Relatos de vida, dedicação e luta

Terceira reportagem de série especial sobre mulheres dialoga com campanha UnB Mais Humana, valorizando trajetórias de servidoras e alunas da Universidade.

 

Reportagens especiais abordam histórias de mulheres e o protagonismo feminino da instituição. Arte: Secom / UnB

 

Direito à educação, ao bem-estar, à liberdade de expressão, de locomoção e de organização. Igualdade entre mulheres e homens. Proteção contra tortura, contra a discriminação por raça, cor, sexo, religião ou opinião política. Princípios garantidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos que se transformaram em bandeiras nas mãos de inúmeras alunas, técnicas, professoras e terceirizadas que ajudam a construir uma UnB Mais Humana.

Givânia Maria da Silva é uma delas. A doutoranda do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília nasceu no quilombo de Conceição das Crioulas, interior de Pernambuco. “A comunidade surgiu no início do século XIX, a partir de um grupo de mulheres. Nascemos feministas e na luta pela formação do nosso território”, se orgulha.

A mestra em políticas públicas e gestão da educação é professora. Escolheu seguir seu caminho no próprio povoado e o modelo de educação escolar quilombola praticado em Conceição das Crioulas é referência nacional.

“Sou a primeira professora de dentro da comunidade, a primeira a entrar para a faculdade. Hoje, nosso quilombo figura entre os com maior índice de graduados do país. Todos os professores são da comunidade, com curso superior, muitos com especialização. E somos três professoras mestras pela UnB”.

“O desafio de conviver com o racismo é cotidiano. O racismo não tira férias, não tira recesso; anoitece e amanhece de plantão e mata as pessoas fisicamente, biologicamente, intelectualmente e psicologicamente”, diz Givânia Maria da Silva. Foto: Arquivo pessoal

A escolha pela educação foi, no início, a única oportunidade profissional vislumbrada por Givânia. Mas a área logo se transformou em missão. “Fui me compreendendo, me reconhecendo e me vendo nesse papel de professora. A educação é estratégia e ferramenta para os quilombolas, grupo que ainda possui alto índice de analfabetismo”, revela.

Além das experiências como educadora em Conceição das Crioulas, a professora atuou na formulação e reestruturação da política de regularização dos territórios quilombolas e também foi secretária nacional de Políticas para Comunidades Tradicionais. Oportunidades que, para Givânia, foram fundamentais na sua vida profissional, na atuação escolar e na formação de lideranças.

A doutoranda defende reconhecimento da mulher quilombola, principalmente, do seu papel na luta por direitos ao território, à saúde e à educação. “O machismo é uma característica geral da sociedade. Mas quando se soma ao racismo, ao regionalismo, ao nosso ser rural, ele se intensifica. Por isso trabalhamos nessa perspectiva de fortalecimento das mulheres, promovendo debates sobre direitos e outras questões”.

Na UnB, ela tem um objetivo claro: dar visibilidade ao seu local de fala, às suas vivências e às suas experiências. “A universidade é espaço de disputa, com suas limitações e problemas, mas me ajuda a compreender várias coisas. Quero produzir muito para que os próximos estudantes tenham o olhar de uma mulher negra quilombola como referência científica”.

 

DIREITOS HUMANOS – A luta política sempre foi uma bandeira de Nair Heloísa Bicalho de Sousa. Desvinculá-la desse debate, portanto, é uma afronta à sua trajetória. Coordenadora do Núcleo de Estudos para Paz e Direitos Humanos (NEP/Ceam), ela afirma ser da “revolucionária geração de 1968”, descrita em suas palavras como “geração da libertação feminina, da pílula anticoncepcional, do maior movimento estudantil do mundo, do questionamento ao capitalismo e ao consumismo”.

Atitude fraterna, pluralismo e respeito às diferenças e à diversidade são condutas fundamentais para o futuro do país, na visão da professora Nair Bicalho. Foto: Beto Monteiro / Secom UnB

Aos 13 anos, integrou a juventude católica. Aos 15, foi presidente de grêmio estudantil. Enfrentou o golpe de 1964, a ditadura militar. “O movimento de mulheres teve forte papel na resistência à ditadura. Nós fomos às ruas reivindicar direitos, consagrados posteriormente na Constituição de 1988. Naquele momento, os movimentos eram de massa, mobilizados e articulados. Tudo foi ganhando corpo e a cena pública”, conta.

Nesse cenário histórico, Nair Bicalho viu as mulheres ocuparem os espaços antes dominados por homens – arte e ciência são exemplos. Assumiram, ainda, papel de protagonismo no enfrentamento à ditadura.

“Tomamos frente de movimentos em defesa dos direitos humanos, com posturas firmes pela anistia, nas buscas pelos mortos e desaparecidos políticos, nos grupos artísticos, estudantis e sindicais. Provocamos rupturas nas opções profissionais, políticas e até de vida”.

Crítica ao cenário político atual, a professora fala em retrocessos e aposta na educação em Direitos Humanos e no respeito às diferenças e à diversidade para enfrentar a conjuntura de “desmonte de direitos, sobretudo os sociais”.

“A educação é o lugar para mudar esse Brasil machista e misógino. Como diz Paulo Freire, a educação muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo. Agressividade, raiva, impaciência e intolerância precisam se transformar numa postura solidária, fraterna e alegre. Acredito nesse caminho”.

Romper barreiras e com tudo que lhe foi imposto são vitórias e lutas da estudante Madu Krasny. Foto: Amália Gonçalves / Secom UnB

 

RUPTURA – Rasgar todas as imposições determinadas desde a infância e enfrentar uma carga imensa de preconceitos são grandes superações na vida de Maria Eduarda Krasny. Madu é mulher trans, nascida da Ceilândia e aluna do curso de Letras – Português. “Tive uma educação cristã, que me obrigou a viver um estereótipo que não era meu, no qual não me sentia confortável. Me aceitar como parte da comunidade LGBT foi um processo complicado. Achava que era pecado, que eu iria pro inferno. Procurei várias igrejas querendo me curar”.

A estagiária da Coordenação dos Direitos da Mulher (Codim/DIV) relata que foi sua mãe quem a “tirou do armário”, oferecendo o apoio e o incentivo que, até então, faltava à jovem. “Vagarosamente, comecei a desconstruir algumas coisas. Eu não entendia muito sobre minha sexualidade. Comecei como não binária, não me identificava com nenhum gênero. Me assumi mulher trans aos 18 anos e foi incrível. Me encontrei, achei minha sexualidade e tive a convicção de que não preciso me encaixar num padrão específico e posso me relacionar com qualquer pessoa”, afirma.

Sua aceitação social é desafio constante. O medo de sair na rua é diário. Já sofreu ameaças e passou a sentir na pele as situações de violência e assédio às quais as mulheres estão submetidas cotidianamente. Contudo, enfrentar as realidades, mesmo que cruéis, e desconstruir o que está posto passou a ser objetivos na vida de Madu.

“Achei que tudo ia melhorar na UnB, pois sou a primeira da minha família a entrar para a Universidade. Não foi bem assim. Tive que trancar a matrícula no segundo semestre, correr atrás de emprego. Cheguei à conclusão de que precisava lutar não só para ser quem em sou, mas também para resistir e permanecer nos lugares de poder. Me juntei ao coletivo de pessoas trans e passei a lutar com mais força pelas questões LGBTs e pelas pautas raciais e de classe”.

Madu então mergulhou no universo do ensino, da pesquisa e da extensão e planeja o futuro, esperançosa para mudar sua vida, da mãe e da irmã. Faz questão de passar seu batom, de se sentir linda, e se apega à certeza de que não quer voltar a vivenciar sua experiência do passado.

“Me olhar no espelho e ver a mulher forte que me tornei faz bem para minha auto-estima. Minha família materna me enxerga e me respeita como sou. Me sinto bem mais feliz”.

A servidora Marlene Bonfim tem sua história pessoal entrelaçada com a história da Universidade. Foto: Beto Monteiro / Secom UnB

 

EXTENSÃO – São 35 anos de dedicação e amor à UnB. A produtora cultural Marlene Bonfim nasceu no interior da Bahia e veio para Brasília em busca de oportunidades de estudo e trabalho. Encontrou na Universidade o ambiente propício para conciliar as duas coisas.

“Aqui pulsa cultura e conhecimento. Nunca parei de estudar. Dentro e fora da UnB, fiz cursos de curta duração, de aperfeiçoamento, de especialização e, recentemente, terminei meu mestrado. Aqui é espaço de grande aprendizado de convivência, de relacionamento e de ver o mundo com mais firmeza”, opina.

A servidora se intitula filha da extensão, sua área desde que chegou à instituição. Trabalhou em várias frentes e adquiriu rica experiência no planejamento e execução de eventos de grande porte, como a Semana de Extensão da UnB – atualmente, Semana Universitária –, reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

“Aprendi muito nessa articulação e comunicação entre universidade, movimentos populares e segmentos sociais. Convivi com experiências e públicos diversos e essa interface com a comunidade é maravilhosa”, analisa.

Marlene Bonfim faz questão de ser “andarilha” dentro da UnB. Em busca de histórias e aprendizados, conversa na fila do Restaurante Universitário, no banco, nos corredores, nos departamentos. “Os relatórios te dão números. São as relações interpessoais que nos oferecem base para conhecer, de fato, a instituição”. Antes de finalizar, a técnica enfatiza sua mensagem: “a UnB faz parte de mim. Mas, sem dúvida, também sou parte da história deste lugar”.

 

UnB POR ELAS – Integrando as ações de valorização da história da Universidade de Brasília e de quem ajuda a construir uma UnB Mais Humana, a Secretaria de Comunicação lança esta série especial que aborda o protagonismo feminino na instituição. Toda quinta-feira do mês de março será publicada uma reportagem inédita, com o objetivo de traçar um panorama sobre as políticas institucionais de apoio e proteção ao direito das mulheres, além de contar as trajetórias de alunas, técnicas, professoras e trabalhadoras terceirizadas e seus dilemas em busca de equidade de gênero. Acompanhe!

 

Por Gisele Pimenta