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31 de março de 2026

Visibilidade trans quilombola: resistência, identidade e luta por direitos nos territórios

No 31 de março, liderança da CONAQ destaca desafios e caminhos para garantir inclusão nas comunidades

A busca por igualdade e inclusão segue como um desafio constante para quem enfrenta, diariamente, o acesso limitado a serviços essenciais e a ausência de representatividade nos espaços de decisão. Essa realidade marca a vida da população LGBTQIAPN+, especialmente em contextos rurais. Neste cenário, compreender as vivências em comunidades negras tradicionais é fundamental.

No marco do Dia Internacional da Visibilidade Trans, a liderança quilombola Adda Vyctoria Caetano, do território Conceição dos Caetanos, em Tururu (CE), reforça a urgência desse debate: “A existência de pessoas trans quilombolas é, por si só, um ato de resistência e continuidade da nossa história”.

Desafios interseccionais nos territórios quilombolas

Ao olhar para a realidade das mulheres trans quilombolas, é necessário reconhecer a complexidade de suas trajetórias. Trata-se de uma vivência atravessada por diferentes formas de opressão que exigem atenção específica e sensível.

Elas não apenas compartilham das lutas por reconhecimento territorial, como também enfrentam barreiras impostas por padrões rígidos de gênero. “Enfrentamos desafios profundamente interligados, marcados pela sobreposição de racismo, transfobia e desigualdade social”, afirma a líder da comunidade cearense.

Nesse contexto, a invisibilização se torna um obstáculo recorrente. Ainda assim, há consciência de pertencimento e protagonismo. “Sabemos da nossa importância e de nossos corpos dentro dos nossos territórios. Somos fazedoras da cultura e preservamos tradições, mesmo diante das dificuldades”, destaca.

As desigualdades econômicas aprofundam esse cenário, limitando o acesso a políticas públicas e oportunidades. “Há barreiras no reconhecimento de nossas identidades, tanto institucionalmente quanto dentro das próprias comunidades”, explica.

Direito ao território, segurança e dignidade

O vínculo com a terra vai além da herança cultural ou da subsistência. Para muitas, representa também a possibilidade de viver com mais segurança e afirmar quem são. “Muitas vezes, nossos territórios são os únicos espaços onde buscamos viver com dignidade, mas ainda enfrentamos desafios para sermos plenamente respeitadas”, pontuou.

Inclusão e fortalecimento no movimento quilombola

Diante desse cenário, o papel das organizações é central para promover mudanças concretas. Para Adda, é necessário ampliar o debate e fortalecer ações dentro e fora das comunidades.

“É essencial promover formação política e comunitária sobre diversidade de gênero, conectando esse debate à luta histórica por dignidade, território e direitos”, afirma.

Ela também ressalta a importância de estruturas de acolhimento. “Precisamos de espaços seguros de escuta, além de políticas que garantam acesso à saúde integral, educação inclusiva e geração de renda”.

Entre as principais demandas, destacam-se:

  • Profissionais capacitados para atendimento em saúde voltado à população LGBTQIAPN+ quilombola;
  • Políticas direcionadas ao envelhecimento dessa população;
  • Incentivo à cultura como estratégia de fortalecimento social;
  • Criação de casas de acolhimento para pessoas em situação de violência.

“Fortalecer redes entre juventudes, mulheres e pessoas LGBTQIA+ amplia a proteção coletiva”, acrescentou.

Educação, saúde e garantia de direitos

No campo educacional, é fundamental construir ambientes que respeitem as diferenças e promovam oportunidades iguais de aprendizagem.

Na área da saúde, o acesso precisa considerar necessidades específicas. “O atendimento deve ser integral e respeitoso, incluindo acompanhamento em saúde mental e outros cuidados essenciais”, reforçou a produtora cultural.

Já no âmbito das políticas públicas, é indispensável avançar na criação de medidas que enfrentem a discriminação e ampliem a participação social, garantindo escuta e reconhecimento em diferentes espaços.

Liderança, pertencimento e transformação

Por fim, para a figurinista afro, ocupar espaços de liderança enquanto mulher trans quilombola carrega um significado profundo. “É resistência, coragem e compromisso com quem veio antes e com quem ainda virá. É romper silêncios históricos impostos pelo racismo e pela transfobia”, afirma.

Sua atuação também contribui para abrir caminhos. “Transformamos dor em luta coletiva, para que outras pessoas não precisem enfrentar sozinhas as violências”, diz. Mais do que visibilidade, trata-se de afirmar existência. “É sobre pertencimento, dignidade e o direito de existir plenamente com voz, respeito e poder de decisão”.