14 de abril de 2026
Quilombola assume coordenação inédita em Câmara Técnica do Comitê do São Francisco
Posse marca avanço na representatividade de povos tradicionais na gestão das águas da região da bacia.
Na última sexta-feira (10), o vice-presidente do Quilombo de Curral da Pedra, no município de Abaré (BA), Wilson Simonal foi empossado como coordenador da Câmara Técnica de Povos e Comunidades Tradicionais (CTCT) do Comitê da Bacia do Rio São Francisco. A nomeação torna-o o primeiro quilombola a ocupar o cargo e inaugura um novo momento dentro do comitê, reforçando a importância da presença direta dos povos tradicionais nos espaços de decisão sobre a gestão das águas.
Pautas prioritárias e defesa do território

Foto: Acervo pessoal
A posse, realizada em Aracaju, foi marcada por um sentimento de responsabilidade e conquista coletiva. “Ser o primeiro quilombola a ocupar essa vaga é histórico. Não é uma vitória individual, mas de todos os territórios quilombolas”, afirmou. Ele também destacou o papel fundamental da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas nesse processo, evidenciando a força da articulação coletiva para ampliar a presença quilombola em espaços institucionais.
Inspirado pelo pensamento de Nego Bispo, Simonal reforçou a importância da união entre os povos: “Quando um rio encontra outro rio, ele não deixa de ser um rio, ele se torna um rio maior.” Para ele, esse espírito coletivo será essencial na condução dos trabalhos à frente da CTCT.
A nova coordenação assume com o compromisso de fortalecer o diálogo, a escuta ativa e a continuidade das ações já desenvolvidas. Entre as principais pautas que pretende levar ao comitê estão a garantia de acesso à água de qualidade, a preservação dos territórios tradicionais e o reconhecimento dos saberes ancestrais na gestão dos recursos hídricos. “Também é fundamental defender o Rio São Francisco, combatendo a degradação ambiental e assegurando que as decisões considerem a realidade das comunidades”, pontuou.
Outro eixo central da gestão será o fortalecimento de políticas públicas específicas para povos quilombolas e comunidades tradicionais, além da ampliação da participação social.
Participação e protagonismo
Segundo Simonal, sua presença no espaço contribui diretamente para isso: “Levo a vivência real das comunidades para dentro do debate. Isso fortalece o reconhecimento dos povos tradicionais como sujeitos de direito e protagonistas na gestão das águas.”
A CTCT, que atua no âmbito do Comitê da Bacia do São Francisco, tem o desafio de garantir que comunidades historicamente invisibilizadas tenham participação efetiva nas decisões que impactam seus modos de vida, cultura e relação com o território. Nesse sentido, a coordenação pretende construir pontes entre instituições e comunidades, incentivando uma atuação mais inclusiva e conectada com a diversidade presente na bacia.
Caminhos para uma governança mais justa
A articulação interinstitucional também aparece como prioridade. A proposta é ampliar parcerias, potencializar ações já existentes e construir estratégias conjuntas para enfrentar desafios como o acesso à água, a preservação ambiental e a proteção dos territórios ao longo do Velho Chico.
Para Simonal, esse novo ciclo deve ser marcado por uma governança mais democrática e comprometida com a justiça social. “Quero ajudar a construir decisões mais justas, inclusivas e que respeitem a diversidade cultural e territorial da bacia”, afirmou.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 10:45:16
Categoria: Destaques