31 de março de 2026
Jovem da Escola Nacional da CONAQ é aprovada em edital para atuar na promoção da igualdade racial
Débora Mafra, da comunidade quilombola Bom Viver, no MA, é estudante de Direito e destacou o seu envolvimento na iniciativa do Coletivo Nacional de Educação da CONAQ ao se inscrever no edital da URFB em parceria com o Ministério da Igualdade Racial.
A jovem Débora Fernanda Mafra Fonseca, da comunidade quilombola Bom Viver, em Mirinzal (MA), foi aprovada no edital de seleção pública para bolsistas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em parceria com a Secretaria de Gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SENAPIR) do Ministério da Igualdade Racial (MIR). Ela, que integra a Escola Nacional de Formação de Meninas Quilombolas da CONAQ e participa de discussões representando o projeto, agora está entre as 80 pessoas selecionadas em todo o Brasil para atuar como agente territorial de promoção da igualdade racial.
A jovem que ingressou no projeto do Coletivo Nacional de Educação da CONAQ ainda na adolescência, hoje tem 18 anos e é estudante do 3° período do curso de Direito na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Ela conta que se identificou com a proposta do edital, acreditou que poderia contribuir com o enfrentamento ao racismo e percebeu a oportunidade de agregar a oportunidade à sua vida acadêmica, pessoal e de luta coletiva.
Para se inscrever, listou todos os programas, eventos e projetos que participou e detalhou suas experiências enquanto jovem, quilombola e estudante da Escola Nacional de Formação de Meninas Quilombolas. Débora destacou o encontro em que esteve com Givânia Silva, co-fundadora da CONAQ e coordenadora do Coletivo Nacional de Educação da CONAQ, com a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, com o ministro Camilo Santana, do MEC, e demais autoridades.
“Na minha inscrição, reforcei a importância das políticas públicas na vida de meninas quilombolas e o quanto a educação é uma ferramenta de transformação social tanto para quem vivencia quanto para quem está ao redor. Destaquei o poder da coletividade e da pluralidade”, disse.
Para Débora, a Escola Nacional foi importante para a sua trajetória e também pode impactar o percurso de outras jovens participantes. “Acredito na Escola Nacional como uma ferramenta de transformação, capaz de expandir nossos horizontes. Esse projeto me ajudou a enxergar a mudança que eu tanto desejo no mundo”, afirmou.
Enfrentando desafios

Débora sabe bem o que é combater o racismo. Atualmente a jovem enfrenta vários desafios, como o de estar fora da comunidade para estudar e de estar em espaços onde a maioria é branca. “É a primeira vez que estou em um ambiente de aprendizado e confluência que não sou maioria. Eu sempre estudei em escola quilombola. Saber que não só agora, mas a partir de agora, serei menor quantidade em vários espaços, me desafia. Isso me faz querer que os que virão após mim não tenham só representatividade, mas tenham presença, que ocupem as cadeiras das universidades com dignidade e sem medo de ser silenciado pela maioria. Sair do território foi muito mais desafiador do que pensei, mas também libertador, pois pude perceber na prática que carrego o território dentro de mim, cada memória, espaço e costume, me remete ao meu lugar de pertencimento”, disse.
Agora ela se prepara para um desafio gratificante: o de mediar, produzir e confluir, com atuação no enfrentamento ao racismo, na disseminação de experiências antirracistas e na mobilização em torno da melhoria das condições de vida das populações negras. As pessoas selecionadas para o edital serão articuladoras, multiplicadoras, dinamizadoras, socializadoras das memórias, das identidades, dos saberes, dos fazeres, das intelectualidades, das (re)existências, bem como das experiências, dos percursos, dos patrimônios negros/as e das boas práticas nos Territórios de forma sistêmica e em consonância SINAPIR.
Ela disse que ainda assimila o tamanho da responsabilidade e que está feliz com a oportunidade. “Será a continuidade de tudo que tenho vivido nos últimos anos. A Escola Nacional me incentivou a ser mediadora de conhecimento e de muitas narrativas silenciadas. O que farei no Programa de Agentes Territoriais não será diferente de tudo que tenho aprendido na escola da vida, porém com uma responsabilidade coletiva ainda maior”, destacou Débora.
A jovem maranhense agradece a ancestralidade pelas oportunidades e pensa em uma vida profissional que contribua com o seu povo. “Quero aprofundar os meus conhecimentos no Direito Constitucional/administrativo e planejo estudar e pesquisar a efetividade das políticas públicas do país, e mais do que isso, construir em coletividade políticas públicas efetivas. Os pequenos passos de lutas que percorri até aqui me conduziram a alcançar mais essa oportunidade, que não é mérito individual, é coletivo”, finalizou Débora.
A Escola Nacional de Formação de Meninas Quilombolas

A Escola Nacional de Formação de Meninas Quilombolas é uma iniciativa do Coletivo Nacional de Educação da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais (CONAQ) voltada para erguer as vozes de meninas quilombolas para uma incidência política qualificada pelo direito à educação.
O projeto sonhado por Givânia Silva, liderança quilombola da Comunidade Conceição das Crioulas, em Salgueiro (PE), nasceu para mudar a realidade de invisibilidade e discriminação estrutural das escolas e da educação oferecida nos quilombos. Para isso, oferece um programa de formação complementar, com objetivo de fortalecer o protagonismo das meninas quilombolas na luta pelos seus direitos, principalmente o acesso a uma educação quilombola diferenciada e com qualidade.
Fundada em 21 de novembro de 2022, a primeira turma da Escola formou 39 meninas e 11 meninos quilombolas com idade entre 15 e 18 anos, estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental e dos anos iniciais do Ensino Médio. Além de estudantes quilombolas, a primeira turma da Escola também formou 40 professoras e professores quilombolas ou que atuam nas escolas quilombolas. Na segunda edição, o projeto recebeu uma expressiva quantidade de inscrições, abrangendo todas as regiões e biomas do Brasil. Diante da grande adesão e da qualidade das candidaturas, a CONAQ decidiu ampliar o número de vagas ofertadas. O edital, que inicialmente previa a seleção de 65 meninas e meninos quilombolas, passou a contemplar 74 jovens.
Desde a primeira turma, a Escola Nacional se configura como um espaço favorável para a construção de estratégias coletivas de enfrentamento e resistência histórica, integrando o ativismo que meninas e mulheres quilombolas já fazem nos seus territórios com a luta por uma educação escolar quilombola e de qualidade.
Texto por Letícia Queiroz, publicado às 12:08:13
Categoria: Educação Quilombola