25 out

Lideranças Quilombolas vão aos Estados Unidos conscientizar mais pessoas sobre a realidade dos quilombos brasileiros e buscar novas parcerias

Uma comitiva de três quilombolas, coordenadores executivos da CONAQ, esteve nos Estados Unidos de 10 a 20 de outubro para participar do Programa Internacional de Lideranças Visitantes, promovido pelo Departamento de Estado Americano. A participação dos quilombolas  no programa foi organizada a partir da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil e contou com o apoio e facilitação da USAID- Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional e da ECAM- Equipe de Conservação da Amazônia.

Os representantes quilombolas foram: José Carlos Galiza, do estado do Pará, quilombo Guajará-Mirim ; Sandra Pereira Braga, do estado de Goiás, quilombo Mesquita, e Célia Cristina Pinto, do estado do Maranhão, quilombo Acre. As três lideranças são pessoas envolvidas no movimento quilombola há décadas e possuem reconhecimento em seus estados e nacionalmente devido suas trajetórias dentro da causa quilombola.

Também integraram esta comitiva, a advogada e assessora jurídica da ECAM, Luiza Viana, e a antropóloga e assessora de comunicação da CONAQ, Ana Carolina Fernandes.

Os dez dias de atividades foram divididos em três diferentes cidades dos estados norte-americanos. Foram quatro dias de agenda em Washington-DC; três dias em Tulsa-Oklahoma, e 3 dias em Miami-Flórida, todos estes de intensas atividades e produtivos encontros.

Os quilombolas estiveram em diálogo com diversos tipos de profissionais, sociedade civil e instituições que trabalham em causas relacionadas aos direitos humanos, especialmente aquelas ligadas às discussões sobre raça, etnia e território.

Em Washington, tiveram um encontro de boas-vindas com a representante do Departamento de Estado Americano, Nazgul Toksunova, juntamente com David Paulson e Gianna Cipponeri, representantes do Meridian International Center.

Comitiva da CONAQ com Nazgul Toksunova, do Departamento de Estado Americano

Após esta primeira apresentação institucional, que aconteceu na manhã do dia 11 de outubro, os quilombolas participaram de mais duas agendas pela tarde: uma palestra com o escritor, jornalista e analista político David Ruffin, que explicou sobre os afro-americanos e suas lutas ao longo da história dos EUA para conquistarem direitos civis. E em seguida, nos prédios da instituição Wilson Center, se reuniram com Paulo Sotero e demais integrantes do Brazil Institute, que promove debates, análises e pesquisas sobre políticas públicas e relações internacionais entre o Brasil e Estados Unidos.

Fala dos quilombolas no Brazil Institute

O dia 12 de outubro foi um dia de bons encontros e compartilhamento de reflexões e esperanças. Possibilitados pelos laços afrodiaspóricos que unem os povos negros pelo mundo pós diáspora africana, os representantes da CONAQ puderam pela primeira vez estar presentes em uma universidade majoritariamente negra, fundada por negros, para formar profissionais de alto padrão em diversas áreas, também negros. A reunião na Howard University foi recepcionada pelo professor Clarence Lusane, cientista político, especialista em temas como movimentos sociais modernos, políticas públicas para a população negra e relações raciais comparadas. O professor fez uma pequena palestra para os membros da CONAQ e convidou outros colegas da Howard University que, como ele, estavam muito interessados em ouvir sobre as narrativas das comunidades quilombolas do Brasil e suas atuais demandas.

Com o professor Clarence Lusane e no campus da Howard University

Durante o período da tarde, a comitiva se encontrou com Alcione Amos, pesquisadora brasileira que trabalha no museu comunitário Anacostia Community Museum. Alcione dedica sua trajetória como pesquisadora a escrever sobre comunidades negras, sendo assim, ainda irmanados pelos ventos da diáspora, os quilombolas conheceram o bonito trabalho de Alcione sobre os ex-escravizados e seus descendentes brasileiros que voltaram à África após a abolição.

Com Alcione Amos no Anacostia Community Museum

Em 13 de outubro, encerrando as agendas em Washington, os quilombolas visitaram o Museu Nacional da História e Cultura Afroamericana. A visita ao museu tratou-se de uma grande imersão pela história do povo negro nas américas. Através das galerias do museu, que retrata histórias de africanos e seus descendentes desde o início do período escravista, até os dias atuais, os quilombolas brasileiros experimentaram sentimentos de cumplicidade, aproximação e auto-afirmação identitária com os negros afroamericanos. Diversas passagens da história dos afroamericanos confluem com as histórias dos quilombolas brasileiros. A visita pelo museu foi como uma síntese da narrativa de resistência dos africanos nos territórios das américas.  Biografia coletiva da qual os quilombolas são parte e provas vivas.

No Museu Nacional da História e Cultura Afroamericana.

Em Tulsa, já no estado de Oklahoma, a comitiva quilombola continuou encontrando-se com representantes de várias instituições com missões convergentes às do movimento quilombola.

O primeiro dia de agenda nesta cidade contou com uma reunião entre os quilombolas e o juiz distrital, procurador geral e defensor público indígena, da tribo Cherokee, Mr. Charles Tripp. O diálogo com Charles Tripp pautou sobre a histórica disputa capitalista pela terra e seus recursos. O jurista indígena relembrou que a maior parte dos confrontos entre os Estados Unidos e as tribos nativas americanas, eram, e ainda hoje são, baseados em uma disputa por território.

Sobre o ponto de vista capitalista, muitas vezes representado pelo Estado, fazendeiros e/ou empresas, o território possui valor monetário, enquanto para as populações tradicionais e nativas, como os indígenas e também os quilombolas, o território possui valor imaterial, é parte de suas vidas. O juiz Cherokee ouviu as histórias dos quilombolas, seus relatos sobre as ameaças, retiradas de direitos e até mesmo homicídios que acontecem contra as comunidades e suas lideranças no Brasil. Sensibilizado com o caso dos quilombolas brasileiros, e a par de toda a história dos povos nativos americanos, Charles Tripp fez recomendações para que os quilombolas seguissem energizados em suas lutas, com a força cultural herdada de seus ancestrais, e que procurassem por parceiros que pudessem somar forças em suas causas.

Com o juiz indígena Charles Tripp.

Durante a tarde deste mesmo dia, 15 de outubro, os quilombolas visitaram duas cidades majoritariamente negras, governadas historicamente pela população negra de Oklahoma: Clearview e Boley. A formação destas cidades totalmente negras, as “All Black Towns” fez parte de um período único da história afroamericana. Nestas cidades criadas por grupos de indivíduos negros, eles mesmos ocupavam e geriam todas as instâncias de governo e poder daquelas comunidades com o reconhecimento legal do governo americano. Baseados em ideologias de “avanço econômico, autoajuda e solidariedade racial”, estas cidades foram muito prósperas até o fim dos anos 30. Com o passar dos tempos, várias delas deixaram de existir, mas algumas ainda persistem, orgulhosas de suas histórias e autonomia.

Com a prefeita da “all black town” Clearview, e demais membros da Oklahoma African Educators Hall of Fame-OAAE.

Em 16 de outubro, mais um encontro emocionante. As lideranças quilombolas foram guiadas por Vanessa Adams, pelas ruas do bairro Greenwood, onde em 1921 aconteceu uma grande chacina contra os afroamericanos que viviam neste local. A comunidade negra de Greenwood foi atacada por bombas, incêndios e tiroteios, que feriu e matou grande parte de seus moradores, além de destruir a maioria de suas casas e comércios, este fato histórico ficou conhecido como “Tulsa Race Riot”. No entanto, a história da chacina de Tulsa foi banida da história-oficial americana por muitas décadas, e somente nos anos 2000 houve uma intensa mobilização para a pesquisa sobre o que aconteceu contra as pessoas que habitavam Greenwood e suas casas. Foi construído um parque e um centro de memória em homenagem a população negra atacada neste conflito, o John Hope Franklin Center for Reconciliation.

Com Vanessa Adams pelas ruas do bairro Greenwood no centro de memórias John Hope Franklin Center for Reconciliation.

Neste último dia de encontros em Tulsa, a comitiva também se reuniu com indígenas da tribo Euchee/Yuchi, que vêm desenvolvendo um importante trabalho de recuperação de sua língua nativa. O encontro que reuniu diferentes gerações do povo Euchee, foi de grande troca entre indígenas e quilombolas. O indígena e Dr. Richard Grounds acompanhado de seus jovens alunos euchees e de Maxine, anciã mais velha da tribo indígena, explicaram sobre o projeto e a potencialidade que visualizam na língua como protetora da cultura tradicional. Os representantes da CONAQ tiveram a oportunidade de contar sobre a luta persistente dos quilombolas brasileiros para a manutenção de suas culturas e respeito de suas formas tradicionais de viver.

Com os indígenas Yuchi, do projeto Euchee Language

A última viagem foi para Miami, estado da Flórida. A comitiva quilombola iniciou os encontros em uma reunião no dia 18 de outubro, com membros da American Civil Liberties Union- ACLU. Estiveram presentes advogados da organização e profissionais da área de marketing. O trabalho da ACLU é voltado para a assessoria jurídica de cidadãos americanos que estejam com seus direitos civis ameaçados. A reunião com estes representantes incentivou novas ideias sobre estratégias de engajamento e além da área jurídica, os membros da ACLU destacaram a importância do marketing e da comunicação para os movimentos sociais, gerando maior visibilidade e possibilidades de aliados. Os representantes da CONAQ contaram sobre os diversos casos de conflito entre comunidades quilombolas e o Estado Brasileiro, como os casos de Alcântara-MA, Marambaia-RJ e Rio dos Macacos-BA. Contaram também sobre todo o processo de luta e persistência pela manutenção do decreto nº 4887/2003.

Reunião com os representantes da ACLU

Ao final da manhã, a comitiva foi até o campus da Universidade Internacional da Flórida –FIU, para se encontrar com o professor Percy C. Hintzen, diretor do Departamento de Estudos da África e da Diáspora Africana. O professor Percy já conhecia sobre o tema dos quilombos brasileiros e se mostrou contente ao conhecer o trabalho da CONAQ através do vídeo de apresentação da coordenação, da fala de seus representantes e das publicações que lhe foram apresentadas. Percy Hintzen destacou seu interesse de firmar parcerias com os quilombolas brasileiros e, através de seu departamento na FIU, oferecer bolsas de estudos para estudantes quilombolas na pós-graduação.

Com o professor Percy C Hintzen.

O último dia de agenda do Intercâmbio de Lideranças Visitantes foi na reserva indígena Seminole “Big Cypress Seminole Indian Reservation”. Os quilombolas foram recebidos por um representante Seminole que os conduziu por uma visita ao museu indígena Ah-Tah-Thi-Ki – que na língua Seminole significa lugar para aprender e relembrar). O representante Seminole também os acompanhou em uma visita guiada por parte da floresta pertencente ao território indígena. O passeio pelo museu indígena criado dentro do território, e gerido pelos próprios indígenas, tratou-se de um encontro interessante no qual os quilombolas puderam conhecer sobre aspectos da identidade e cultura Seminole, suas práticas culturais, cosmologias e saberes agrícolas e medicinais tradicionais.

Na reserva indígena Seminole

Ao final deste intercâmbio, os quilombolas voltaram para suas comunidades e para o movimento quilombola nacional com uma grande bagagem de conhecimentos e novas ideias que poderão utilizar na realidade brasileira de maneira positiva. Foram debatidos temas diversos, como o direito, a vida digna e sustentável em seus territórios, o combate ao racismo e outras formas de discriminação, a autoafirmação e prática cultural, dentre outros. Todos estes temas são relevantes para a promoção do bem-viver quilombola e respeito aos seus direitos humanos e cidadãos.

No Lincoln Memorian, local onde Martin Luther King fez o discurso histórico “I Have a Dream”.

A cobertura fotográfica completa da viagem pode ser vista no seguinte link:

https://www.flickr.com/photos/140988177@N07/albums/72157699511535982

*Texto e fotografias: Ana Carolina Fernandes, Assessoria de Comunicação CONAQ.