30 de maio de 2026
CONAQ 30 anos: a comunicação que transformou silêncio em incidência
Da denúncia de violações à conquista do Prêmio Sim à Igualdade Racial, comunicadores quilombolas e indígenas fortalecem narrativas próprias e ampliam a voz dos territórios no Brasil e no mundo.
Durante décadas, quilombolas precisaram enfrentar não apenas a violência fundiária, o racismo estrutural e as ameaças aos seus territórios, mas também o apagamento sistemático de suas histórias nas grandes mídias. Ao completar 30 anos, a CONAQ enfatiza que disputar a narrativa sempre foi parte central de sua luta.
Muito antes da internet chegar aos territórios, a comunicação já operava como ferramenta de resistência coletiva. Nas assembleias, nas viagens entre comunidades, nos encontros políticos, nas rodas de conversa e na oralidade ancestral, quilombolas construíram estratégias de articulação capazes de conectar territórios e fortalecer mobilizações em defesa da vida, da terra e dos direitos coletivos.
Para Nathalia Purificação, coordenadora de comunicação da CONAQ, a ideia de que comunicação se resume a jornalismo, redes sociais ou tecnologia é limitada diante da experiência histórica dos quilombos. Segundo ela, desde a formação dos primeiros quilombos no Brasil, comunicar sempre significou proteger comunidades, compartilhar saberes e construir incidência política.
“A comunicação social e popular é feita na base dos territórios. Ela acontece no boca a boca, nas articulações e nas construções coletivas feitas diariamente pelos nossos povos”.
Comunicação popular fortalece defesa territorial e justiça racial
Ao longo de três décadas, o movimento ampliou sua capacidade de incidência pública ao transformar experiências comunitárias em instrumentos políticos de alcance nacional e internacional. O avanço das tecnologias digitais abriu novos caminhos para fortalecer denúncias, pressionar instituições e visibilizar violações que historicamente eram ignoradas pelo Estado e pela mídia tradicional.
Esse processo, no entanto, não aconteceu sem desafios. A exclusão digital, a ausência de infraestrutura básica e as desigualdades históricas impostas aos quilombos dificultaram o acesso às novas ferramentas de comunicação. Ainda assim, os territórios reinventaram linguagens, ocuparam plataformas e consolidaram redes próprias de informação.
A comunicação quilombola passou a desempenhar papel estratégico na denúncia de conflitos territoriais, no combate ao racismo ambiental e na defesa de políticas públicas voltadas às comunidades tradicionais. Mais do que divulgar ações, ela se transformou em mecanismo de sobrevivência política.
Para a comunicóloga de 27 anos, compreender a dimensão dessa comunicação exige ampliar o próprio conceito do que significa comunicar. “Ela não se limita à internet, ao celular ou a um site de notícias. Ela é muito maior do que isso. Ela nasce das relações construídas dentro dos territórios”.
Rádio Nacional dos Povos rompe dependência da mídia tradicional

Foto: Inauguração da Rádio Nacional dos Povos no dia 01/08/25. Crédito: Thaís Rodrigues
A criação de um canal de comunicação feita pelos povos e para seus povos veio para quebrar um ciclo. A Rádio Nacional dos Povos representa um dos marcos mais importantes do processo de fortalecimento das narrativas próprias. Construída coletivamente por comunicadores quilombolas e indígenas, a iniciativa une ancestralidade e tecnologia para ampliar a circulação de informações produzidas pelos próprios povos tradicionais.
A proposta da web rádio parte do princípio da oralidade, elemento histórico das culturas quilombolas e indígenas, aliado às ferramentas digitais contemporâneas. O objetivo é garantir autonomia narrativa e romper com a dependência histórica de veículos tradicionais que, muitas vezes, só enxergam os territórios em contextos de violência, assassinatos e violações.
Segundo a também apresentadora da RNP, a conquista do Prêmio Sim à Igualdade Racial no último dia 13 de maio simboliza justamente esse processo de adaptação e resistência diante das transformações tecnológicas da comunicação contemporânea. “Ele representa reconhecimento, visibilidade e oportunidade para levar as demandas dos quilombos ainda mais longe”, afirmou.
Referência
A premiação também evidencia o impacto político da Rádio Nacional dos Povos enquanto ferramenta de mobilização social e enfrentamento ao racismo estrutural na mídia brasileira. Por muito tempo, quilombolas dependeram de veículos que invisibilizavam suas experiências positivas, saberes ancestrais, práticas agroecológicas, produção cultural e formas coletivas de organização. Enquanto isso, a falsa narrativa de comunidades pobres e episódios de violência eram frequentemente tratados como únicas pautas possíveis sobre os povos tradicionais.
Diante desse cenário, a web rádio surge para inverter essa lógica e garantir que quilombolas e indígenas contem suas próprias histórias a partir de seus olhares, memórias e vivências.
Em um país marcado pela concentração midiática e pelo racismo estrutural, transformar silêncio em incidência política é parte fundamental da luta quilombola por justiça, dignidade e bem viver.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 16:07:22
Categoria: Juventude