13 mar

“O Brasil apoia as piores formas de discriminação racial”, diz representante da Coalizão na ONU

Um segundo discurso da Coalizão estava marcado para a próxima segunda (16), mas foi suspenso por conta da pandemia do Coronavírus, o Coid-19

Em um discurso marcante, a historiadora Wania Sant’anna, da Coalizão Negra por Direitos, chamou a atenção do mundo sobre a luta contra o genocídio da população negra e periférica brasileira. Ela participou, nesta sexta-feira (13) do 43ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da Organizações das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suiça.

“Apelamos à comunidade internacional para se juntem aos afro-brasileiros na luta contra o racismo, lembrando a situação de todos os africanos – homens e mulheres – que foram submetidos à escravidão por séculos”, disse.

Durante sua fala, ela salientou os dados de homicídios dos jovens brasileiros – a maioria de negros -, a resistência do governo em demarcar terras dos povos quilombolas, além de frisar sobre os ataques contra as religiões de matriz africana.

“O governo no Brasil apoia as piores formas de discriminação racial. A ONU está ciente das violações de direitos que acontecem no Brasil”, disse Wania.

Um segundo discurso da Coalizão Negra por Direitos estava marcado para a próxima segunda-feira (16), mas a sessão do Conselho de Direitos Humanos, que estava com programação confirmada até o dia 20, foi suspensa por conta da pandemia do Coronavírus, o Coid-19.

Confira a íntegra do discurso.

Human Rights Council 43rd Regular Session
Debate on the midterm review of the International Decade for People of African Descent – 13 March 2020

Oral Statement by the Sociedade Maranhense de Direitos Humanos
Delivered by Ms.Wania Sant’Anna

Obrigada Presidente,

Sou Wania Sant’anna, membro da Coalizão Negra pelos Direitos, reunindo 117 organizações do movimento negro brasileiro com a estratégia de manter o legado da Conferência de Durban.

Em 2017, dos 65 mil homicídios no Brasil – o nível histórico mais alto até o presente – 49.500 ceifou a vida de afro-brasileiros – homens e mulheres – (75% desse nível histórico). Como ilustração, o Brasil possui oficialmente 4.878 cidades com população inferior a 50.000 habitantes. Isso significa que qualquer uma dessas cidades poderia ter sido varrida do mapa.

Entre 2007 e 2017, 400 mil afro-brasileiros foram mortos sob incontestável violência policial, disputas entre gangues, mas acima de tudo, vítimas de discriminação racial histórica e racismo estrutural no Brasil. (A taxa de homicídios de afro-brasileiros aumentou mais de 33% – dez vezes mais que a taxa entre brancos – 3%). A proposta do atual governo de flexibilizar as armas de fogo certamente aumentará esses indicadores.

No que diz respeito ao parágrafo 34 da Declaração e Plano de Ação, a negação do atual governo de demarcar terras quilombolas – contrariando a Constituição brasileira – expõe essas comunidades a ameaça extrema, a invasão de suas terras, ao agronegócio, às atividades de mineração e empresas transnacionais, além da base aeroespacial de Alcântara.

Quanto ao parágrafo 8, as religiões afro-brasileiras têm sido cada vez mais atacadas por líderes evangélicos fundamentalistas – com forte lobby no Executivo e no Congresso Nacional, enfrentando incêndios intencionais, depredação de seus locais sagrados, entre outras ameaças. Isso nos mostra a incapacidade do Estado de proteger esse grupo do ódio religioso e do racismo.

Apelamos à comunidade internacional para se juntem aos afro-brasileiros na luta contra o racismo, lembrando a situação de todos os africanos – homens e mulheres – que foram submetidos à escravidão por séculos.

por: Simone Freire

*MATÉRIA RETIRADA DO SITE ALMA PRETA