2 de agosto de 2026
Atlas de Sociobioeconomia Quilombola fortalece diálogo e mapeia potencialidades em comunidades de Rondônia
Expedição percorreu mais de 14 horas entre estrada, rio e trilhas para realizar oficinas em Laranjeiras e Porto Rolim de Moura do Guaporé, territórios quilombolas marcados pela resistência e ancestralidade.
Na última terça-feira (28), os consultores do projeto Atlas de Sociobioeconomia Quilombola iniciaram mais uma etapa de trabalho de campo nos territórios quilombolas de Rondônia, levando oficinas, atividades de diagnóstico participativo e ações de comunicação voltadas ao fortalecimento local.
A expedição partiu de Porto Velho com destino a Alta Floresta d’Oeste, em uma viagem de aproximadamente 11 horas. Após pernoite no município, a equipe seguiu por mais duas horas e meia até Porto Rolim de Moura do Guaporé. O percurso continuou em embarcação pelo Rio Guaporé, que faz fronteira com a Bolívia, por cerca de 30 minutos e, posteriormente, por mais três a seis horas de deslocamento até chegar à comunidade quilombola de Laranjeiras, localizada no município de Pimenteiras do Oeste.
A jornada evidenciou um dos principais desafios enfrentados pelas comunidades da região: o isolamento geográfico e a distância dos serviços públicos e dos centros urbanos.
Juventude assume papel estratégico no cuidado com a comunidade

Foto: Mylena Pereira
Durante a visita, um dos aspectos que mais chamou a atenção da equipe foi a atuação da juventude quilombola no apoio às famílias e às pessoas mais idosas.
Em comunidades onde os deslocamentos são longos e o acesso a serviços depende de viagens por rio e estrada, os jovens desempenham um papel essencial na busca por recursos, atendimento e apoio às necessidades da população mais velha. Essa colaboração entre gerações fortalece os laços comunitários e garante maior autonomia às famílias que vivem em áreas de difícil acesso.
No dia seguinte à chegada, cerca de 15 moradores participaram das atividades promovidas pelo projeto. Entre eles, estavam famílias inteiras, incluindo uma criança de aproximadamente um ano de idade, reforçando o caráter coletivo e intergeracional da iniciativa.
Oficinas fortalecem a sociobioeconomia e a comunicação comunitária

Foto: Mylena Pereira
Já em 31 de julho, a programação em Laranjeiras reuniu moradores em uma série de atividades voltadas ao fortalecimento da organização comunitária e da bioeconomia.
A agenda incluiu a apresentação do projeto e as boas-vindas aos participantes realizadas por Laura Silva, coordenadora executiva da CONAQ e do projeto; a análise FOFA (Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças), conduzida pelo consultor Hilton Lucas; o diagnóstico participativo da sociobioeconomia local, ministrado por Maria Helena Santos; e uma oficina de comunicação com ensaio fotográfico, valorizando a identidade e a memória da comunidade.
As atividades buscam construir, de forma participativa, um retrato das potencialidades econômicas, culturais e ambientais dos territórios quilombolas, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias sustentáveis alinhadas à realidade local.
História, pertencimento e resistência

Foto: Mylena Pereira
Morador de Laranjeiras, o quilombola Adelson Tapeci Gonçalves representa uma das famílias fundadoras da comunidade. Nascido no território, ele saiu para estudar em Porto Velho e retornou em 1997 para dar continuidade à história construída por seus antepassados.
Segundo ele, sua família chegou à região ainda com seu bisavô, Marcelino Gonçalves, vindo de Vila Bela da Santíssima Trindade, em Mato Grosso. Desde então, quatro gerações permaneceram no território, consolidando a comunidade.
“O sofrimento dos meus avós e dos meus pais foi muito grande para garantir uma vida melhor para nós. Hoje continuo lutando para que os direitos da comunidade não sejam esquecidos e para que possamos conquistar melhorias”, afirma.
A identidade de Laranjeiras também está ligada à sua história. De acordo com Adelson, o nome da comunidade surgiu pela grande quantidade de pés de laranja existentes na região, registrada inclusive em fotografias antigas da família.
Produção local enfrenta desafios logísticos
Entre as principais atividades econômicas desenvolvidas pela comunidade estão o turismo de base comunitária, o cultivo de café e a produção de frutas, como laranja, lima e toranja.
O turismo representa atualmente a principal fonte de renda das famílias, embora aconteça apenas durante cerca de quatro meses do ano. Nos demais meses, a comunidade enfrenta dificuldades para manter a renda.
Já a produção agrícola é destinada, em grande parte, ao consumo das próprias famílias. A dificuldade de transporte impede que frutas e outros produtos sejam comercializados regularmente.
Segundo o produtor, muitas colheitas acabam sendo perdidas porque a comunidade não dispõe de embarcações adequadas para transportar a produção até o município de Pimenteiras do Oeste.
“O café que produzimos já abastece nossas famílias há três anos. Antes precisávamos comprar café na Bolívia, mas hoje consumimos o que plantamos aqui”, relata.
Porto Rolim de Moura do Guaporé: encontro de povos e culturas às margens do rio

Foto: Mylena Pereira
Após as atividades em Laranjeiras, a equipe do Atlas permaneceu em Porto Rolim de Moura do Guaporé, onde realizou oficinas e escutas comunitárias com moradores do território.
Situada às margens do Rio que da nome ao local, a comunidade reúne diferentes povos tradicionais e abriga aproximadamente 1.050 moradores, entre quilombolas, indígenas, ribeirinhos e famílias bolivianas. Desse total, cerca de 60 pessoas se autodeclaram quilombolas.
A principal atividade econômica local é o turismo associado à temporada de pesca, que ocorre entre os meses de junho e outubro. Durante esse período, pescadores e visitantes chegam à região atraídos pela abundância de peixes do Rio Guaporé, considerado um dos mais importantes da Amazônia Ocidental.
A atividade movimenta diversos setores da comunidade. Além dos guias de pesca, moradores atuam como cozinheiras, camareiras, roupeiras, piloteiros e prestadores de serviços ligados à hospedagem. Atualmente, existem quatro estabelecimentos de hospedagem na localidade, sendo um deles pertencente a uma família quilombola.
Nos períodos de baixa temporada, quando o turismo diminui significativamente, muitas famílias precisam complementar a renda trabalhando em fazendas da região ou investindo em pequenas produções agrícolas e criação de animais.
Ancestralidade que atravessa gerações

Foto: Mylena Pereira
Entre as lideranças que participaram das atividades está Angeline Gomes Balbino, agente territorial, professora e liderança quilombola de Porto Rolim de Moura do Guaporé. Nascida na comunidade, a docente saiu apenas para estudar e retornou ao território após concluir sua formação superior. Hoje, atua há mais de 12 anos como professora da Escola Ana Neri, reafirmando o compromisso com a educação e a valorização da história local.
Segundo ela, a origem da comunidade está ligada às famílias Prudêncio Gomes e Quintão, consideradas fundadoras da vila.
“Quem fundou a vila aqui foi a família de Prudêncio Gomes e Noberto Quintão. Depois vieram outras pessoas e a comunidade foi crescendo. Hoje praticamente todo mundo é parente de todo mundo”, contou.
A agente explicou que seus antepassados vieram de Vila Bela da Santíssima Trindade, território historicamente reconhecido pela presença quilombola. Ao longo dos anos, as famílias permaneceram na região, construindo laços de pertencimento profundamente conectados ao território. “Para nós, o território é vida, ancestralidade e lembranças. As pessoas podem até sair, mas sempre voltam. Ninguém sabe viver longe daqui”, concluiu.
A origem e a memória do território

Foto: Mylena Pereira
A história do nome da comunidade também faz parte da memória preservada pelos moradores. Segundo os relatos transmitidos entre gerações, o local recebeu o nome de Rolim de Moura em referência a Dom Antônio Rolim de Moura, explorador que percorreu a região do Guaporé durante o período colonial.
De acordo com a narrativa local, uma enfermidade durante a viagem teria feito com que ele permanecesse temporariamente na área, transformando o local em um ponto de parada. A partir desse episódio, o nome passou a identificar a região e, posteriormente, a comunidade.
Mais do que um registro histórico, essas narrativas ajudam a fortalecer o sentimento de pertencimento e a valorização da memória coletiva.
Tradições que mantêm viva a identidade quilombola
Entre as manifestações culturais mais importantes está a Festa do Divino Espírito Santo, considerada patrimônio cultural estadual e uma das celebrações religiosas mais tradicionais do Vale do Guaporé.
Segundo Angeline, a primeira edição da festa aconteceu justamente em Porto Rolim de Moura do Guaporé e, ao longo dos anos, expandiu-se para outras localidades, reunindo comunidades quilombolas, indígenas e moradores do Brasil e da Bolívia.
A celebração ocorre tradicionalmente em julho e faz parte da identidade cultural da região. Neste ano, entretanto, a programação foi reduzida devido ao falecimento de Rosa Gomes, matriarca responsável por manter viva a tradição durante décadas.
“Ela herdou essa responsabilidade da família e dedicou grande parte da vida à realização da festa. Sua partida representa uma grande perda para a comunidade”, destacou.
Educação e valorização da história local

Foto: Mylena Pereira
Fundada em 1975, a Escola Ana Neri é um dos principais patrimônios da comunidade. Embora a educação quilombola ainda não esteja plenamente implementada, os professores desenvolvem projetos que valorizam a ancestralidade, a cultura negra e a história do território.
Todos os anos, estudantes realizam pesquisas sobre a comunidade, entrevistam moradores e apresentam trabalhos que fortalecem a memória coletiva. “O último tema que trabalhamos foi sobre mulheres que contribuíram para a comunidade. Os estudantes pesquisaram suas histórias e apresentaram para toda a população”, explicou.
A escola também desenvolve atividades voltadas ao Dia da Consciência Negra e à valorização das trajetórias das famílias quilombolas locais.
Sociobioeconomia e desafios para o desenvolvimento
Além do turismo, a comunidade mantém pequenas produções agrícolas voltadas principalmente para o consumo familiar. Entre os produtos cultivados estão mandioca, abacaxi, hortaliças e criação de galinhas.
Apesar do potencial produtivo, a ausência de assistência técnica contínua é apontada como um dos principais entraves para o fortalecimento da agricultura local.
“A maior dificuldade é a falta de extensão rural. Quando ela chega, muitas vezes os processos são burocráticos e difíceis para os moradores acompanharem”, relatou Angeline.
Por fim, para a liderança, iniciativas como o Atlas são fundamentais para tornar visíveis as histórias, os modos de vida e as potencialidades existentes nos territórios. “Quero que as pessoas conheçam nossa história, entendam como a comunidade surgiu e valorizem a vivência das famílias que estão aqui. A natureza é importante, mas nossa história também precisa ser conhecida”, concluiu.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 13:40:00
Categoria: Territórios Quilombolas