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20 de abril de 2026

Comunidades quilombolas do Recôncavo constroem articulação territorial e coletiva

Iniciativa reúne formação política, produção coletiva e incidência junto ao poder público.

O Núcleo de Desenvolvimento dos Quilombolas do Território do Recôncavo realizou uma de suas reuniões no Quilombo Vila Guaxinim, no município de Cruz das Almas, no dia 11 de abril. O encontro reuniu lideranças quilombolas e contou com a participação de estudantes do curso de Design da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com o objetivo de firmar parcerias para o desenvolvimento de rótulos dos produtos dos núcleos produtivos.

A experiência já inspira outras comunidades quilombolas no estado, embora ainda enfrente desafios relacionados à falta de recursos e de equipes para ampliar as ações. Ainda assim, o processo segue consolidando caminhos baseados na coletividade, na autonomia e na defesa dos territórios quilombolas. Esta organização desta região do estado baiano tem como base a atuação do Centro de Educação e Cultura Vale do Iguape, no município de Cachoeira, onde estão presentes 18 comunidades.

A construção do núcleo de desenvolvimento partiu da percepção de desigualdades nos níveis de organização entre as comunidades. De acordo com Ananias Viana – Quilombola Ativista, enquanto algumas comunidades avançavam a partir da organização coletiva e de projetos já em andamento, outras ainda enfrentavam maiores dificuldades de articulação.

A partir desse diagnóstico, lideranças locais iniciaram um processo de mobilização em outros municípios do território, com rodas de conversa e articulações que resultaram na criação de uma organização em nível territorial. Esse movimento nasceu da experiência já construída no município, que contribuiu para organizar e ampliar a articulação entre as comunidades.

Articulação territorial e incidência política

Foto: Acervo CONAQ

O modelo organizativo construído se baseia na representação coletiva, em que cada comunidade indica duas lideranças, garantindo a participação de homens, mulheres e jovens no processo. As reuniões acontecem de forma bimensal e são realizadas de maneira itinerante, fortalecendo o vínculo entre os territórios e ampliando a participação.

Além da organização interna, o núcleo também estruturou estratégias de incidência política. Um dos principais instrumentos é a carta das comunidades quilombolas do território do Recôncavo, elaborada coletivamente e atualizada anualmente. O documento reúne as principais demandas das comunidades e orienta as ações desenvolvidas ao longo do ano.

A carta é apresentada em uma plenária que reúne representantes do poder público municipal, estadual, órgãos federais e universidades. Nesse espaço, as comunidades realizam a leitura pública das suas demandas e entregam o documento às instituições presentes, comprido com o encaminhamento das pautas apresentadas.

Formação, produção e fortalecimento coletivo

Ao longo de cerca de 12 anos, a iniciativa tem contribuído para o fortalecimento da organização coletiva nas comunidades quilombolas do território. A formação política contínua e o incentivo à construção de iniciativas produtivas coletivas têm sido pilares desse processo.

Entre as estratégias adotadas está a criação de núcleos produtivos que valorizam os saberes e os recursos já existentes nas comunidades, especialmente nas áreas de alimentação, sustentabilidade e economia local.

“A gente decidiu que não investe no individualismo. Tudo que é construído precisa ser coletivo, e isso tem fortalecido muito o processo de produção nas comunidades”, afirma Ananias Viana – Quilombola Ativista

Parcerias com universidades também vêm ampliando as possibilidades de apoio técnico. Estudantes, por exemplo, têm contribuído com demandas relacionadas à rotulagem e à qualificação dos produtos, fortalecendo a inserção das comunidades em novos mercados.