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23 de julho de 2026

Mulheres Quilombolas que Inspiram

Maryellen Crisóstomo - Do Território à Universidade

Dando continuidade ao quadro “Mulheres Quilombolas que inspiram”, apresentamos o caminho percorrido entre Território e Universidade, por Maryellen Crisóstomo, 35 anos, quilombola do território Baião, no sudeste do Tocantins, jornalista, Coordenadora Estadual da COEQTO e parceira do coletivo de mulheres da CONAQ.

O ensino superior para quilombolas nunca foi só sobre ingressar na faculdade, muito mais que isso, é sobre carregar  nos ombros a obrigação de ser “alguém na vida”, de ter e ser uma base familiar dentro de casa,  é sobre a responsabilidade de fazer “dar certo” a todo e qualquer custo, porque não é você pelo seu sonho, é você pelo sonho do seu pai, da sua mãe, do seu avô, da sua avó e de toda a sua linhagem familiar que tiveram esse direito historicamente negado. 

Para além disso, é preciso ainda enfrentar e resistir a inúmeras barreiras sociais/estruturais para garantir a permanência na Universidade, partindo do pressuposto que, esse indivíduo se encontra fora do seu território, sem nenhuma rede de apoio emocional ou financeira.

Maryellen conhece bem esse lugar, para ela a emoção de adentrar um espaço, que outrora, era visto como um sonho distante, e o peso de permanecer ali, ocupam a mesma prateleira da vida.   

“Eu lembro da emoção de adentrar a UFT pela primeira vez… O coração acelerado, choro, a alegria de estar ali. Mas depois veio o “ter que lidar com o processo”, e foi muito difícil pra mim, porque eu trabalhava no comércio, 44 horas semanais e estudava de segunda a sábado. E quando chega no final do primeiro semestre eu fico de recuperação em duas matérias e minhas notas eram mínimas, mesmo eu estando lá todos os dias”. 

Decisões difíceis

Com a dificuldade em conciliar o estudo com a carga horária elevada no trabalho, a jornalista se vê obrigada a fazer uma escolha: O que ela julgava mais importante naquele momento? Se dedicar aos estudos para ser  “alguém na vida” ou trabalhar em tempo integral para conseguir fazer uma feira minimamente digna no final do mês? 

Diante desse contexto, a quilombola recém chegada na capital, decide migrar para um estágio. Pronto! Problema resolvido. 

Mas para quem chega na universidade, oriundo de comunidade tradicional, se adaptar a tantas mudanças, é muito mais difícil do que parece. Maryellen, agora tinha mais tempo para os estudos, mas por outro lado, uma estrutura financeira muito mais frágil para se manter ao longo do mês. 

“Chegou um momento que faltou dinheiro pro passe, então eu decidi trancar duas disciplinas do curso… Aí veio outro sofrimento, porque eu ia precisar ficar por mais tempo na UFT.” 

Esforço que virou destaque

 

Foto: Regimara Santos

Nesse processo de redução de matérias, ela conta que faltou um único dia às aulas, mas isso foi o suficiente para notarem sua ausência, apesar de não ser a melhor da turma, era lembrada pelo seu esforço. Naquele dia ligaram para saber o porquê dela não ter comparecido. Depois de explicar o motivo, uma das professoras, coordenadora do curso, se recusou a autorizar sua solicitação, afirmando que ela iria sim para faculdade todos os dias. A mesma ofereceu carona à Maryelen, tanto na ida, quanto no retorno para casa após às aulas. 

Uma colega de sala, partilhou a história com a família, que se comoveu, e ofereceu para pagar o transporte mensal que na época ficava em média 60 reais. Além disso, quiseram saber se havia também necessidades em relação à alimentação, e sim, havia. 

“Sempre que eles iam fazer a feira do mês eles me levavam, me entregavam um carrinho e diziam: faça sua rota, não se preocupe com marca, nem com preço, pegue o que você gosta e precisa”. 

Essa família a manteve por 4 meses, período suficiente para se adaptar à nova realidade e conseguir passar para uma vaga de estágio com uma remuneração relevante.

“Esse suporte inicial foi essencial pra minha permanência na universidade, porque eu não podia pedir nada em casa, só meu pai trabalhava, e já tinham 4 pessoas lá para serem sustentadas com esse salário, eles conseguiam me mandar uma abóbora, uma mandioca, farinha…Ajudava? Ajudava, mas tinha aluguel, água, luz, internet, o transporte, e o que eu recebia no primeiro estágio, não era suficiente pro meu sustento. Quando eu fui contratada no SENAI e comecei a ganhar melhor, eu agradeci a essa família e falei que tinha conseguido um trabalho melhor e não precisa mais. Por fim, eu consegui concluir o curso dentro do período de 8 semestres, mas foi um processo muito doloroso.”

Coragem, resiliência e força

A trajetória de Maryellen, é um verdadeiro ato, palpável, de coragem, resiliência e força. Escolher permanecer, mesmo em meio a tantas dificuldades, é dar continuidade aos passos de quem veio antes. É comunicar, sem usar palavras, que resistência também é ferramenta de luta, é fazer ecoar a voz de quem não teve direito de fala, é abrir caminho pra quem ainda nem aprendeu a andar, é deixar o seu próprio legado, porque herança ancestral não é sobre o que temos, é sobre quem somos.