Notícias

22 de julho de 2026

Mulheres quilombolas que inspiram

Histórias de vida que atravessam gerações e fortalecem a luta feminina por direitos, território e bem viver.

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela, a CONAQ reúne trajetórias de mulheres que fazem da resistência um legado. Hoje conheceremos a história de Berenita Maria dos Santos Mello, 62 anos, coordenadora nacional, quilombola do Sítio Montidouro, localizado na cidade de Belém, Alagoas, e em processo de certificação pela Fundação Palmares.

Em entrevista especial ao quadro “mulheres quilombolas que inspiram”, ela conta que sempre esteve ligada ao movimento negro popular, mas que a reviravolta em sua vida aconteceu em meados de 2007 quando atuou na secretaria do Instituto de Terras e Reforma Agraria de Alagoas ( ITERAL ). 

“Em 2007 foi criado dentro do Instituto de Terras, a gerência Quilombola. Eu fui atuar lá como secretária, nisso a gente foi conversando, discutindo, planejando, e aí Magela (Diretor da Pasta na época), pegou uma lista que tinham deixado pra ele, com nome de 20 comunidades quilombolas, dessas, apenas 5 eram certificadas e as outras estavam em estudo. Lembro que ele disse assim pra mim: “será se estão em estudo mesmo Berê? Vamos fazer uma consultoria. Ele contratou um antropólogo, um cientista social, um historiador e fomos para o trabalho de campo”. 

Conexão como aliada

A experiencia no movimento negro popular foi uma aliada no processo, ser um rosto conhecido dentro das comunidades, facilitou o diálogo de Berenita com os moradores: 

“Quando chegava nas comunidades sempre reconhecia uma pessoa ou outra, então, eu ia perguntando se em outros lugares tinham vivências parecidas. E assim eu fui abrindo o leque, abrindo caminho: eu dava o perfil de como era o nosso povo e eles falavam: “rapaz, em tal lugar tem umas pessoas assim, assim e assim”… Aí eu anotava o nome do povoado e o município. Com isso eu fazia uma programação de visitas.  Na época eu conhecia o Bié, do ITERAL (hoje, também coordenador nacional pelo estado de Alagoas), ele atuava na comunidade dele, mas era mais com a questão da juventude, não tinha ainda a associação quilombola, mas ele estava dentro do quilombo. Como eu já o conhecia, comecei a conversar sobre essas visitas com ele, comecei a ir pra lá, e fomos identificando outras comunidades no município dele, e eu fui jogando tudo na planilha. E nesse processo, entre uma visita e outra, em três anos (2007 – 2010), entregamos junto a fundação palmares 49 certificações de territórios quilombolas no estado”, pontuou.

Mudanças e novos caminhos

Foto: Regimara Santos

 

Em 2010 houve mudança de governo, Magela é destituído da pasta, e consequentemente, toda a sua equipe de campo, mas o trabalho realizado nos anos anteriores foi tão notório, que na nova gestão, abriram espaço na secretária da mulher, que tinha também uma gerência quilombola, para que dessem continuidade aos processos de certificações. 

Segundo a coordenadora, essa nova gestão não tinha compromisso com os territórios quilombolas, porque segundo eles, não davam “dinheiro”, o foco foi direcionado à outros movimentos sociais. Mesmo com alguns entraves, e perseguições sofridas por colegas do setor, os quais resultaram em seu desligamento do cargo, ela ressalta o avanço significativo ao reconhecimento das comunidades:   “Quando eu saí em 2012, a gente já tinha certificado 72 comunidades, no total (2007 – 2012).”

Identificação e auto reconhecimento quilombola

A liderança até então não se identificava como quilombola. Você deve estar se perguntando: Mas porque ela compraria uma briga, como fez diversas vezes, pela defesa dos direitos de um povo que ela  sequer sabia que era dela? Ela não sabia, mas pertencia. Foi esse processo dentro dos territórios que levou a coordenadora a se reconhecer: 

“Aí pronto, foi quando eu fui acordar pra mim mesma, e entendi aonde eu estava e quem eu era. Eu já tinha saído há bastante tempo de Belém, meu território, mas quando as pessoas contavam suas histórias na comunidade no processo de mapeamento, pelo histórico, eu pensava: “a minha família é assim também”… A Partir daí eu fui atrás de entender minha história, e aí pronto. Quando eu me reconheci como Quilombola, veio uma vontade ainda maior de continuar, foi quando fizemos o primeiro encontro estadual de comunidades quilombolas de Alagoas, e daí surgiu a necessidade e a vontade de criar a coordenação estadual, e estamos aí até hoje”. 

Força e inspiração

Berenita, hoje, além de coordenadora nacional pelo seu estado, atua também na secretaria do coletivo de mulheres da CONAQ, onde multiplica todo o conhecimento que adquiriu ao longo dos anos de luta, fortalecendo e inspirando a caminhada dos companheiros e companheiras de movimento.