18 jun

QUILOMBOLAS DO PARÁ CONTRA A COVID-19 E NA LUTA PELO DIREITO À SAÚDE NA COMUNIDADE

Malungu

 

Quando, em 18 de maio de 2020, começamos a emitir os boletins diários de casos de Covid-19 nas comunidades remanescentes de quilombos do Pará, sabíamos que este trabalho, feito com a colaboração de moradores e líderes comunitários, seria importante para entender melhor o que viria pela frente.

Os números, embora “baixos” naquela data, já revelavam um quadro preocupante: eram 19 pessoas com testes positivos; outras 12 recuperadas; e 25 casos suspeitos em tratamento médico. Ou seja, havia 56 pessoas em sabida luta contra a doença, que até então tinha provocado 8 óbitos. Por outro lado, havia 76 casos suspeitos sem atendimento médico, sem acesso a testes, medicamentos e cuidados de profissionais de saúde ofertados pelo Estado ou munícipios.
Sabíamos, ainda, que nossos números estariam sempre abaixo da realidade, pois, se a subnotificação é um problema mundial, a situação dos territórios quilombolas é ainda mais desfavorável a um acompanhamento rigoroso dos casos:

  • O acesso restrito ao sistema oficial de saúde;
  • A dificuldade de comunicação com os territórios que, na maioria, não recebem sinal de telefonia e internet e,
  • A carência de informação e atenção qualificadas à população quilombola tornam ainda mais difícil o nosso trabalho de acompanhamento.

Mas, insistimos na produção de nossos boletins.
Hoje, completamos o primeiro mês de edição dos boletins. Não temos o que comemorar, com exceção da recuperação de 275 quilombolas que venceram a Covid-19, ao contrário de 29 que faleceram em decorrência da doença.

Os números de hoje são: 457 casos confirmados, 297 em tratamento médico (em casa), 11 hospitalizados e 849 pessoas com suspeita da doença, sem qualquer tipo de atendimento de saúde.

Graças ao nosso trabalho e à colaboração de nossas comunidades é possível compreender a dimensão dos prejuízos causados pela Covid-19 entre os quilombolas do Pará.

Desde o dia 22 de março quando a Malungu voltou parte significativa de suas atividades para o enfrentamento da Covid-19, muitas ações foram realizadas com ajuda de todas as comunidades quilombolas e muitos parceiros que não mediram esforços para ajudar.

A parceria com o Núcleo de Estudos Interdisciplinares em Sociedades Amazônicas, Cultura e Ambiente (Sacaca) da Ufopa, as doações e o empenho pessoal de dezenas de voluntários, quilombolas e não quilombolas, possibilitaram a criação do comitê gestor da Covid-19.

Ao longo desse período, mesmo diante da falta de ação por parte do Estado, foram realizadas consultas remotas com médicos, enfermeiros, psicólogos e advogados.

Prestamos o acompanhamento a centenas de quilombolas que buscaram acesso ao auxílio emergencial, emissão de CPF e outras orientações. Foram produzidos vídeos, áudios, banners, faixas e cartazes para ações de educação em saúde.

Comunidades de 45 municípios fizeram barreiras sanitárias, acionaram o Ministério Público do Pará e o Ministério Público Federal, a polícia e as procuradorias de justiça em seus municípios; outras acionaram a justiça como forma de garantir direitos.

As mobilizações asseguraram a aquisição de kits de higiene, limpeza e cestas de alimentos. Foram produzidas dezenas de matérias jornalísticas denunciando o racismo estrutural e institucional, personificado no Estado, em relação aos quilombolas.

Infelizmente o Pará figura no cenário nacional como o estado que registra o maior número de mortes por Covid-19 entre quilombolas, ao passo que o Estado segue omisso.

Apesar disso, nosso esforço de sistematização e divulgação dos boletins diários deve alimentar a luta por condições dignas de atendimento para a população quilombola, lembrando sempre que a saúde quilombola se faz nas próprias comunidades e não em deslocamentos obrigatórios para as cidades, muitas delas já desprovidas de serviços de saúde para atender a população urbana.

Por isso, seguimos em frente, afirmando que SAÚDE QUILOMBOLA É SAÚDE NO TERRITÓRIO!

Vidas Quilombolas Importam!

Pará,  17 de junho de 2020.

Acesse a plataforma on-line de monitoramento do avanço da Covid-19 nos territórios quilombolas

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