20 dez

Carta do Encontro das Mulheres do Campo, das Águas e das Florestas- Encontro Nacional de Mulheres Negras – 06 a 09 de Dezembro de 2018 – Goiânia-GO/Brasil

Nós mulheres do campo, das águas e das florestas, presentes no Encontro Nacional de Mulheres Negras, representadas pelos movimentos: MST, PJR, MPA, CONAQ, MMC, PCN. Reafirmamos a nossa identidade de mulheres negras e lutadoras. E compreendendo que sofremos uma derrota estratégica nas urnas, buscamos fortalecer nossas estruturas, através do trabalho de base, da formação política e das lutas massivas.

A eleição de Bolsonaro se deu a partir do discurso da segurança, garantido que cuidaria da questão da violência, armando a população, mas sem propostas concretas, com ideias neofacistas que ainda tentamos compreender, visto que vem carregado de ideias antinacionalistas e entreguistas, que tem a privatização como pauta principal, que retira direitos, que criminaliza os Movimentos Sociais e intervém de forma violenta contra a população.

O avanço do agronegócio nas comunidades camponesas, em territórios tradicionais quilombolas, indígenas, ribeirinhos… que atinge essas populações através das mineradoras, da “legalização” do desmatamento, da expropriação dos saberes, de assassinatos dos povos do campo, da violência contra as mulheres, do extermínio da juventude e da população LGBT+, dentre outras ações, faz com que nos organizemos cada vez mais para o enfrentamento através de lutas unificadas.

Entendendo que essa derrota será estratégica para que retornemos as nossas bases devemos nos fortalecer através da FORMAÇÃO POLÍTICA, das LUTAS MASSIVAS e do TRABALHO DE BASE que poderão ser mecanismos de acúmulo de forças.

Portanto, usando a organização popular baseada nas inspirações de nossas ancestralidades lutaremos pela garantia do Estado Democrático de Direto. Articulando um Feminismo Camponês Quilombola Popular anticapitalista, antirracista  antimachista, antipatriarcal e contra hegemônico gritaremos a favor da não violência contra todas as mulheres.

É necessário também o fortalecimento de nossa identidade como povos tradicionais, exaltando nossa cultura e meio de produção, em especial a manutenção de sementes crioulas que busca a alimentação saudável para nossos povos.

Analisando o contexto político nos blindaremos contra a proposta de titularização de nossos territórios por meio da compreensão da necessidade de união. Sairemos de lutas silenciosas, ocuparemos os espaços de poder. A construção de uma rede de solidariedade para formar nossos jovens buscando inseri-los e criando novos acessos.

Há a necessidade de se reinventar, desconstruindo as ideias difundidas pelas mídias sobre os movimentos sociais, aliando nos aos educadores populares. Essa luta ideológica será facilitada pelo uso de redes sociais, atividades culturais, rádios e meios de comunicação alternativos.

Atentando também para a importância de construir unidade com países latinos que compartilham da mesma realidade. Que lutam e defendem as mulheres e suas famílias.

Buscando defender e não abandonar as comunidades e seus territórios, acompanhando também as famílias que foram expulsas de suas terras para que retornem e mantenham suas identidades, suas culturas, princípios e valores.

Lutar pela Reforma Agrária Popular realizada de forma massiva, pensando na segurança das pessoas nos processos de ocupações. Fortalecendo as Campanhas #LulaLivre e #EleNão fazendo chegar até as nossas comunidades, criando Comitês do Congresso do Povo, pensando sempre na segurança de todas/os as/os envolvidas/os, não se isolando nem dispersando, cuidando umas/uns das/os outras/os, aquilombando-se, ficando juntas nas lutas em busca do Poder Popular, através do projeto político de sociedade que acreditamos.

Goiânia- Goiás, 09 de dezembro de 2018.

Mulheres Negras Movem o Mundo!

Assinam esta carta : ABEEF – ADERE – APIB – CIMI – CONAQ – CPT – ENEBio – FEAB – MAB – MAM – MMC – MPA – MPP – MST – PJR – PCN – Via Campesina/CLOC

 

*Fotos: Nathalia Purificação /CONAQ