9 de abril de 2026
“Essa vitória é coletiva”, diz primeiro professor quilombola da história da UFRGS
Jorge Amaro de Souza Borges, do Quilombo dos Teixeiras (RS), destaca a força coletiva de gerações na conquista histórica.
“Sentimento é de uma profunda gratidão à educação e ao quilombo. Essa é uma vitória coletiva e eu tenho plena convicção de que o que eu sou é fruto da luta de muita gente”.
As frases são de Jorge Amaro de Souza Borges, do Quilombo dos Teixeiras, em Mostardas, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Aos 47 anos, ele se tornou o primeiro professor quilombola da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A nomeação para a Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS ocorreu após aprovação em concurso público por ação afirmativa. Sem cotas específicas para quilombolas, Joege se inscreveu nas cotas para pretos e pardos. Ele afirma que a vitória não é individual, mas sim coletiva. A chegada de Jorge à instituição é considerada marco coletivo para as comunidades quilombolas do Rio Grande do Sul.
Integrante da Rede de Confluências de Pesquisadoras e Pesquisadores Quilombolas do Coletivo Nacional de Educação da CONAQ, Jorge também é técnico agrícola, biólogo, doutor em Políticas Públicas, pós-doutor em Desenvolvimento Rural e possui outras três especializações no currículo. Ele conta que a educação sempre foi um caminho de possibilidades e construiu toda a sua trajetória na educação pública e em instituições privadas por meio de bolsas de estudo.
Emocionado, Jorge fala sobre uma conquista que carrega o esforço de gerações que, mesmo enfrentando muitas barreiras para acessar direitos básicos, nunca deixaram de lutar pelo acesso à educação.
“A vida inteira estive dentro da escola e a escola foi o meu templo. Desde que me conheço por gente estou estudando, então a educação é o meu lugar de emancipação. Se há algo que de fato te liberta e possibilita sonhar, pensar num futuro, é a educação. Ela sempre foi uma bandeira de vida e me permitiu conquistar espaços importantes para mim. Tenho um sentimento de muita gratidão, de alegria, esperança, porque eu sempre acreditei na educação”, afirmou.
Com 20 anos de vida pública, Jorge já foi servidor estadual, municipal e também o primeiro vereador quilombola de Mostardas. Ao relembrar sua trajetória desde a infância até se tornar o primeiro professor efetivo da UFRGS, ele destaca o papel fundamental dos professores e dos seus ancestrais.
“Essa é uma vitória coletiva porque é uma vitória de todos os professores que me acompanharam ao longo da minha trajetória, desde o ensino fundamental até agora. É uma vitória da minha mãe, do meu pai, da minha avó, dos meus bisavós, dos meus tataravós, de todos os negros e negras que nada tiveram, mas muito lutaram para que a nossa geração pudesse ter alguma coisa. Então, eu tenho plena convicção de que o que eu sou é fruto da luta coletiva de muita gente. Da minha mãe, Dona Marli, que morreu com 42 anos. Do meu pai, Seu Baltazar, que é analfabeto, mas que tanto lutou para que eu estudasse”, conta Jorge.
Para ele, sua chegada para atuar na universidade também carrega um sentido coletivo. Jorge afirma que antes de ser professor, é quilombola e que será acompanhado por sua identidade em todos os espaços. A conquista reafirma que os quilombos produzem ciência, transformam realidades e devem ocupar os espaços acadêmicos.
“Eu não quero ser um professor quilombola. Eu quero ter o direito de ser um quilombola professor. Que eu possa trazer para dentro da UFRGS, saberes e fazeres epistemológicos do quilombo, de o quilombo também do seu jeito produz ciência o quilombo também do seu jeito produz conhecimento, o quilombo também do seu jeito tem uma história própria que precisa ser reconhecida valorizada. Eu espero que a minha presença na UFRGS possa também plantar o sentimento de pertencimento do povo negro, de que este lugar é um lugar que também é nosso. E que a gente precisa estar nele”.
O professor, que sonha com um lugares mais justos para todas as pessoas, conta que já se inspirou nos seus antepassados agora também enxerga sua presença como inspiração para outras gerações.
“ Um mundo melhor passa por uma profunda transformação na educação. […] Que eu possa inspirar outras gerações de pessoas pretas a estarem aqui, como estudantes, como servidores, como professores. Porque é assim que a gente vai construir um mundo sem racismo. Um mundo justo para todas as pessoas. O mais importante que eu digo da inclusão é a presença. Que a minha presença aqui possa ser uma presença com significado para a universidade, mas, principalmente, para o meu povo quilombola.”.

Texto por Letícia Queiroz, publicado às 16:03:29
Categoria: Educação Quilombola