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22 de maio de 2026

Atlas da Sociobioeconomia Quilombola inicia mapeamento no Maranhão e enfatiza potencial produtivo dos territórios amazônicos

Projeto da CONAQ em parceria com o BID percorreu comunidades de Picadas, Mata Olímpio e São José para fortalecer cadeias produtivas, valorizar saberes tradicionais e construir estratégias de autonomia econômica.

Os territórios quilombolas guardam muito mais do que histórias de resistência. Eles abrigam conhecimentos ancestrais, formas próprias de organização comunitária e uma economia profundamente conectada ao cuidado com a terra, com a floresta e com a vida. Foi a partir dessa compreensão que o Projeto Atlas da Sociobioeconomia Quilombola da Amazônia iniciou sua primeira etapa de campo no Maranhão, passando por comunidades de dois municípios: Picadas, localizada em Cajapió, e Mata Olímpio e São José, em São Bento.

A iniciativa, desenvolvida pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), tem como objetivo mapear cadeias produtivas, fortalecer a gestão territorial e ampliar a visibilidade da economia construída nos quilombos da Amazônia Legal.

Mais do que um levantamento técnico, o projeto aposta na escuta, na construção coletiva e no reconhecimento dos saberes que sustentam a vida nos territórios. Confira um pouco do que rolou!

Onde o babaçu, a mandioca e os quintais produtivos sustentam a comunidade

Foto: Acervo CONAQ

A primeira parada da equipe foi no Quilombo Picadas, localizado no município de Cajapió. Recebidos com acolhimento e forte participação comunitária, os pesquisadores, técnicos e comunicadores iniciaram uma série de oficinas voltadas à identificação das principais atividades econômicas desenvolvidas no território.

Durante os encontros, moradores apontaram o babaçu, a mandioca, os quintais produtivos e o artesanato como algumas das principais cadeias socioprodutivas da comunidade. A partir das rodas de conversa, também foram identificadas oportunidades, desafios e caminhos para fortalecer a geração de renda local.

O diagnóstico inicial revelou que investimentos em equipamentos para beneficiamento da produção podem ampliar a capacidade produtiva das famílias e agregar valor aos produtos comercializados pela comunidade.

Ao mesmo tempo, ficou evidente que a sociobioeconomia quilombola já faz parte do cotidiano local, presente na reutilização de recursos, na produção familiar, na circulação de alimentos e nas práticas comunitárias que conectam economia, cultura e preservação ambiental.

Construção coletiva para pensar o futuro

Foto: Acervo CONAQ

Além do mapeamento produtivo, as oficinas também permitiram uma reflexão sobre as potencialidades e os desafios enfrentados pela comunidade.

A agente territorial Netta Moraes, do Quilombo Picadas, destacou a importância do projeto para a valorização dos conhecimentos locais e para o fortalecimento da economia comunitária.

“Foi uma experiência incrível de descoberta de conhecimentos e aprendizado com esse projeto sendo desenvolvido no território. As descobertas incluem também cadeias produtivas e quintais frutíferos que temos e que ainda são cultivados, como o babaçu e a farinha de mandioca. A vinda da equipe foi muito importante para nós. É gratificante perceber tudo o que temos e como isso pode melhorar a economia do território, valorizando nossa cultura e ancestralidade”, afirma.

Outro destaque da passagem por Picadas foi a realização da oficina de comunicação quilombola, que reuniu moradores para atividades de fotografia, vídeo e construção de narrativas próprias sobre o território.

Entre memórias, histórias e afetos, os participantes registraram aquilo que mais valorizam em sua comunidade, reforçando a importância de que os próprios quilombolas contem suas histórias.

Mata Olímpio e São José fortalecem planejamento territorial

Foto: Acervo CONAQ

Após a passagem por Cajapió, a equipe seguiu para os quilombos Mata Olímpio e São José, localizados no município de São Bento, também inseridos no bioma amazônico.

As atividades começaram com a construção coletiva das diretrizes do Plano de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola (PGTAQ), instrumento que busca fortalecer o cuidado com o território, orientar ações futuras e ampliar a autonomia comunitária.

A presidenta da associação local e agente territorial do projeto, Dionizia Soares Campos, destacou o envolvimento dos moradores durante as atividades.

“Os moradores se envolveram ativamente e acompanharam a equipe, proporcionando um intercâmbio de saberes e mostrando a riqueza cultural presente nos quilombos. A realização desse projeto é um marco para a autonomia territorial, para a preservação da sociobioeconomia e para o fortalecimento da identidade quilombola”, ressalta.

Assim como em Picadas, a oficina de comunicação também abriu espaço para trocas de experiências, fortalecimento das narrativas locais e valorização dos modos de vida comunitários.

Farinha de mandioca: alimento, renda e ancestralidade

Foto: Acervo CONAQ

Durante a passagem pelos três territórios, um elemento apareceu de forma recorrente nas conversas, nas visitas e nos diagnósticos: a farinha de mandioca.

Produzida a partir do trabalho coletivo das famílias, ela representa muito mais do que um alimento. Está ligada à geração de renda, à autonomia econômica e à transmissão de conhecimentos ancestrais preservados por gerações.

Do plantio à colheita, da raspagem à torra, cada etapa envolve saberes compartilhados e reafirma a importância das casas de farinha como espaços de convivência, trabalho e fortalecimento comunitário.

A presença dessa cadeia produtiva nos três quilombos demonstra como a sociobioeconomia está profundamente conectada à identidade dos territórios.

Uma economia que nasce da vida coletiva

Foto: Acervo CONAQ

Para Danilo Miranda, consultor de fortalecimento da bioeconomia, a experiência nos quilombos maranhenses revelou que os conceitos tradicionais de bioeconomia não conseguem explicar plenamente a realidade encontrada nas comunidades.

“Percebi que cultura, economia e território não podem ser dissociados. Nos quilombos existe uma economia própria, que não se separa do cotidiano das pessoas. Diferente da economia de mercado, onde quase tudo vira mercadoria, os produtos carregam a energia vital da comunidade. O ‘nós’ acaba sendo mais importante do que o ‘eu’”, observou.

A mesma percepção foi compartilhada por Hilton Lucas Gonçalves (Plano GTAQ) e Mylena Cruz, (comunicadora territorial) que destacaram a importância das rodas de conversa realizadas com as comunidades.

“Ouvir e também ser ouvido foi o que marcou nossas atividades, construídas a partir da troca de experiências e saberes entre todos os participantes”, relataram.

Para Maria Helena, integrante da equipe com foco no diagnóstico, a vivência nos territórios foi além do trabalho de campo.

“Cheguei com um olhar técnico voltado para os processos produtivos, mas saí profundamente atravessada pelas histórias, pelos modos de vida e pela força coletiva dos territórios. Estar nos quilombos reafirma que a sociobiodiversidade está diretamente ligada à resistência, ao cuidado com o território e à preservação dos saberes tradicionais”, pontuou..

Mapeando caminhos para fortalecer a Amazônia quilombola

Foto: Acervo CONAQ

A etapa realizada no Maranhão marca apenas o início de uma jornada que percorrerá diferentes estados da Amazônia Legal, reunindo informações, experiências e conhecimentos que irão compor o Atlas da Sociobioeconomia Quilombola da Amazônia.

O projeto  busca produzir dados inéditos sobre as cadeias produtivas quilombolas, fortalecer processos de gestão territorial e ampliar a incidência política das comunidades na formulação de políticas públicas.

Ao reconhecer e valorizar aquilo que já existe nos territórios, a iniciativa reafirma uma verdade construída há gerações pelos povos quilombolas: a economia, a cultura, a floresta e a vida caminham juntas. E é justamente dessa relação que nasce a força da economia quilombola amazônica.