo. Então já temos três cadeias muito fortes”, avaliou.
A análise foi compartilhada por Danilo Miranda, que reforçou o potencial das diferentes atividades desenvolvidas na comunidade. “Dentro dessas conversas que tivemos desde ontem até hoje, consigo visualizar duas grandes cadeias produtivas: a produção da mandioca, da farinha, e também o artesanato. Hoje percebi uma questão muito forte ligada ao turismo. Acho que aí já existem três cadeias produtivas bastante consolidadas”, destacou o consultor.
As observações demonstram que o Projeto Atlas busca olhar para além das atividades tradicionalmente associadas à produção rural, reconhecendo também experiências ligadas ao turismo sustentável como parte da bioeconomia quilombola.
Mulheres impulsionam iniciativas econômicas no território

Foto: Mylena Pereira/CONAQ
Durante o diálogo, uma moradora apresentou como as atividades produtivas são organizadas pela própria comunidade e destacou o protagonismo das mulheres na construção das iniciativas econômicas.
Segundo ela, diferentes grupos atuam de forma integrada para fortalecer o turismo e a produção local.
“Nossa comunidade de turismo está em andamento. Temos o grupo dos canoeiros, responsável pela canoagem, e nós, mulheres, produzimos nossos artesanatos. Além disso, temos a mandioca e o mel de abelha”, relatou.
A fala evidencia como a geração de renda acontece de maneira coletiva, envolvendo homens, mulheres e jovens em diferentes atividades que dialogam entre si.
Enquanto alguns conduzem visitantes pelos rios da região, outros produzem alimentos, confeccionam artesanato e preservam práticas tradicionais que fortalecem a identidade do território.
Bioeconomia quilombola nasce do conhecimento acumulado por gerações
Ao longo da oficina, ficou evidente que cada cadeia produtiva está diretamente ligada aos saberes ancestrais preservados pelas famílias.
A produção da farinha, por exemplo, reúne conhecimentos transmitidos há décadas sobre cultivo da mandioca, beneficiamento, preparo da massa, torra e armazenamento.
O artesanato incorpora técnicas aprendidas com pais, mães, avós e lideranças comunitárias, transformando elementos da floresta em peças que carregam identidade, memória e pertencimento.
Já o turismo de base comunitária permite que visitantes conheçam não apenas paisagens naturais, mas também a história do quilombo, suas formas de organização, sua culinária e sua cultura.
Nesse contexto, a bioeconomia deixa de representar apenas uma alternativa de geração de renda para assumir um papel estratégico na valorização dos modos de vida quilombolas.
O trabalho desenvolvido pelo Projeto Atlas evidencia justamente essa perspectiva: compreender que desenvolvimento econômico e preservação ambiental caminham juntos quando os territórios são protagonistas das decisões.
Diagnóstico fortalece caminhos para novos investimentos

Foto: Mylena Pereira/CONAQ
Ao reunir todas essas informações, o Projeto Atlas constrói um diagnóstico detalhado sobre a realidade produtiva da comunidade.
Esses dados servirão de base para identificar oportunidades de fortalecimento das cadeias econômicas existentes, orientar futuras ações de assistência técnica, ampliar o acesso a políticas públicas e apoiar estratégias capazes de agregar valor aos produtos quilombolas.
Mais do que apontar vocações econômicas, o levantamento evidencia que a Cachoeira do Jaú reúne condições para ampliar sua autonomia produtiva sem abrir mão da proteção da floresta e da preservação de seus conhecimentos tradicionais.
Cada atividade mapeada reforça que o futuro da bioeconomia amazônica passa necessariamente pelo reconhecimento do papel desempenhado pelas comunidades quilombolas na conservação da sociobiodiversidade e na construção de modelos sustentáveis de desenvolvimento.
Casa de farinha preserva memória, trabalho coletivo e identidade quilombola

Foto: Thaís Rodrigues/CONAQ
Encerrando as atividades foi realizada uma visita a uma das seis casas de farinha existentes no território. O espaço, muito além de uma unidade produtiva, simboliza a continuidade de um modo de vida construído coletivamente e transmitido entre gerações.
Recebidos pelo presidente da Associação da Comunidade de Cachoeira do Jaú, Seu Edineu Gonçalves, os consultores acompanharam todo o processo de produção da farinha, desde a chegada da mandioca até a torra realizada em grandes tachos, etapa que exige conhecimento técnico, experiência e trabalho compartilhado entre as famílias.
Cada fase da produção revelou que a farinha produzida na comunidade carrega muito mais do que valor econômico. Ela representa organização comunitária, soberania alimentar, permanência no território e preservação de saberes ancestrais que resistem ao tempo.
A visita permitiu que os consultores compreendessem, na prática, aquilo que havia sido debatido nas oficinas: a bioeconomia quilombola nasce da relação equilibrada entre as pessoas, a floresta e os conhecimentos acumulados ao longo de décadas.
Liderança comunitária destaca avanços e aponta desafios para consolidar o território
Durante a visita, o líder da comunidade compartilhou parte da trajetória da comunidade e explicou que, embora o reconhecimento do quilombo represente uma importante conquista, ainda há um longo caminho para consolidar direitos e ampliar as oportunidades para as famílias.
Segundo ele, a criação e o fortalecimento das associações comunitárias permitiram ampliar o acesso à informação e fortalecer a organização política do território. “A história do quilombo já é reconhecida há muito tempo, mas antes a gente não ficava muito informado. Sabíamos que existia o quilombo, mas agora, com as associações, tanto a Associação do Tambor quanto a nossa, passamos a ter mais informações e conseguimos agir melhor. Hoje estamos organizando toda a documentação, o registro da área e do território. A nossa comunidade já é registrada como quilombola, temos os documentos, mas ainda precisamos organizar muita coisa para fortalecer esse processo.”
Morador da região desde o nascimento, Edineu também fez questão de destacar sua ligação com o território. “Nasci e me criei aqui dentro desse rio. Tenho 48 anos de vida e 48 anos morando no Parque Nacional do Jaú.” A fala sintetiza o vínculo profundo entre comunidade e território, demonstrando que a permanência das famílias representa também a continuidade da conservação ambiental da região.
Investimentos são essenciais para ampliar a produção
Ao ser questionado sobre os principais desafios enfrentados pela comunidade, o presidente da associação foi direto ao apontar que o fortalecimento da bioeconomia depende da ampliação dos investimentos públicos e do acesso a projetos estruturantes.
Para ele, produzir mais e diversificar a economia local passa, necessariamente, pelo acesso a recursos que permitam estruturar melhor as iniciativas já existentes. “Acho que a gente precisa mais de recursos para legalizar tudo direitinho e conseguir dar um encaminhamento melhor para frente. Sem recursos ninguém consegue avançar. Tendo um projeto que funcione de verdade, acredito que conseguimos caminhar melhor e dar passos maiores.”
A avaliação dialoga diretamente com os objetivos do Projeto Atlas, que busca justamente identificar gargalos capazes de orientar futuras ações de fortalecimento das cadeias produtivas e ampliar o acesso das comunidades às políticas públicas.
Visibilidade para o território
Quem também destacou a importância da iniciativa foi Elenilson Oliveira, quilombola do Tambor e agente territorial da Cachoeira do Jaú. Segundo ele, a presença da equipe representa um momento aguardado pela comunidade, que espera ver os resultados do levantamento transformados em ações concretas.
“Esse projeto tem vários objetivos e o pessoal está muito feliz com a visita. Todos esperam que vocês voltem trazendo os resultados. A Cachoeira do Jaú é um ponto turístico do Parque Nacional do Jaú e recebe muitos visitantes. Esse projeto também vai ajudar a dar mais visibilidade para a nossa comunidade.”
A expectativa demonstra que o Atlas é percebido não apenas como um levantamento técnico, mas como uma ferramenta capaz de fortalecer a identidade do território e ampliar seu reconhecimento dentro e fora do Amazonas.
Educação e saúde aparecem entre as principais prioridades da comunidade
Durante as escutas realizadas ao longo da visita, outra liderança comunitária chamou atenção para dificuldades enfrentadas pelas famílias, especialmente nas áreas de educação e saúde.
Segundo a vice-presidente da Associação da Comunidade de Cachoeira do Jaú, a ausência de ensino médio obriga adolescentes a deixarem o território para continuar os estudos, provocando um processo de afastamento que muitas vezes impede seu retorno.
“O que a gente espera é melhoria, conhecimento e também garantir nossos direitos sobre a terra. As crianças estudam aqui apenas até o nono ano. Depois precisam sair da comunidade para continuar os estudos e muitos acabam não voltando mais. Se tivéssemos condições para que permanecessem aqui seria uma conquista muito grande para todos nós.”
Na área da saúde, a realidade também preocupa. A comunidade não possui posto de atendimento permanente nem equipe fixa de profissionais, dependendo de visitas esporádicas ao longo do rio. “Nós não temos posto de saúde nem agente de saúde fixo na comunidade. Existe apenas um profissional que percorre todo o rio e passa aqui uma vez por mês. Se acontece algum acidente, somos nós que precisamos buscar ajuda. Conseguimos uma voadeira pequena doada pela prefeitura, mas ainda precisamos de alguém disponível para transportar quem precisar de atendimento. Isso faria uma grande diferença para a comunidade.”
Os relatos reforçam que fortalecer a bioeconomia também significa garantir condições dignas para que as famílias permaneçam em seus territórios, com acesso a serviços públicos essenciais.
Um convite para conhecer o quilombo

Foto: Mylena Pereira/CONAQ
Ao final da visita, uma das lideranças deixou uma mensagem dirigida às pessoas que ainda não conhecem a Cachoeira do Jaú. Mais do que um convite ao turismo, suas palavras representam o desejo de aproximar a sociedade da realidade vivida pelas comunidades quilombolas amazônicas.
“A mensagem que deixo para quem ainda não conhece nossa comunidade é que venha nos visitar, conhecer nosso dia a dia, ouvir nossa história e trazer ideias que possam contribuir para melhorar a vida de todos nós.”
Durante dois dias de oficinas, mapas ganharam nomes, rios foram redesenhados pela memória coletiva, cadeias produtivas foram reconhecidas pelas próprias famílias e histórias de resistência encontraram espaço para serem registradas.
Ao reunir georreferenciamento, comunicação comunitária, gestão territorial, diagnóstico produtivo e escuta das lideranças, o projeto fortalece instrumentos que poderão orientar políticas públicas, ampliar investimentos e valorizar iniciativas econômicas construídas de forma sustentável pelas comunidades quilombolas.
Mais do que catalogar informações, o Atlas reconhece que cada território guarda soluções desenvolvidas por gerações de homens e mulheres que aprenderam a produzir sem destruir, conservar sem abrir mão do desenvolvimento e transformar conhecimentos ancestrais em estratégias para o futuro.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 23:29:01
Categoria: Territórios Quilombolas