09 abr

Projetos compartilham saberes sobre Jongo e Caxambu com jovens quilombolas

Preocupação nas comunidades é manter vivas as práticas tradicionais ligadas a canto, dança e tambores

Patrimônio imaterial do Brasil, o Jongo ou Caxambu é uma manifestação cultural típica dos negros que foram escravizados e seus descendentes. Tambores, ladainhas e cantos relembram os tempos ancestrais, a forma de vida, as alegrias, o sonho de liberdade e as durezas do tempo de cativeiro.

O Jongo é mais associado às comunidades litorâneas, onde o projeto escravista desenvolveu o plantio de cana, enquanto que o Caxambu se associa ao interior do Estado, onde predominou a cafeicultura nas grandes fazendas.

Como acontece em diversas cultura e comunidades, a preocupação com a transmissão dos saberes tradicionais tem sido grande num mundo em que os padrões de consumo as informação do mundo chegam- em excesso- pela internet e em celulares.

Em algumas comunidades quilombolas do Espírito Santo, projetos culturais apoiados pelo Fundo Estadual de Cultura (Funcultura) estão apostando na realização de oficinas e rodas de conversa para aproximar crianças e adolescentes das tradições e ancestralidade.

“O projeto representa sustentabilidade e resgate da história do nosso povo. Não é só saber fazer, tem que ter o resgate da história. Aqui no quilombo a diversão era ladainha, jongo e [folia de reis]. Mas por terem falecido a coisa ficou meio parada e nós, que já tínhamos um conhecimento, resolvemos resgatar”,  explica Sebastião do Nascimento, que junto com Mestre Antônio, que conduz a brincadeira do Jongo, realiza as oficinas que atendem até 25 pessoas com foco nas crianças e jovens na comunidade de São Cristóvão, município de São Mateus.

Com quatro encontros mensais, dois deles já realizados, são promovidas atividades voltadas a ensinar aos jovens e adolescentes diversas questões relacionadas à cultura e identidade local, tendo o Jongo como um dos instrumentos. Depois dos primeiros relatos orais sobre as tradições, um dos primeiros passos foi ir à mata para cortar a madeira e com ela confeccionar os tambores usados nas festas. “Num tinha diversão sem ter os instrumentos e pra ter os instrumentos precisava ter alguém que tenha desenvolvesse essa atividade. Eu via o material que eles usavam e resolvi fazer. Precisava desenvolver essa atividade para levar adiante o saber dos ancestrais”, diz Sebastião.

No final, os jovens estarão tocando, cantando e dançando na roda de Jongo. “É uma das marcas, um dos saberes da comunidade que não morreu e está presente até hoje”, diz Josileia do Nascimento, filha do Mestre Sebastião e uma das coordenadoras do projeto. Desenvolvendo seu projeto de final de graduação em Educação do Campo focado na culinária local, ela também busca aproximar os jovens da alimentação e ervas medicinais tradicionalmente usadas naquele território. “Trabalhamos a aproximação com os jovens através dos tambores para depois trabalhar outras questões. O importante é que a juventude goste das atividades e queira participar cada vez mais. A aproximação da juventude com os saberes tradicionais é uma satisfação muito grande”.

Culturalmente perto mas territorialmente longe, no sul do Estado, outro projeto busca atuar no mesmo sentido. Na comunidade quilombola de Monte Alegre, interior de Cachoeiro de Itapemirim, acontece o projeto “O som

de Monte Alegre”, em que o foco é a transmissão dos saberes, da cultura, história e costume para os mais novos.

Realizado uma vez por mês e aberta a visitantes, a atividade recebe uma roda de conversa com as mestras do Caxambu Santa Cruz, Maria Laurinda Adão, Adevalmira Adão Felipe e Neuza Gomes Ventura, culminando numa roda de caxambu que serve como experiência prática para crianças e adolescentes.

“Esse projeto, com certeza, contribui para a redução do preconceito sofrido pelos praticantes do Caxambu, tanto pelo fato de serem negros quanto pelo caxambu ainda ser estritamente identificado com as religiões de matrizes africanas. Além disso, proporciona maior propagação dessa cultura tradicional para além do quilombo”, diz a turismóloga Fátima Buzatto, secretária da escola local e uma das organizadoras do projeto.

Com 130 anos de existência e comandado pela marcante presença de Dona Maria Laurinda, o grupo tem seu principal festejo no dia 13 de maio, quando ocorre a festa Raiar da Liberdade, que reúne grupos de Caxambu, Jongo, Folia de Reis, Bate-Flechas e outras manifestações da cultura popular cachoeirense e de outros municípios.

Por: Vitor Taveira

*Matéria originalmente publicada no site Seculo Diário em 06 de abril de 2019