26 de junho de 2026
Casa de Farinha é Casa Sagrada: respeito aos espaços de cultura, trabalho e ancestralidade
Confira!
O Quilombo Divino Espírito Santo, localizado em São Mateus (ES), vem a público reafirmar um princípio que é inegociável: casa de farinha não é palco. Casa de farinha é território sagrado.
É na casa de farinha que a mandioca se transforma em alimento, mas também é onde os saberes ancestrais são compartilhados, a memória coletiva é preservada e a vida comunitária se fortalece. Ali, a conversa se transforma em organização política, a reza fortalece a espiritualidade, o canto perpetua a história e o trabalho coletivo garante dignidade às famílias.
A casa de farinha é patrimônio cultural vivo. É espaço de produção, de transmissão de conhecimentos, de geração de renda, de resistência e de afirmação da identidade quilombola.
Recentemente, fomos surpreendidos por uma publicação realizada por um morador da comunidade. Embora toda pessoa tenha o direito democrático de manifestar suas opiniões e críticas, esse direito não pode servir de justificativa para ridicularizar uma tradição secular nem utilizar um espaço sagrado do quilombo como cenário para conteúdos que promovam desrespeito, deboche ou discursos de ódio.
Não aceitaremos que nossas casas de farinha sejam utilizadas:
- como cenário para ridicularizar o trabalho de homens e mulheres quilombolas;
- como instrumento para a propagação de discursos de ódio ou ataques políticos;
- como espaço de invasão sem autorização da comunidade;
- como fundo para produções audiovisuais, inclusive geradas por inteligência artificial, sem consulta ou consentimento da comunidade.
Cada casa de farinha carrega a história de quem ralou mandioca, alimentou gerações, criou seus filhos com o fruto desse trabalho coletivo e manteve viva uma tradição transmitida de geração em geração. Desrespeitar esse espaço é desrespeitar nossa memória, nossa ancestralidade e nosso modo de vida.
Por isso, exigimos:
- Respeito imediato às casas de farinha como espaços de trabalho, cultura, espiritualidade e patrimônio coletivo, vedando seu uso para fins políticos, pessoais ou comerciais sem autorização da comunidade.
- Compromisso com a valorização da história e da luta do povo quilombola, reconhecendo que nossas tradições merecem respeito e não podem ser tratadas como objeto de deboche.
- Apuração dos fatos e posicionamento público da associação da comunidade diante do ocorrido, considerando que a pessoa envolvida é filiada à entidade, para que sejam adotadas as medidas cabíveis em defesa da coletividade e de seu patrimônio cultural.
Nós não guardamos apenas farinha.
Guardamos a memória de nossos ancestrais.
Guardamos os conhecimentos que atravessaram gerações.
Guardamos a dignidade de um povo que transformou trabalho coletivo em resistência.
Quem desrespeita a casa de farinha desrespeita nossos mais velhos, nossa história e nossa ancestralidade.
Quem utiliza nosso território para disseminar intolerância ataca os valores da convivência democrática, do respeito à diversidade e dos direitos dos povos quilombolas.
A casa de farinha é casa de paz.
É espaço de trabalho, de partilha, de memória e de vida.
Por isso, reafirmamos: respeitem nosso templo sagrado.
Saudações quilombolas.
Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ)
Leia a nota na íntegra aqui!
Texto por Comunicação CONAQ, publicado às 11:28:33
Categoria: Notas da CONAQ