20 de outubro de 2026
Fumaça sufoca comunidades quilombolas no Amazonas em meio a recordes de queimadas e queda histórica no desmatamento
A Conaq manifesta preocupação e solidariedade a quilombolas, indígenas e a toda a população amazonense; enquanto governo federal mobiliza Forças Armadas, Prevfogo e recursos milionários, territórios tradicionais enfrentam crise sanitária e isolamento.
BRASÍLIA (DF) / MANAUS (AM) – A cortina de fumaça tóxica que encobre o Amazonas nas últimas semanas transformou a rotina das cidades e dos interiores em um teste diário de sobrevivência física. Diante do agravamento da estiagem e da propagação de incêndios florestais, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) manifestou profunda preocupação e solidariedade não apenas aos povos quilombolas e indígenas, mas a toda a população do estado, que sofre coletivamente os impactos sanitários e ambientais da emergência climática.
O sofrimento se repete tanto nos centros urbanos quanto nas florestas e várzeas. As queimadas afetam diretamente territórios quilombolas de Barreirinha, Itacoatiara, Manaus, Rio Preto da Eva e Parintins. Em áreas de várzea, como no Território Quilombola do Rio Andirá (em Barreirinha), o fogo atinge a vegetação ressecada pela estiagem extrema e o represamento da fumaça sobre os leitos dos rios agrava o isolamento logístico das comunidades Santa Tereza do Matupiri, São Pedro, Ituquara, Boa Fé, Trindade e Santa Fé.
O drama da asfixia no interior e na capital
A cerca de 250 quilômetros de Manaus, o Quilombo Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, localizado a cerca de oito quilômetros do centro de Itacoatiara, vivencia de perto a degradação da qualidade do ar. Uma das lideranças da comunidade, seu Valcimar Negreiros, relata o impacto direto na saúde coletiva:
“Temos que respirar esse ar poluído de muitas queimadas que estão acontecendo no Amazonas. Isso está fazendo com que a população em torno do município de Itacoatiara, Manaus, Parintins, Boa Vista do Ramos, Maués, Autazes, Iranduba, Novo Airão, sofra com a falta de ar, dores na garganta, ardor nos olhos, e essa população que está sofrendo corre para a cidade para superlotar os hospitais e as UBSs por atendimento. Eu mesmo, há duas semanas, já venho sofrendo com um pouco de falta de ar, pulmão carregado de muita fumaça. E a gente não tem muita opção de se esconder disso. Só rogamos a Deus que ele mande uma chuva que possa abafar essa fumaça e apagar um pouco esses incêndios para que volte tudo ao normal.”
A sensação de confinamento tóxico também atinge a capital do estado. No Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito, no bairro Praça 14 de Janeiro, a pedagoga e mestra em Ensino Tecnológico (IFAM-CMC) Rafaela Fonseca, de 52 anos, descreve a angústia de ver sua família adoecer dentro de casa:
“Tem dia que a gente sente aquele aperto no peito, não pode nem ligar o ar-condicionado, porque o ar puxa a fumaça toda para dentro da casa. E aí a gente vai inalando aquilo até que parece que o peito sobrecarrega. Para respirar é uma coisa muito ruim, parece que a gente tá numa caixa e colocaram fumaça ali até asfixiar. A impressão que eu tenho é de estarem nos matando aos poucos. Outro dia meu companheiro amanheceu se sufocando e com os olhos vermelhos, ardendo. Meu filho também amanheceu assim, com tosse. É uma tristeza só quando você olha para fora e você não vê nada, só aquela fumaça e aquele odor forte. Horrível.”
Do alerta histórico à asfixia diária
O cenário escancara a contradição denunciada historicamente pelas lideranças tradicionais, uma vez que, os mesmos corpos e comunidades que há anos alertam sobre a emergência ecológica e repetem que “não há justiça climática sem quilombo titulado” são agora os que sentem na pele, de forma mais violenta, a asfixia que tanto tentaram evitar. A ausência de regularização fundiária enfraquece a proteção territorial contra invasões e queimadas criminosas, deixando quem sempre preservou a floresta desprotegido diante do colapso ambiental e da fuligem.
Operações federais e combate em Itacoatiara
Para conter as frentes de fogo em áreas sensíveis, duas aeronaves do Prevfogo, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), iniciaram operações no dia 15 de outubro a partir de Itacoatiara. O aeroporto municipal se tornou base logística estratégica para abastecimento de combustível e água transportada por caminhões-pipa da prefeitura.
O combate aéreo concentra esforços na região do Rio Urubu, onde as chamas estão ativas desde o final de agosto, consumindo mais de 3 mil hectares (área equivalente a quase 4 mil campos de futebol) e atingindo parte da Terra Indígena Paraná do Arauató, do povo Mura. O monitoramento do Painel do Fogo também direciona ações para a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Sauim-de-Coleira, nas proximidades da comunidade de Novo Remanso, onde uma aeronave KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira (FAB) executou sobrevoos operacionais.
Em âmbito nacional, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, confirmou a providência do envio de 70 dispositivos de lançamento rápido de água (bambi buckets) com capacidade para mil litros cada, além de colocar tropas das três Forças Armadas à disposição do estado. A mobilização integra a força-tarefa da União que reúne 11 aeronaves de combate e apoio logístico, 290 brigadistas federais em campo, reforço da Força Nacional do SUS e o repasse de R$ 34,7 milhões aos bombeiros do Amazonas por meio do programa ProAmazon.
O paradoxo: desmatamento em queda recorde e a disputa de narrativas
Apesar da severidade da fumaça decorrente da seca climática e de incêndios sazonais, os dados oficiais apontam para um recuo expressivo no corte raso da floresta. Estimativas do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), divulgadas pelo Inpe no dia 16 de outubro de 2026, revelam que a Amazônia atingiu o menor índice de desmatamento de toda a sua série histórica, iniciada em 1988: foram 3.335 km² desmatados no bioma, marcando uma queda acumulada de 71,2% em quatro anos.
No Amazonas, a redução anual do desmatamento foi de 46,4%, caindo de 979 km² em 2025 para 525 km² em 2026, o menor patamar dos últimos dez anos e uma contração de quase 80% em comparação com os 2.594 km² registrados em 2021. Resultados semelhantes foram consolidados no Cerrado, que atingiu o menor desmatamento da sua série com 5.516,69 km² (queda de 48,4% em quatro anos).
Porém, o avanço na fiscalização do Ibama e no combate ao crime ambiental convive com a disputa eleitoral e a circulação de desinformação. Setores políticos têm misturado intencionalmente métricas distintas; desmatamento (supressão definitiva da vegetação nativa) e áreas atingidas por fogo temporário ou queimadas induzidas pela estiagem. Enquanto as narrativas se digladiam no campo político, os moradores dos quilombos e ribeirinhos seguem na linha de frente, cobrando socorro imediato, assistência médica e a chegada das chuvas para voltar a respirar ar puro.
Texto por Comunicação CONAQ, publicado às 11:12:51
Categoria: Meio Ambiente