12 de maio de 2026
CONAQ 30 anos: quando o quilombo transforma resistência em futuro
Mobilização construída pelos territórios fortaleceu direitos coletivos, enfrentou o racismo estrutural e abriu caminhos para as futuras gerações.
Hoje, 12 de maio de 2026, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) completa 30 anos de existência. Três décadas de luta organizada. Três décadas de enfrentamento ao racismo estrutural, ao latifúndio, à violência do Estado e às tentativas permanentes de apagar a história do povo negro quilombola deste país.
Mas a história do movimento não começou em 1996. Ela começou muito antes. Começou nos corpos negros que recusaram a escravidão. Nas fugas coletivas. Nos mocambos escondidos mata adentro. Nas mãos que plantaram alimento onde o sistema queria fome. Nas mulheres que sustentaram comunidades inteiras diante da violência colonial. Nas crianças que aprenderam desde cedo que existir também é um ato político.
Das raízes da resistência ao nascimento
A consolidação nacional foi oficializada em 1996, no Quilombo Rio das Rãs, no município de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, após a histórica Marcha Zumbi dos Palmares, realizada em Brasília no ano anterior. Mas, como relembra o cofundador e coordenador executivo Ivo Fonseca, o movimento já vinha sendo construído desde os anos 1980, durante as mobilizações da Assembleia Constituinte.
“Em 1985 nós já começávamos aqui no Maranhão a discutir a Constituinte junto ao movimento negro. Em 1986 realizamos o primeiro encontro das comunidades negras rurais, que depois passaram a ser chamadas quilombolas.”
Foi naquele período que comunidades quilombolas passaram a se reconhecer não apenas como sobreviventes da história, mas como sujeitos políticos organizados. O que antes o Estado insistia em tratar como invisível passou a marchar junto, ocupar Brasília, construir incidência internacional e reivindicar direitos coletivos.
A Marcha Zumbi dos Palmares foi um divisor de águas. “Foi muito emocionante porque nós quilombolas ainda não tínhamos dimensão da força política do movimento negro brasileiro.”
Daquela marcha nasceu a certeza de que o povo quilombola precisava de uma articulação nacional própria, forte e permanente. E nasceu também a compreensão de que sem território não existe liberdade possível.
Memórias e direitos
Desde os primeiros anos de atuação, a principal bandeira defendida pela articulação foi a regularização dos territórios quilombolas. O movimento sempre compreendeu que sem segurança territorial não seria possível garantir nenhuma outra política pública.
“O território sempre foi nossa principal bandeira. Sem a consolidação territorial, as outras políticas não avançam. Diziam para nós: como construir escolas se vocês não têm terra? E nós sempre respondíamos: nós temos terra, nós nunca saímos dela”, relata o maranhense.
Ao longo desses 30 anos, a CONAQ ajudou a transformar a luta quilombola em patrimônio político do Brasil. Foi linha de frente na defesa do Artigo 68 da Constituição Federal, na garantia do Decreto 4.887/2003, na construção da Educação Escolar Quilombola, na luta pela saúde da população quilombola, na defesa da ADPF 742 durante a pandemia da Covid-19, na internacionalização da pauta quilombola nas negociações climáticas globais e em incontáveis pautas.
Mas nenhuma dessas conquistas veio como concessão. Cada avanço carregou o peso da resistência coletiva. Cada política pública nasceu da pressão organizada dos territórios. Cada direito garantido foi arrancado de um Estado historicamente construído para negar humanidade ao povo negro.
A organização atravessou governos, enfrentou ataques institucionais, sobreviveu ao abandono, denunciou violências, protegeu vidas durante a pandemia e segue denunciando o avanço do agronegócio, da mineração e dos grandes empreendimentos sobre os territórios tradicionais.
Começo, meio e começo: sempre em frente
E ainda assim, a luta segue produzindo futuro. “Aquela semente plantada naquele período deu resultado. Hoje vemos jovens quilombolas ocupando espaços, comunicando, fortalecendo o movimento e levando a mensagem da CONAQ para outras pessoas”, afirma o cofundador.
A juventude quilombola hoje ocupa universidades, produz comunicação popular, constrói pesquisa, fortalece a soberania alimentar, organiza incidência internacional e reafirma que o quilombo não é passado: é projeto político de futuro.
São jovens que carregam os nomes dos ancestrais na boca e tecnologia nas mãos. Jovens que transformam câmeras, celulares, tambores, sementes, documentos e redes de afeto em ferramentas de resistência. Jovens que aprenderam com os mais velhos que território não é apenas chão: é memória, espiritualidade, ciência, cultura, alimento e continuidade histórica.
Talvez por isso a definição mais potente sobre a CONAQ venha da própria ancestralidade evocada pelo coordenador ao citar o personagem central de Raízes, de Alex Haley:
“A CONAQ para nós é como a história de Kunta Kinte. Ela representa nossa ancestralidade, nossa resistência e nossa continuidade histórica.” E é exatamente isso que o movimento se tornou ao longo desses 30 anos: continuidade histórica.
Construído pelas mãos coletivas do povo quilombola e uma força política que ajudou o Brasil a reconhecer parte de sua dívida histórica. Uma articulação que fez do território uma trincheira de dignidade. Um movimento que ensinou ao mundo que não existe justiça climática sem os povos tradicionais. Que não existe democracia real enquanto houver racismo fundiário. Que não existe futuro possível sem os quilombos vivos.
Hoje, ao completar três décadas, a CONAQ reafirma aquilo que seus ancestrais já sabiam desde o primeiro quilombo erguido neste território: enquanto houver povo negro organizado, haverá luta. Enquanto houver território, haverá memória. Enquanto houver ancestralidade, haverá futuro.
A CONAQ completa 30 anos. E segue em marcha.
Texto por Thaís Rodrigues, publicado às 10:53:28
Categoria: Destaques