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12 de agosto de 2026

Entre os vãos do Kalunga e os caminhos do Direito: Vercilene Dias se torna a primeira quilombola doutora em Direito

Transformando vivências quilombolas em conhecimento e abrindo caminhos acadêmicos.

Nesta terça-feira (11), a Universidade de Brasília (UNB), foi palco de mais um marco histórico na trajetória dos povos quilombolas. Marcados ao longo de suas existências pela negação de direitos básicos, como a educação, os povos oriundos de comunidades tradicionais têm impulsionado a ruptura dos muros impostos entre quilombos e universidades. 

A escravidão teve inicio no Brasil por volta de 1530, a abolição da mesma ocorreu em 1888, a primeira universidade pública foi criada em 1912, só até aqui, são 382 anos de exclusão direta do povo negro no ensino  superior. Mesmo após a consolidação das universidades federais neste país, adentrar esses espaços era uma realidade distante para quem continuava preso nas correntes invisíveis do sistema. 

Mas nenhuma barreira de apagamento, nem o formato de uma sociedade estruturalmente racista puderam silenciar as vozes quilombolas, que desde os vão de seus territórios ecoavam e agora ecoam ainda mais fortes, também nas academias. Foram as nossas mãos que construíram esse Brasil, aqui não somos minorias e não precisamos pedir licença para existir e ocupar os lugares que são nossos por direito. 

 

Do território para o território

Foto: acervo pessoal

 

Hoje celebramos a trajetória de Vercilene Francisco Dias, a primeira quilombola doutora em Direito no Brasil, uma conquista coletiva que representa a continuação do legado de Dandara, Zumbi e tantos outros que vieram antes. Eles defendiam nossos quilombos, munidos pela força da natureza e seus ensinamentos, a Drª também carrega a força que herdou dos nossos ancestrais, mas além disso, agora, se soma a força jurídica, para fazer valer os direitos quilombolas. 

 

Ao iniciar sua defesa de tese intitulada “Começo, meio e começo”: O direito achado entre os vãos do Território Kalunga, a Drª se apresentou como advogada popular quilombola, criada entre os vão do quilombo Kalunga, enfatizando que sua tese é também uma escrevivência e uma escuta vivência: nasce de suas experiências e das vivências do seu povo, construída a partir dos diálogos e aprendizados compartilhadas em comunidade.

 

A quilombola afirmou que não escreveu um material para a academia, mas sim para o seu povo, buscando uma linguagem que se conectasse com aqueles que foram historicamente afastados dos espaços acadêmicos. Isso reafirma o compromisso com os seus, até mesmo em suas escritas.

 

Conquista Coletiva

Foto: acervo pessoal

Aprovada pela banca examinadora composta pelo Prof. Dr°. Geraldo de Sousa Júnior – Orientador (UNB); Profª. Pós-Drª. Talita Tatiana Dias Rampin (UNB); Profª. Drª. Givânia Maria da Silva (CONAQ); Profª. Drª. Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega (UFG) e Drª. Marta Quintiliano (TJGO). Sua conquista é do Kalunga, das comunidades quilombolas e de todos aqueles que seguem transformando conhecimento, resistência e ancestralidade em caminhos de futuro. 

Parabéns Drª. Vercilene, que sua trajetória continue fortalecendo essa caminhada coletiva,  para que mais corpos, vozes e saberes quilombolas ocupem todos os espaços.